A MÁQUINA DO TEMPO

Este país não é para velhos!

Pois para os habitantes do antigo mundo tudo ficará ainda mais inacessível


Por:Artur Efigénio

Fotografia: Cristian Newman - Unsplash
2018-10-15
A política de hoje é: Tudo já pode ser tratado pela internet, pelo que se devem fechar serviços que não são rentáveis

Seriam perto das oito horas e o termómetro do carro já marcava 27º. Era o fim de semana de agosto em que as temperaturas registaram marcos históricos. Seguia de automóvel, sozinho, de Sines para São Teotónio, quando, na zona da Praia do Malhão, na berma da estrada, vejo uma senhora de chapéu de palha, a gesticular, dando a entender que queria boleia. Não costumo parar, a não ser que conheça a pessoa. Mas, esta senhora, de idade avançada, talvez na casa dos oitenta, não me pareceu ter um “ar” ameaçador. Parei e ela entrou. Estava cansada e desolada.

 

Morava num monte ali perto e tinha perdido a “carrera” (nas suas palavras) para Milfontes, pois o seu desgastado relógio, comprado por 5 euros nos chineses havia uns anos, como referiu, ficara sem pilha. Assim, atrasara-se, e o autocarro tinha passado, deixando-a em terra. Disse-lhe que não me importava de a deixar na rotunda à entrada de Vila Nova de Milfontes, pois tinha de seguir viagem. Relativamente à boleia, confidenciou-me também que nem sequer ia dizer nada ao marido, senão ele ainda se “danava” era com ela!

 

Era uma senhora simpática e que gostava muito de conversar. Tinha de ir tratar de um assunto à Caixa Agrícola. Mas não sabia ler nem escrever. Assinar também não. Nunca tivera a oportunidade de estudar, pois o pai só tinha permitido que os seus irmãos, homens, fossem à escola. Mais tarde, já depois de casada, quando o marido iniciou o ensino à noite para fazer a quarta classe, ainda pensou nisso, tendo-lhe sugerido ir também. Obteve como resposta do “cabeça de casal”: “Para que é que tu queres aprender a ler e a escrever? Isso não é coisa para mulheres. E não te faz falta nenhuma!”

 

Segundo ela, tinha de lá ir à Caixa buscar um papel que, por não saber assinar, teria de ser presente previamente a uma solicitadora. E já estava com muita sorte, pois antes, até lhe tinham dito que esse assunto só poderia ser tratado com uma advogada. Assim talvez ficasse mais barato. O que tinha como certo é que, com esse enleio todo, iria perder toda a manhã, e quem sabe, ainda se arrastaria para a tarde. Não poderia voltar a perder o autocarro para regressar a casa, mas ainda tinha de passar pelos chineses para lhe substituírem a pilha do relógio. Pareceu-me uma mulher determinada e cheia de força.

 

Acabei por entrar em Milfontes e ir levá-la até à porta do seu destino, onde nos despedimos. Mas, passaria o resto do caminho a meditar no exemplo desta senhora, que ilustra perfeitamente as várias vivências e mundos que ainda hoje coexistem. Por um lado temos as mais recentes e modernas tecnologiasonde, no momento, e com alguns cliques ou deslizar de dedo, conseguimos quase tudo o que quisermos. É o novo mundo. O moderno. O rápido. O de usar e deitar fora. O digital. O urbano.

 

Mas, por outro lado, ainda temos o mundo daqueles que nunca souberam ler nem escrever, ou sequer assinar. E daqueles que sabendo, não podem, não sabem e, digo eu, por cansaço, também já não querem aceder às tecnologias. Onde qualquer assunto que tenham de tratar, por mais simples que seja torna-se num verdadeiro calvário. É o mundo antigo. O lento. O rural. O do atraso. O das dificuldades. O do isolamento e do abandono. O tal dos incêndios, que só depois das desgraças é visível. O daqueles que, na voracidade do primeiro mundo, ficam sempre para trás. Esquecidos.

 

A política de hoje é: Tudo já pode ser tratado pela internet, pelo que se devem fechar serviços que não são rentáveis. Correios. Bancos. Escolas. Centros de Saúde. Segurança Social. Repartições de finanças. Estações da CP. Carreiras de autocarros. Tudo a bem da eficácia, e para tudo passar a ser mais facilitado, mais acessível, mais apelativo e mais rápido. Mas isto acontece somente para o novo mundo. Pois para os habitantes do antigo mundo, os desprotegidos, os analfabetos e os velhos, tudo ficará ainda mais inacessível, difícil e longe, seja no sentido literal ou no simbólico.

 

Aliás, penso até que estas pessoas nem serão propriamente esquecidas. Mas como na tabela de Excel dos gestores que produzem os estudos para fechar, concentrar e rentabilizar, representam uma minoria de 1 ou 2%, podem ser designados e apresentados em coloridos slides PowerPoint, como margens desprezíveis ou até interpretados como erros de análise tolerados. Ficando assim, marginalizados e atirados para os seus guetos, neste caso rurais, onde ficam sossegados, calados e sem voz, à espera de morrer.

 

A propósito do episódio com esta senhora, quando tive tempo, procurei o filme dos irmãos Coen “Este país não é para velhos”. Um dos mais galardoados, mas também, como é costume nesta dupla de autores e realizadores, um filme desconcertante, onde são abordados os temas relacionados com o acaso e com a circunstância e reviu-o, revendo-me nele e na senhora da boleia. Pois nesse mesmo fim de semana, por ter filhos adolescentes, lá tive de fazer um esforço e ir almoçar a uma cadeia de hambúrgueres, onde só já existem máquinas ligadas à internet para fazer os pedidos. Constataria que, se não fossem eles a ajudar-me, dificilmente conseguiria comer!

 

Refleti sobre a lição de vida que ela me tinha dado naquele dia de calor, pois lembrei-me do ditado popular: “Hoje uns, amanhã outros!”

 

por Artur Efigénio