INCÊNDIOS

O incêndio de Monchique e os carnívoros dos Efeitos

por Bruno Rodrigues

2018-10-15
Grave será alguém acreditar mesmo (ou querer fazer-nos acreditar) que aquela é uma das Causas dos incêndios. A ser assim, temos de passar a acreditar que os ovos nascem no supermercado

Um evento é composto por vários acontecimentos. Eu largo um copo da mão, ele cai no chão, parte-se e derrama o líquido. Num dos extremos está a Causa: o acto complexo de largar o copo. A seguir, a força da gravidade suga o copo rumo ao chão. Por último, dá-se o Efeito: o copo estilhaça-se, o líquido espalha-se.

 

Uma sociedade que, nas suas vertentes informativas, sejam jornalísticas ou governamentais, não inclui nem destaca a averiguação da Causas de um evento, em pelo menos igual medida à da exploração dos seus Efeitos, deixa de lado elementos fundamentais para o seu completo conhecimento. E, ao invés, distorce-o. Esta exclusão tem efeitos nefastos na imagem que formulamos sobre o evento e, portanto, na nossa relação com ele.

 

Carlo Cipolla, no seu Allegro ma non troppo, postula a tese de que a humanidade se divide em quatro categorias: os Crédulos, os Ladrões, os Inteligentes e os Estúpidos. O que define e diferencia estes indivíduos são os efeitos das suas acções. Assim, o acto de um Crédulo resulta no bem para os outros, mas no mal para si, já o de um Ladrão provoca o bem para si e o mal para os outros. Por seu lado, o Inteligente traz o bem para si e para os outros. As acções do Estúpido, essas, são sempre negativas para si e para os outros. Vem o autor dizer-nos que o mundo, infelizmente, é governado pelos Estúpidos, pela razão de que os Inteligentes e os Ladrões tendem a não dar crédito às acções daqueles, tão imprevisíveis que são, o que faz com que os Estúpidos ascendam a cargos de poder. Deste raciocínio resulta que os Estúpidos certamente são deficitários em analisar a lógica Causa-Efeito, ou não executariam acções de cuja consequência ninguém tira proveito.

 

Ora, a insistência macabra em transmitir e discutir os Efeitos do Incêndio de Monchique (isto é, o zoom sistemático nos cacos do copo a rolarem pelo chão e no líquido derramado), desprezando os elementos primordiais que o terão causado, não configurará uma acção de Estúpido?

 

Destacar superlativamente tais Efeitos, agigantando-os, explodindo-os e pintando-os hiper-realisticamente, contribui para formar uma noção incompleta, e por isso perversa, daquele e em geral de todos os incêndios, uma noção mais próxima da virtualidade e do inacreditável, pois não se sabe donde aquilo vem, como tudo começou, mas apenas que está ali e que é intensamente abarcador, quase asfixiante. Tal acção informativa em défice, sendo o espelho da rendição ao facilitismo e ao populismo, tem uma outra importante consequência: a eliminação ou redução da noção de contexto. O contexto é uma base essencial que permite o entendimento entre todos nós. Sem contexto, os eventos seriam julgados pela rama, pelo calor do momento, não pela racionalização de todas as circunstâncias e aspectos com eles relacionados. Se não fizermos um esforço para trazer a lume a totalidade das camadas que definem um evento (sobretudo as suas Causas) não é possível a elaboração de um contexto fiel e justo. Sem a definição de um contexto fiel e justo, resta a emoção arbitrária e individual de quem sofre e de quem faz sofrer. Os princípios relacionais de tolerância e de condescendência entre os seres humanos, por exemplo, estariam ameaçados. Ficaríamos todos a perder.

