OPINIÃO PÚBLICA

Nós e os nossos filhos

Um filho é uma obra sempre inacabada


Por:Fernando Almeida

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2019-01-18
A vida moderna é muitas vezes um corrupio de afazeres cronometrados ao minuto que deixa os casais exaustos e impacientes, mas ainda assim um filho tem que continuar a ser a coisa mais importante que se tem na vida

Um filho é uma obra sempre inacabada. Um filho não se faz. Um filho vai-se fazendo ao longo dos anos que com ele vivermos. É claro que há a primeira fase, a da criação biológica propriamente dita que culmina com o nascimento. Alguns julgam que isso é que é “fazer um filho”, mas enganam-se redondamente. Aquele ser que um dia será um homem ou uma mulher, nessa altura não é muito mais que uma semente que precisa de toda a atenção do mundo para ser gente a sério. Infelizmente nos nossos dias parece que falta o tempo para essa tarefa fundamental que é ensinar aos filhos tudo o que eles precisam de saber. E para alguns, tudo parece ser mais importante que educar os filhos.

 

Apesar de todas as dificuldades da vida moderna sempre se vai arranjando tempo para a novela da noite, para os golos do Ronaldo, para beber um copo com os amigos, bem como divagar entre lojas comprando objetos deliciosamente inúteis. É claro que para muitos o emprego é a coisa mais importante da vida que justifica todos os esforços e sacrifícios, mesmo que retire tempo à vida familiar e atenção e cuidado aos filhos. Por isso, para alguns é preciso arrumar os filhos de qualquer maneira para que não estorvem aos seus ocupadíssimos pais. Ora, para se conseguir uma vida tranquila sem o empecilho dos filhos, desenvolvem-se algumas estratégias muito úteis.

 

Quando são pequenos colocam-se num parque, daqueles de metro quadrado e liga-se logo a T.V. com um canal infantil. É ótimo, basta dar-lhe comida algumas vezes ao dia e mudar a fralda de quando em quando. Não incomodam nada. À medida que crescem a coisa vai-se complicando, e requer investimentos mais avultados. Para começar pode comprar-se uma playstation com jogos variados. É uma invenção maravilhosa. Alguns miúdos ficam tão viciados que quase deixam de falar e mal arranjam tempo para comer e dormir. Mas com isto consegue-se uma vida maravilhosamente tranquila para os pais!

 

Evidentemente que com o correr dos anos vão sendo necessários novos e mais substanciais investimentos, particularmente com outras máquinas que permitam jogos online, e com telemóveis “última geração”. Fantásticas tecnologias. Fecham-se no quarto e, entre jogos, mensagens e filmes, passam dias a fio sem chatear os progenitores… Delicioso. 

 

Mas os jovens às vezes insistem de forma impertinente e querem atenção dos pais. Felizmente os horários e calendários escolares são cada vez mais longos: benditas sejam as “atividades extra curriculares”, as A. T. L. que sempre libertam os pais da tortura de estar com os filhos mais horas por dia. Com sorte, e por recente proposta de mentes iluminadas, poderão os garotos ficar retidos na escola durante onze meses por ano. Viva o progresso! Viva a liberdade dos pais! 

 

Ora, no desagradável mês em que os pais não têm para onde “despachar” os filhos, ainda se podem arranjar uns campos de férias, isto para além da entrega à sedução alienante dos equipamentos eletrónicos. Se ainda assim o filho incomodar muito, compra-se-lhe umas prendas, e ele logo se calará. Podem mesmo depositar-se os filhos em infantários e creches para que a pequenada incomode ainda menos: os pais podem ir tranquilamente para a praia enquanto os filhos ficam à guarda de educadores especializados. Deste modo se consegue criar um filho com poucos dias por ano de atenção dos pais.

 

Sei bem que a vida moderna é muitas vezes um corrupio de afazeres cronometrados ao minuto que deixa os casais exaustos e impacientes, mas ainda assim um filho tem que continuar a ser a coisa mais importante que se tem na vida. Quem não sentir que os filhos são isso, quem não sentir que o tempo que se passa a ensinar os filhos é o tempo mais bem gasto da sua vida, quem achar que estar com os filhos é um incómodo que se deve evitar, e quem pensar que a educação dos filhos é responsabilidade dos outros, em particular da escola, quem sentir tudo isto, simplesmente não deve ter filhos.

 

por Fernando Almeida