PALAVRA DE PALHAÇO

Marias

Há muitas


Por:Enano Torres

2018-12-18
Cuidado com os enganos consumistas das Festas!

Maria de Portugal leva uma semana na Baixa de Lisboa gastando cartões de crédito nas compras de Natal para a família. Cada presente tem que ser de marca, acima dos 100 euros, pois sabe que irá receber mais do mesmo da própria família e não deseja ficar mal. Ela deita-se e acorda pensando no que falta comprar pois tem uma família ampla e numerosa. Cada pessoa da família é identificada por uma marca ( Mano João, gosta da Nike; mana Helena, uma prenda da Zara; o pai com a camisola nova do Benfica com certeza que vai ficar feliz; para a Mamã tem de ser uns brincos de ouro do El Corte Inglês; o presente mais difícil, como sempre, é para o namorado, mas com certeza acertará com o ultimo telelé da Apple). Para Maria o Natal sem presentes não tem piada nenhuma

 

Maria de Cabo Verde, ainda não sabe se conseguirá ver seus filhos no Natal. Os voos ate São Vicente estão muito caros. Eles trabalham numa outra ilha. O que sabe, quer venham ou não seus filhos, é que terá de tratar dos netos que vivem com ela na Ribeira de Calhau, um bairro humilde onde frequentemente a falta de luz é comum e onde o presente mais valorizado, cada dia, é a água corrente para poder beber. Maria não tem tempo de pensar na consoada de Natal. Nem sequer o que vai fazer para o jantar, pois antes disso está por ver quanta fruta vai vender amanhã para poder dar de jantar aos netos.

 

Marie da França jantará em Paris com sua família num restaurante, já reservado, no centro da cidade. Deseja que nessa noite não cortem a estrada, essa gente chata dos coletes amarelos. Ela diz que em vez de se queixarem deviam de estar era a trabalhar. Quer lá saber o que eles pretendem! A sua única preocupação é ter um jantar sossegado e com roupa de cerimónia.

 

Maria da Síria deseja que, nessa noite, não tenha que ir para o refúgio, por causa das bombas, cantar as canções para as crianças que ainda sobrevivem aos massacres diários que por lá se passam. O facto de não ter de ir significará que poderá ter uma noite silenciosa simbolizando um branco Natal com manchasvermelhas da sangue que persistem nas paredes do seu falecido vizinho.

 

Quantas Marias existem com realidades e preocupações diferentes, apenas com uma coisa em comum: o nome. Até podem ter mais coisas como a necessidade de comer, mas o valor que têm pela vida é totalmente dependente das suas realidades.

 

Eu sou José. Cada uma destas Marias as levo comigo pois conheço-as e fazem-me sentir a lotaria que é esta vida: És conforme onde nasce e aquilo que tens.

 

Para a noite do Natal? Não espero nada! Passá-la-ei sozinho, como vem sendo habitual nos anos anteriores, por desejo pessoal, rodeado da humildade que escolhi por opção. Jantarei uma salada da horta da vizinha e dois ovos estrelados das minhas galinhas, acompanhado dum copo de vinho alentejano e brindarei por todas essas Marias desconhecidas que cada noite que passam a transformam num Natal de Amor, Paz e Esperança para um mundo mais justo, equitativo e solidário.

 

Cuidado com os enganos consumistas das Festas!

 

por Enano Torres