 

Foi preciso esperar até ao terceiro dia do incêndio de Monchique para que o DN noticiasse o facto de que 1 em cada 4 incêndios florestais não são investigados quanto às Causas que os originaram. Esta notícia, no entanto, disserta mais sobre a vida do guarda-florestal Miguel – sem desrespeito pelos guardas-florestais, pilares fundamentais no combate aos incêndios –, do que sobre o porquê dessa falta de investigação. Ao quinto dia da tragédia, o mesmo DN traz a lume “as razões pelas quais está incontrolável o incêndio em Monchique” (na nossa metáfora do copo, o equivalente seria as razões pelas quais o líquido e o cacos do copo continuam, depois de caírem, a espalhar-se pelo chão). Uma vez mais, em vez de se questionar e de se informar sobre as Causas, exploram-se os Efeitos. Quando, finalmente, ao quinto dia, a Lusa liberta a notícia de que o Ministério Público e a PJ vão investigar as Causas do incêndio de Monchique, é com tristeza que se encontra um texto lacónico e estéril.

 

A prova de que a dieta carnívora dos Efeitos, que vigora na informação dos incêndios em Portugal, perturba a nossa noção quanto às várias camadas que compõem este tipo de eventos, é bem exemplificada pelas palavras de um responsável civil entrevistado na Antena 2. Refere este que “uma das causas” do incêndio de Monchique é o tipo de culturas florestais existentes, associado ao abandono de culturas ancestrais, etc. Isto é, se o nosso copo fosse feito de aço inoxidável e estivesse vazio, não se partiria ao embater no chão nem nada se derramaria. O interlocutor confunde, certamente fruto de uma imperfeição linguística, Causas com aspectos interiores ao evento (a Causa não é a existência de árvores, seja de que tipo for – a existência do copo, portanto). Grave será alguém acreditar mesmo (ou querer fazer-nos acreditar) que aquela é uma das Causas dos incêndios. A ser assim, temos de passar a acreditar que os ovos nascem no supermercado. Hipoteticamente, poder-se-á resolver o problema dos efeitos de um Evento sem se mexer na (nem entender a) sua Causa. No caso dos incêndios, existe sempre, de facto, a solução de transformar as nossas árvores em rochedos.

 

A imagem apreendida do fenómeno dos incêndios ficará sempre coxa se não se fizerem e se não se responderem a estas e a muitas outras perguntas: Como tudo começou? Em que circunstâncias? Foi um caso raríssimo de causas naturais, negligência ou uma iniciativa consciente e criminosa? Trata-se de uma rede ou de um indivíduo ávido de sentir-se poderoso? Quem são estas pessoas e quais as suas condições sociais e psicológicas? Poderão traçar-se padrões comportamentais e actuar preventivamente nas novas gerações, nas escolas? E como fazê-lo com eficácia? Ajudará reduzir a solidão e a desvalorização do homem rural, reduzir as desigualdades sociais e financeiras entre cidadãos? Não haverá antropólogos e sociólogos e “outrólogos” que se juntem e analisem este fenómeno social e comportamental? Não haverá especialistas no combate ao crime organizado que analisem eventuais redes e indivíduos actuantes neste sentido?

 

Expressões generalizadas como “combate aos incêndios” ou “meios de combate aos incêndios” (bombeiros, máquinas, água, aviões) são em rigor incorrectas e apenas válidas por via da distorção e da diminuição do conceito de incêndio. Quando muito fale-se dos “meios de combate aos efeitos dos incêndios”. Diga-se a propósito que num verdadeiro e abrangente “combate aos incêndios” estariam a ser disponibilizados, para a análise e para o combate às suas Causas, os mesmos astronómicos recursos financeiros e humanos que são dedicados ao combate aos seus Efeitos.

 

Gianni Rodari e Silvia Bonanni são os autores de O que é preciso, um livro para crianças que subtilmente alerta para a importância de se conhecerem as Causas e todo um complexo, mas importante mundo relacional escondido por trás de um objecto ou de uma acção. Não podia ser mais simples: “Para fazer uma mesa/ É preciso madeira/ Para fazer madeira/ É preciso a árvore/ Para fazer a árvore/ É preciso a semente/ Para fazer a semente/ É preciso o fruto/ Para fazer o fruto/ É preciso a flor/ Para fazer uma mesa/ É preciso a flor”.

 

Valerá, pois, a pena lembrar que: Para uma floresta arder/ É preciso o incêndio/ Para fazer o incêndio/ É preciso o fogo/ Para fazer o fogo/ É preciso o Homem/ Para fazer o Homem…

 

por Bruno Rodrigues