OPINIÃO PÚBLICA

Entre o ter e o ser


Por:Fernando Almeida

Clem Onojeghuo - unsplash
2018-10-15
Quantas pessoas escolheram a sua profissão mais pela expectativa do rendimento que ela pode proporcionar que pela vocação que sentiam para a realizar?

Desconfio sempre daqueles que gostam demasiado de dinheiro: aqueles que não usam o dinheiro para viver, mas pelo contrário, vivem para ter dinheiro. Nos dias que correm são muitos, e não admira: para a maioria das gentes deste nosso tempo o prestígio social mede-se pelo que se tem, e não pelo que se é. Sendo assim, é preciso, é necessário, é indispensável “ter”. O “ser” passou a coisa menor e secundária.

 

Dramático foi ter-se perdido quase de todo a importância dada ao indivíduo pelo que é, pelo comportamento generoso, pela verticalidade de caráter, pelo apego à verdade, pelo altruísmo, e por muitas outras virtudes da nossa cultura tradicional, que são em boa medida as virtudes da nossa velha civilização judaico-cristã e até de algum modo virtudes universais do ser humano. Perdeu-se em simultâneo o medo de Deus e dos Seus castigos. Aquele Deus omnipresente, capaz de tudo saber, e do qual nada se podia esconder. E os medíocres, os que modelavam o seu comportamento temendo apenas as penas eternas do inferno, agora sem medo, mas também sem a ideia do bem e do mal que só um estado mais elevado de consciência confere, passaram a estar de mãos livres para violar as normas milenares da nossa civilização.

 

Quem observe com atenção o fenómeno social e analise os comportamentos humanos individuais que nele se desenvolvem, verá que esta realidade, embora passe facilmente despercebida, é responsável por grande parte dos problemas do mundo atual. A corrupção, dada como cancro das nossas sociedades ocidentais assaltará de imediato o pensamento de todos: se o reconhecimento social não se obtém pelas virtudes morais mas antes pelo dinheiro, é natural que muitos se deixem tentar… Mas embora esta seja uma relação óbvia, não é a que piores consequências tem para a vida das comunidades e para a própria sobrevivência da espécie.

 

Pensem um pouco em relações menos evidentes, mas não menos fortes ou importantes. Quantas pessoas escolheram a sua profissão mais pela expectativa do rendimento que ela pode proporcionar que pela vocação que sentiam para a realizar? E quantos deles são profissionais falhados, mais preocupados com o dinheiro que vão receber que com a qualidade do trabalho que realizam diariamente? E quantos o realizam mal, precisamente porque nunca tiveram vocação para ela?

 

Se o que se tem é afinal o mais importante, que mal fará por exemplo poluir um rio, matar os seres vivos que nele habitam, provocar danos graves nos habitantes das margens, desde que se ganhe muito dinheiro. Talvez seja por isso que muitos empresários, insensíveis ao mal que provocam aos seus concidadãos e à natureza, só mudam de comportamento receando multas pesadas. Se o valor da multa for inferior ao benefício financeiro que resulta da poluição, polua-se e pague-se a multa.

 

E quantas guerras se têm feito e se continuam a fazer para satisfazer a ganância de empresas e homens que padecem desta doença, dessa compulsão do ter? Guerras justificadas com mentiras, guerras geradoras de sofrimentos colossais e destruição de comunidades inteiras, de mortandades infindáveis… E tudo para conquistar recursos naturais, dominar mercados e dar mais riqueza a quem, nem que vivesse cem vidas, seria capaz de gastar tudo o que já possui.

 

E da obsessão do ter nasce também o consumismo desmedido em que vivemos, gerador de desperdício, de esgotamento de recursos naturais, de poluição, e até de desequilíbrios das economias mais débeis, de insatisfação permanente de consumidores mais ou menos compulsivos.

 

Esta cegueira pelo “ter” trouxe a concorrência (quantas vezes desleal) entre as pessoas, tida nos nossos dias como atitude meritória a estimular, mas que efetivamente é uma chaga social que anula a cooperação, a colaboração, a solidariedade, a generosidade e entreajuda, virtudes hoje mais vistas como sinal de fraqueza que como marca de grandiosidade de caráter e de harmonia social. 

 

Por isso, quando vejo o atual culto ao dinheiro e a cegueira pelo ter, quando vejo a economia a orientar os destinos da sociedade quando devia ser esta a dirigir o processo económico, quando vejo a degradação do ambiente motivada e justificada pelo interesse do dinheiro, quando vejo a cooperação e a amizade substituídas pela deslealdade e pela competição, quando vejo as guerras que se sucedem orquestradas por mandantes cínicos e cruéis ansiosos de ter mais, vejo também uma sociedade doente dirigida por loucos, mas a que a massa da gente que somos todos nós, alienada pelas vistas curtas dos interesses imediatos dá uma cobertura cúmplice.

 

E se cada um de nós começasse a olhar para os outros mais pelo que eles são que pelo que eles têm? Estou certo que o nosso mundo se tornaria muito melhor em pouco tempo.

 

por Fernando Almeida