OPINIÃO PÚBLICA

O efémero da aprendizagem escolar

Um aviso aos pais


Por:Fernando Almeida

kyle Gregory Devaras - unsplash
2018-11-15
No que respeita ao que se aprende, e em particular à perenidade daquilo que se aprende, encontramos a mesma filosofia leviana e descartável que domina a nossa sociedade

Usa-se e deita-se fora. Nada ou quase nada é feito para durar, e nós, às vezes, até parece que gostamos da ideia: dá-nos a justificação para comprar novo, e nós gostamos de comprar. É o consumismo em que vivemos, ditado por uma economia que só encontra estabilidade na instabilidade do crescimento permanente. Inevitavelmente, como o sapo que de tanto inchar acaba por rebentar, também a nossa economia é dada a crises mais ou menos profundas. Mas este modelo de vida ditado pelo insaciável crescimento da economia em que vivemos, acabará infalivelmente por se desmembrar e dará lugar a outro qualquer paradigma social e económico, que esperamos seja mais sustentável que este em que vivemos. 

 

É esta prática de consumo compulsivo que dita a própria lógica de produção. Hoje parece que tudo é feito para durar apenas um pouco mais que o período de garantia a que está obrigado por lei, e muitas vezes até parece que os equipamentos foram programados para a partir de certo momento começarem a ter avarias, até que tenham que ser substituídos por outros, sempre novos, sempre com um novo design, sempre capazes de satisfazer por algum tempo a nossa sede de comprar. 

 

O caráter “descartável” dos bens parece que contagiou as relações entre as pessoas, também elas temporárias e muitas vezes superficiais, como nos “amigos” das redes sociais, que na maioria das vezes não passam de indivíduos apenas conhecidos vagamente, que de amigos de verdade terão muito pouco. Mas a profundidade da relação interpessoal por vezes também parece não ser muito importante, mesmo porque quem coleciona “amigos” às centenas possivelmente não espera ter com cada um deles uma relação sólida. O copo é de plástico, a comida é rápida, o “amigo” é do “Facebook”… e o próprio conhecimento é descartável…

 

Foi a questão do conhecimento descartável que me levou a abordar este tema do consumismo em que vivemos, e que tão maus resultados está a dar ao nível das relações sociais, mas também, e sobretudo, do ambiente. No que respeita ao que se aprende, e em particular à perenidade daquilo que se aprende, encontramos a mesma filosofia leviana e descartável que domina a nossa sociedade: o conhecimento deixou de ser matéria que cuidadosamente se guarda e enriquece, para ser mais um bem que se usa e deita fora como quase tudo o que nos envolve. Quando os meus alunos me dizem que não sabem determinada matéria porque a estudaram há um ou dois anos, e se sabe que nessa época respondiam positivamente a testes escritos sobre ela, fica inevitavelmente a dúvida: para que serve o conhecimento se dura apenas alguns meses e passado esse tempo dele nada fica?

 

Uma imagem que me vem ao pensamento cada vez que me confronto com esta ineficácia da aprendizagem escolar é a de alguém que afanosamente, em dezenas de horas de aulas e de estudo semanal se dedica a colocar coisas num saco roto. Bem à portuguesa, onde muito se trabalha e pouco se produz, as aulas e as horas de estudo multiplicam-se, mas o conhecimento não. Como acontece em muitos empregos dos que chegam à vida adulta, procura-se com a quantidade de trabalho compensar a baixa qualidade do mesmo. Mas como também acontece entre os “crescidos” às vezes, quanto mais tempo se trabalha menos é a produtividade do trabalho.

 

Os episódios ridículos do nosso sistema de ensino orientado para a avaliação escrita sucedem-se. O último, que aqui partilho convosco, é uma norma proveniente do próprio Ministério da Educação e que explicita que nos exames nacionais as folhas de rascunho só podem ser entregues aos estudantes depois do início da prova para que eles não possam nos minutos que a antecedem escrever seja o que for que lhes venha a ser útil durante a mesma. Esta questão sugere várias perguntas sobre as quais seria conveniente pensar: Estamos a avaliar o quê? Um conhecimento que se pode perder em alguns minutos? Que competências avaliamos com essas perguntas que vivem de uma memória de curto prazo? De que serve esse “conhecimento” no futuro? Valerá a pena passar dezenas de horas semanais a preparar conhecimento que se esquece em pouco tempo?

 

Quando se pensa nestas questões e ao mesmo tempo se ouvem os resultados dos estudos realizados sobe os nossos estudantes, que dizem que têm uma dificuldade generalizada em compreender o que leem, mas que também a têm no raciocínio matemático (e acrescento eu com a experiência de dezenas de anos de professor, que têm uma dificuldade assustadora de realizar operações lógicas elementares), fica a certeza de que o nosso sistema educativo orientado para as provas escritas do tipo exame é o primeiro responsável pela dificuldade que os alunos têm em pensar e pelos maus resultados que observamos mesmo nas provas escritas para as quais os alunos são especificamente preparados.

 

Enquanto professor tenho a obrigação de avisar os pais: se querem que os vossos filhos aprendam a pensar, ensinem-nos, desde logo porque essa é a primeira obrigação dos pais, mas também porque a escola pouco mais faz que ensiná-los a decorar um conjunto de matérias que vão esquecer de seguida. E rezem para que alguém tenha a coragem e a lucidez de mudar este estado de coisas.

 

por Fenando Almeida