A LÍNGUA DOS NOSSOS AVÓS

De Aljustrel a Aljezur

Um grupo de topónimos que inclui o radical fenício “halsu”

Castelo de Aljezur visto do céu. Imagem de 18/01/2019 do programa Mapas da Apple
2019-01-18
Esta palavra “halsu” existe no fenício (particularmente no acádio e no assírio) com o significado de “fortaleza”

Um dos arquivos mais ricos e interessantes da língua que os nossos antepassados falaram sobrevive ainda hoje nos nomes dos sítios, ou seja, na toponímia. Fonte de informação desprezada, e tradicionalmente muitíssimo mal interpretada, merece um olhar atento à luz dos conhecimentos mais recentes sobre o passado da língua portuguesa, o que permite a descoberta de factos até há pouco tempo inimagináveis. 

 

Falo-vos hoje de um grupo de topónimos que inclui o radical fenício “halsu”, palavra que entre nós evoluiu para o som “alju”. Esta palavra “halsu” existe no fenício (particularmente no acádio e no assírio) com o significado de “fortaleza” e, como poderemos verificar, teve exatamente o mesmo valor na nossa região. Lembremos algumas povoações que incluem este “alju”, como seja, “Aljustrel”, “Aljubarrota”, “Aljezur”, também uma velha fortaleza-prisão existente em Lisboa chamada “Aljube” e ainda o sítio arqueológico de “Aljão”, na Beira Alta. Vejamos então o significado de cada um destes nomes.

 

ALJEZUR - Há quem pense que o nome desta vila algarvia nasceu do árabe, de “al-jazira”, que significa “a ilha”. Há contudo um problema simples: Aljezur não é, não foi, nem nunca pode ter sido uma ilha. O topónimo por certo nasceu antes de “halsu” e de “shr”, (algo como “aljuser”, que após permuta de posição das vogais passou a “aljezur”), que em fenício quer dizer respetivamente “fortaleza” e “redondo”, pelo que o topónimo significou na sua origem “fortaleza redonda”. 

 

De facto, pode verificar-se ainda hoje que o nome se aplica na perfeição ao velho castelo de Aljezur.

 

ALJUBARROTA - A origem do topónimo “Aljubarrota” já foi explicada por Moisés Espírito Santo, no seu “Cinco Mil Anos de Cultura a Oeste”. Este autor explica-o como significando “fortaleza dos silos”, o que parece ser de aceitar sem condições.

 

ALJUSTREL - O nome dado à vila alentejana de “Aljustrel” como nos outros casos provém de “alju”, que quer dizer “fortaleza”, mas também de “strel”. Esta parte do final da palavra tem origem em “str” que significa em fenício “ser protegido”, “ficar abrigado”, e o “el” final corresponde à noção de “local alto”. Assim o topónimo “Aljustrel” significa à letra “alto da fortaleza de proteção”. Anote-se aqui como mais uma curiosidade, que este som “str” que ocorre em “Aljustrel” aparece em muitos outros topónimos de povoações fortificadas, como seja “Castro” ou “Estremoz” (str + mooz). 

 

ALJUBE – É costume dizer-se que a palavra “Aljube” nasceu do termo árabe “al-jubb”, que significa “a cisterna”. Contudo essa palavra significou “prisão” e não “cisterna” sendo por isso de rejeitar essa origem. Penso por isso que o topónimo “Aljube” tem origem nos termos “alju” e de “šb”. Este último termo significa em fenício (no caso em ugarítico e hebraico antigo) “prisioneiro”, “cativo”. Portanto o “Aljube” não é mais que a “fortaleza dos prisioneiros”. De facto o “Aljube” de Lisboa foi estabelecimento prisional desde (pelo menos) o século VIII até quase à atualidade (anos 60 do século XX) e é nesse facto que se encontra a explicação para o nome. O nome foi usado como significado de “prisão” até muito tarde. J. P. Machado refere um texto de 1269 em que se usa a palavra precisamente nesse sentido: “se nom ouuer onde os pague metano no Aljube ata en que pague”. Por outro lado no Funchal existe ainda uma Rua do Aljube da qual se diz ter o seu nome nascido de uma prisão eclesiástica que aí existiu.

 

ALJÃO - O topónimo “Aljão”, que ocorre na Beira Alta, não corresponde hoje em dia a nenhum povoado ou fortaleza visível. No entanto o local teve uma fortaleza, porque é isso que o nome significa: “aljuØm” quer dizer precisamente “gente da fortaleza”. De resto, a arqueologia atesta a existência de uma fortaleza na zona, que teve ocupação pelo menos desde a Idade do Bronze até ao período romano. 

 

Evidentemente que não há o menor fundamento nas etimologias propostas tradicionalmente para a maioria destes topónimos, como seja o caso de “Aljustrel”, do qual se disse que teria nascido de “al gestrel”, com o significado de “campo de giestas”. Tontices!

 

 

por Fernando Almeida