OPINIÃO PÚBLICA

O despertar da juventude

Adivinham-se tempos duros na defesa do planeta


Por:Fernando Almeida

Matt Artz - unsplash
2019-04-10
Este conflito que se adivinha será diferente dos anteriores que fizeram mudar o mundo, porque será um combate pela sobrevivência mas também um conflito de gerações

Distantes vão os anos em que os ambientalistas eram vistos como idealistas utópicos sem uma justa medida do bom senso. Lembro-me bem, porque os vivi como sujeito ativo, e foram ao mesmo tempo duros e de algum modo gloriosos, como acontece com as ações pioneiras e visionárias. Naqueles tempos do início do último quartel do século XX era preciso alguma audácia para afirmar que a sustentabilidade ambiental era mais importante que a riqueza imediata, e que se impunha pensar na conservação dos recursos naturais de forma responsável. Quem o defendesse não era levado a sério.

 

Por esse tempo começou a notar-se que alguns animais do sul da América estavam a ficar inexplicavelmente cegos, e que apresentavam outras maleitas graves, como tumores e enfraquecimento do sistema imunitário. Aos poucos foi-se percebendo que a camada de ozono que nos protege do excesso de radiação ultravioleta estava a ficar enfraquecida, e que residia aí a origem do mal. Percebeu-se também que o problema era global e já afetava o hemisfério norte, e a partir desse momento o assunto começou a ser resolvido…

 

Por esse tempo também alguns cientistas relacionaram o aquecimento global com as alterações climáticas e com os gazes de efeito de estufa que irresponsavelmente libertávamos (e continuamos a libertar) para a atmosfera. Alguns chamaram a atenção da sociedade para a necessidade de alterar práticas antes que fosse tarde demais. E os poderosos preocupados com a economia, e a gente comum preocupada com a telenovela, escarneceram dos que assisadamente pediam ações concretas e imediatas.

 

A poluição das águas começou a bater records, com nascentes contaminadas por todo o lado. Muitos dos rios que tinham sido transformados em esgotos de químicos perigosos foram recuperados e a vida voltou. Outros infelizmente ainda esperam que os interesses de todos valham mais que as vantagens de alguns, e continuam a ser contaminados de forma escandalosa.

 

Percebeu-se também que muitas espécies animais e vegetais estavam em vias de extinção (outras já mesmo extintas). Diz-se mesmo (e ainda ninguém o contestou) que nos últimos quarenta anos perdemos mais de metade dos animais selvagens do planeta, na maior extinção em massa desde o desaparecimento dos dinossauros.

 

E poderíamos continuar a descrever o rol de desgraças que temos vindo a criar no único planeta habitável que conhecemos, sempre com as mesmas justificações imediatistas que mais não são que desculpas esfarrapadas para o nosso egoísmo e cegueira. O facto incontornável e indiscutível é que o nosso bem-estar resulta em boa medida do esgotamento de recursos e degradação de sistemas vivos, e que a riqueza que criamos e usamos hoje é a pobreza dos nossos filhos e netos.

 

Mas algo está a mudar no mundo. Os jovens que até há pouco tempo, tal como as gerações mais velhas, ansiavam pelo consumo irresponsável sem pensar no futuro, começaram a perceber que cada grama de alimento que desperdiçamos hoje, é a fome de amanhã; que cada grama de carbono que se introduz na atmosfera agora, é o caos climático que terão que suportar; que cada peixe que se retira do mar sem necessidade, é um peixe que fará falta um dia; que cada descarga poluente que hoje contamina as nascentes, é a água que não se poderá beber amanhã…

 

E começaram a ver que os adultos de hoje, muito embora se façam passar por responsáveis e bons amigos dos seus filhos e netos, estão afinal preocupados apenas consigo mesmos e pouco se interessam pelo futuro das gerações mais novas. E pela primeira vez aconteceu uma greve mundial de estudantes. Não se envolveram nela todos os estudantes do mundo, mas como sempre acontece só os mais visionários e os de espírito pioneiro. Mas foi o acender do rastilho das consciências dos mais novos: perceberam que os governos, os poderosos, os adultos no geral, não querem saber deles nem do seu futuro. Preocupam-se apenas em viver bem hoje sem preocupação com o que deixarão para amanhã.

 

Adivinham-se por isso tempos duros na defesa do planeta, mas serão por certo também tempos gloriosos para a geração que tem como dever imperioso começar a recuperar aquilo que temos vindo a destruir. Este conflito que se adivinha será diferente dos anteriores que fizeram mudar o mundo, porque será um combate pela sobrevivência mas também um conflito de gerações.

 

 

Fernando Almeida