PALAVRA DE PALHAÇO

Sebastian

Tenho a esperança de algum dia mudar padrões estabelecidos


Por:Enano Torres

2018-10-15
Quero viver num país onde não me sinta culpado por ter dois cães e tentar fazer vida normal junto deles

Imaginem que estão almoçando no Pátio Alentejano, em Vila Nova de Milfontes ou no Tarro, em Odemira ou, já agora, na Varanda da Aldeia, em São Luís (lugares onde faço questão de visitar ao longo do ano por gosto gastronómico), quando reparas que a teu lado se sentam duas mulheres e uma delas está com um cão com trela. O animal obedece à ordem da sua dona e senta-se ao lado da mesa estendido silenciosamente como algo normal. O empregado chega entrega a ementa às senhoras e elas pedem o que desejam. O resto das pessoas do restaurante estão tranquilamente almoçando sem prestar a mínima atenção de que existe um cão no local. Elas almoçam sossegadamente pondo a conversa em dia. Passa uma meia hora, pedem a conta, pagam e vão embora junto com animal que, durante todo esse tempo, tem estado tranquilamente no local, apenas interrompido por um cliente que fez questão de ir ter com ele para lhe dar uma festinha.

 

Pois bem, isto mesmo sucedeu num restaurante no centro de Praga, capital da República Checa há duas semanas atrás quando lá estive por questões profissionais.

 

Confesso que fiquei admirado com a normalidade como tudo aconteceu. Se calhar o único anormal fui eu que fiz questão de me levantar da mesa, durante a sobremesa das senhoras, para pedir autorização à dona para tirar a foto que partilho convosco, caros mercurianos. De seguida expliquei o motivo pelo qual tirava a foto, explicando que em Portugal é realmente impossível entrar com um animal de estimação num restaurante e almoçar ou jantar como se fosse algo normal. Expliquei que em Portugal a primeira coisa que encontras é um autocolante à porta proibindo a entrada de cães (animais) e, no caso de não existir, se eu tentasse entrar com o meu galgo, seria um escândalo tanto para os clientes como para os empregados do restaurante e não demoraria nem um minuto em ter que colocar  o cão na rua por obrigação. Ainda por cima as pessoas pensariam que sou maluco por ir almoçar junto do meu melhor amigo e teria três hipóteses: ou ficaria amarrado num qualquer lugar fora como um excluído enquanto eu comia dentro do local; ou teríamos de ir embora ou ainda, se porventura existisse esplanada, se calhar até o deixariam ficar por lá, embora não seja comum e algumas pessoas olhariam com cara de incredulidade.

 

Enquanto explicava este facto em “spainenglish” a mulher ficava espantada e respondeu-me que lá é normal e que a seguir com a amiga e Valentim (nome do cão) iria ao cinema! Agora o espanto foi meu e conferi com ela de novo se tinha percebido bem: You can go with the dog to the Cinema? Ao que me respondeu - Off course, we can…

 

Guau! Imaginei jantar, uma sexta-feira, no Tarro e a seguir poder ir com meu animal ao Cineteatro Camacho Costa ver um filme! Seria simplesmente Maravilhoso!

 

Meu Deus, eu quero viver num país assim! Onde não me sinta culpado por ter dois cães e tentar fazer vida normal junto deles e, na maioria das situações em Portugal, não me olhem como um estranho. No Alentejo ainda é pior, uma cultura onde a maioria dos cães servem para estarem presos a guardar o monte ou para a caça e onde, no verão, não conseguimos ir com os nossos cães às praias por proibição, onde teoricamente dizem que deixam sujidade e a seguir pensas que vais ter um dia normal de praia e podes verificar que os humanos são muitos mais sujos que os cães.

 

A repressão está na nossa mente, sempre tenho a esperança de algum dia mudar padrões estabelecidos e verificar que os cães são tratados com a justiça que merecem de igual forma que as pessoas.

 

Obrigado Sebastian por permitires partilhar a tua excelente conduta e, já agora, se fossemos mais sensíveis, deveríamos aprender mais com o comportamento deles.

 

Enano Torres