OPINIÃO PÚBLICA

O melhor presente de Natal

Fazer qualquer coisa para que esta terra possa ter futuro


Por:Fernando Almeida

Ron Whitaker - unsplash
2018-12-18
O WWF (World Wildlife Fund) afirmou recentemente que nos últimos cinquenta anos perdemos sessenta por cento de todos os vertebrados do planeta

Era um daqueles inícios de noite de outono, de chuva morna e mole que nos vem lembrar que o verão já lá vai, mas que o inverno ainda tarda. Entre as curvas e contracurvas da estrada que liga S. Luís a Odemira esforçava a vista e gastava a paciência a fugir das centenas de buracos de um alcatrão velho que se desfazia mais de dia para dia. Esse exercício de perícia automobilística lembrou-me de súbito um outro tempo, aí uns vinte e cinco anos antes, em que exatamente nas mesmas circunstâncias de tempo e espaço também me esforçava por evitar obstáculos.

 

Professor em Odemira com aulas no período noturno, e a residir em S. Luís, também fazia gincanas diárias no regresso a casa depois das aulas. Mas nesse tempo não fugia aos buracos da estrada para poupar a viatura, mas antes aos anfíbios que a invadiam, talvez na urgência das suas pequenas migrações para a reprodução. Eram sapos, rãs, relas e salamandras, tudo às dúzias, e apesar do meu empenho em as poupar, não raro o acidente acontecia. A luz da manhã mostrava a mortandade na estrada, que os carnívoros aproveitavam como conseguiam. Esta recordação fez-me tomar consciência que de facto há muito menos sapos, tal como são muito menos as rãs, que antes em alguns lugares faziam um coaxar ensurdecedor. Também reparo que nunca mais vi as pequenas relas que tentavam passar despercebidas nas plantas verdes do meu monte, e as salamandras de pintas amarelas e avermelhadas são agora muito raras.

 

O pensamento, que é bicho irrequieto e imprevisível, saltou da estrada para o para-brisas do carro, e para as viagens que em tempos tinha que interromper numa qualquer estação de serviço ou fonte de beira de estrada. Como eu, muitos dos condutores mais velhos se devem lembrar que era frequente ter que lavar o vidro dianteiro da viatura para limpar os insetos mortos que nele se iam acumulando ao longo das viagens. Chegava-se ao ponto de se ver mal a estrada, e lavar o vidro era essencial para a comodidade do condutor e segurança de todos. Pois é, até insetos há muito menos.

 

Curva após curva, buraco após buraco, lembrei entrevistas antigas que fiz a velhos pescadores da nossa costa e que perentoriamente afirmaram que no tocante ao peixe do mar há hoje uma pequena fração do que existiu antigamente. Menos de tudo, garantiram, e algumas espécies mesmo desaparecidas de todo das proximidades de terra. Por exemplo, o peixe-espada que se pescava junto à costa, e em tempos era tanto abundante e tão barato que não valia a pena o esforço de o apanhar, agora só se consegue encontrar longe de terra. E lembro que hoje algum desse peixe, mesmo capturado em mar alto e a centenas de metros de profundidade, está contaminado com os tóxicos da nossa indústria…

 

E os bandos de pombos torcazes que escureciam o céu? E os poços que durante as noites mais frias de inverno davam guarida a centenas de aves? E as canções que os passaritos entoavam por todo o lado nas manhãs doces de primavera? E as abelhas às dúzias em volta das flores das árvores de fruto? E os coelhos nos montes e a correr entre os matos e as cultivadas? E a codorniz agachada no milheiral a tentar passar despercebida ao cachorro? Onde andam todos eles, que não os vejo?

 

O WWF (World Wildlife Fund) afirmou recentemente que nos últimos cinquenta anos perdemos sessenta por cento de todos os vertebrados do planeta. Não vi ninguém desmentir os estudos que estão na base dessa afirmação, e eu próprio, pelo que pude observar ao longo da minha vida, penso que essa é por certo uma afirmação indesmentível. Pergunto-me e deixo a todos essa pergunta: quando paramos a loucura em que vivemos, que nos leva a criar uma extinção massiva da vida na Terra, contaminar as águas, destruir os solos, alterar o próprio clima?

 

E já agora, porque estamos em época natalícia, lembro que a melhor prenda que podemos deixar aos nossos filhos e netos não são bens materiais nem riquezas de qualquer tipo, mas simplesmente um mundo onde possam viver. Pensem nisso e sobretudo, façam qualquer coisa para que esta terra possa ter futuro.

 

 

Por Fernando Almeida