MIRADOIRO

Fauna local

À mesa do dominó


Por:António Quaresma

2019-04-10
“Porrada nele!”, rosnou o mais briguento

Tudo se passou numa tarde calmosa do Verão de 2017. À mesa do dominó, sob a sombra do telheiro, estava meia-dúzia de grandes cérebros da terra. Nisto, o assunto do dia: os trabalhos no rio. Que não avançavam por causa de C. Tinham, até, chegado notícias de que os “verdes” e os “históricos” (sic), duas execráveis espécies, se haviam conluiado para a delonga, o que só vinha confirmar a culpa do sobredito C.

 

“Porrada nele!”, rosnou o mais briguento, no meio de grunhidos de aquiescência da selecta assembleia, empolgada com a perspectiva de acção. Um bimbo, que estava de mistura com os pensadores locais, acrescentou: “xe foxe no nuorte, já tinha xido corrido”. E riram todos, imaginando C. a ser posto às portas da vila e expulso a pontapé. Um terceiro, para mostrar serviço, contou que, certa vez, vira o odioso C. dar uma ordem ríspida aos trabalhadores de certa obra: “parem imediatamente!”, mostrando como o alvo da ira estava sempre pronto a suspender obras estimáveis. E a conferência continuou no mesmo regime, com “filho disto pr’aqui, filho daquilo pr’ali”, “bordoada na lombeira pr’acolá”...

 

Sabendo eu que o demora dos trabalhos aquáticos se devia a atraso nos procedimentos legais, como é que C. aparecia “culpado”, sem remissão, nesta causa? Alguém me confidenciou acreditar que, por obscuros motivos, essa “informação” fora soprada aos ouvidos pouco exigentes de uns quantos patetas. Eu, por mim, acredito que pode ter acontecido por “geração espontânea”, pois os patetas não precisam de ignição para patetarem. Contudo, valha a verdade, o melhor é não descartar qualquer das conjecturas.

 

Fui falar com C., que, por ser meu amigo de infância, conheço bem. Achei-o muito receoso, em febril actividade, montando barricadas, cavando trincheiras, carregando as armas, esperando, aparentemente, qualquer ofensiva, fosse pela hora da maior canícula, fosse pela calada da noite. “Não fui eu, não fui eu”, repetia, em surdina, tremendo e olhando para todos os lados. E subia e descia, incessantemente, a escada de uma torre de vigia que mandara construir.

 

Consegui finalmente sentar-me um momento com ele. “Tem calma”, disse-lhe, “os teus amigos defendem-te contra qualquer ameaça”. “Ameaça!? Que ameaça?”, indagou, surpreendido. “Não estás assustado com o que, por aí, se diz de ti”. “Eu não”, respondeu, desdramatizando, “são cães que ladram, mas não mordem, e se algum quiser morder recebe a competente sapatada”. “Estavas a tremer...” observei. “É o meu ‘tremor essencial’, que está pior”, esclareceu. “Mas estas obras defensivas…?”, insisti. “Ah, isto é a preparação da casa porque amanhã vêm os pintores”, explicou. 

 

Dando-me conta de que havia percebido tudo mal, ainda prossegui, timidamente: “mas dizias que não tinhas sido tu”. Réplica final: “É que andam aí uns marmelos a atribuírem-me a responsabilidade pela eclosão da 2.ª Guerra Mundial, e estou a ver que, não tarda, também me culpam do holocausto”.

 

O meu amigo C. é um tipo singular: embora de fraca figura, possui, como se usa dizer, “costas largas”. Mas ele já está malhadiço (em sentido alegórico) e, aparentemente, pouco se importa. Apesar disso, uma vez ou outra, pareceu-me ter visto o seu semblante, em geral pacífico, incendiar-se, momentaneamente, por uma cólera surda, mas intensa. Talvez porque um homem não é de pau.   

 

 

PS.: Passado pouco mais de um ano, pululam, na vila, opinantes, que, em tom de censura, afirmam sempre terem antecipado alguns dos inopinados resultados das ditas obras. Abençoada terra que possui tão heroicos e sábios filhos.