OPINIÃO PÚBLICA

O reino da fraca inteligência

Libertem-se do passado


Por:Fernando Almeida

Niu Niu - unsplash
2019-02-20
Até para lá de meados do século passado a maioria esmagadora das gentes deste país não se deslocava para lá daquilo que se podia fazer a pé num dia

Tenho-me detido algumas vezes a pensar nos motivos pelos quais somos um país onde as mudanças são imensamente difíceis. Talvez tenha relação com o nosso passado, com a imposição de uma ordem social e económica controlada por uma elite que, por estar longe da concorrência da Europa e do mundo, se tornou imobilista e quase inquestionável. De facto temos sido muitas vezes um país isolado do mundo, e o mito sem fundamento que somos um país de gente do mar, esbarra na realidade crua: até para lá de meados do século passado a maioria esmagadora das gentes deste país não se deslocava para lá daquilo que se podia fazer a pé num dia; muitos, mesmo velhos que sempre viveram a poucas dezenas de quilómetros do mar, nunca o tinham visto. A verdade é que somos um povo tradicionalmente agarrado ao torrão onde nasceu, que só a fome obriga a fazer-se ao mundo, e nada temos daquela visão romântica do aventureiro destemido, propagada por uma certa história de raiz mais nacionalista que científica.

 

E como se sabe, o viajar, o contactar com outros mundos, outras vidas, outras formas de pensar e de fazer, criam mudança e progresso, e nós, isolados por fronteiras cerradas, pouco conhecíamos do mundo exterior. Talvez também por tudo isso tenhamos criado esta monumental dificuldade de mudar que, mesmo quando os dirigentes querem mudanças, são os dirigidos que lhe são avessos e por todos os meios as evitam. É irónico que a elite conservadora que impôs uma cultura imobilista ao povo, se vê agora travada pela cultura desse mesmo povo que sempre tentou travar. Mas em Portugal sempre foi mais seguro passar despercebido na mediania dos que nada mudam ao que sempre se fez, que arriscar a mudança… Talvez também tenhamos medo da mudança porque há entre nós muitos que nunca fizeram nada na vida, mas são grandes especialistas a criticar mordazmente os que fazem alguma coisa, sobretudo se diferente, sobretudo se compromete a mediania ou mesmo a mediocridade estabelecida.

 

Esta mentalidade coletiva avessa à mudança invade, sem que quase se dê por isso, gestos e rotinas dos que obstinadamente preferem que nada mude. Por vezes numa discreta resistência passiva, outras vezes de forma indignada e visível, mas quase sempre, de uma forma ou de outra, buscando a segurança e o conforto do território conhecido. Assusta-nos o desconhecido como a menino que treme com medo do escuro. O que é novo apavora principalmente os que se têm como superiores, mas cujo prestígio e respeitabilidade social e profissional resulta apenas da repetição infindável de gestos rotinados. 

 

É assim que Portugal se torna num país quase irreformável, em que mesmo quando o poder tenta modernizar e avançar no sentido que os tempos impõem, um conjunto de forças, vasto como multidão e organizado como exército antes da campanha, aniquila os esforços de progresso e de mudança. E infelizmente é assim quase com tudo, da educação, à saúde, à justiça, à administração, ao ambiente, há sempre os que nunca fizeram nada de novo e produzem críticas mordazes a denegrir quem quer fazer, mas há sobretudo os que em sucessivos gestos de resistência passiva simplesmente não mudam e dificultam a vida a quem quer mudar. Reformar seja o que for em Portugal é mesmo perigoso para os que se arriscam no jogo da democracia, por arriscarem a impopularidade de querer fazer diverso daquilo que é hábito fazer-se. 

 

Por isso é virtualmente impossível fazer reformas que realmente nos projetem para o futuro. O mais que conseguimos é, munidos do complexo de inferioridade que nos coloca como simples copistas daquilo que se faz “lá fora”, repetir o que já está em prática em outros países que tomamos como modelo, e aplica-lo entre nós. É claro que quando o fazemos já os que copiamos estão a aplicar novas receitas para os problemas que são seus, receitas essas que nós, dez ou vinte anos mais tarde iremos copiar mais uma vez. 

 

Libertem-se do passado, daquilo que sempre se fez, daquilo que os outros andam a fazer, e por uma vez pensem nos problemas que realmente temos e nas melhores formas de as resolver. Vá, uma vez só, procurem fora da caixa, porque neste tempo de mudança as soluções já não estão lá dentro.

 

Fernando Almeida