E SE ALGUÉM SOUBESSE A RESPOSTA?

Mindsight na educação dos filhos

Parte 2


Por:Maria Monteiro

2019-06-19
Continuação do artigo “Mindsight na educação dos filhos - Parte 1” de 18 de dezembro de 2018 (link no interior)

Quando estamos zangados, e bloqueados com um acontecimento que toma conta de nós, o que gostávamos que acontecesse? O que nos podem dizer que faça a diferença? O que será útil nessa situação para mudar o humor e dedicarmo-nos ao que estávamos a fazer?

 

Será que queremos que compreendam o impacto que este acontecimento teve em nós para estarmos nesse estado, tão zangados e bloqueados? Será que queremos conselhos? Simpatia? Que ralhem connosco? Que relativizem a situação? Que nos digam que parecemos uma criancinha que não se sabe controlar? Que vai passar?

 

E quando estamos a lidar com uma criança, com o nosso filho ou filha? Que está zangada e amuada. Nós temos um papel fundamental na sua educação. Somos a referência, a ligação dela ao mundo interno e externo? Como queremos interagir com ela? O que queremos valorizar? A escolha é nossa.

 

Como esta situação se passa num restaurante é importante não nos deixarmos perturbar pelos olhares dos outros clientes do restaurante! A nossa atenção e afinidade é com a criança. Certo? E temos aqui uma oportunidade de melhorar o Mindsight (o nosso e o delas!): o discernimento, a empatia e a integração das várias componentes do cérebro.

 

Como abordar uma criança que se levanta da mesa, onde está a jantar com a família, e se vai esconder atrás da coluna a fazer caretas para a família, de forma desafiadora? Como lidar com a situação?

 

Estar zangado, bloqueado, amuado e em modo de desafio à beira de um ataque de fúria diz-nos que estamos reativos. Estamos a reagir e a fazer uso exclusivo do andar de baixo do cérebro e, no momento, não estamos a conseguir ser recetivos à situação lidando com ela usando as competências socio-emocionais que são as capacidades do cérebro do andar de cima: discordar de uma situação, usar argumentos, expressar sentimentos e necessidade, ouvir o outro, pedir ajuda, manter a relação e a comunicação com as pessoas.

 

Para Dan Siegel e Tina Bryson a opção 2 para resolução desta situação que facilita a utilização do cérebro superior é aplicar a estratégia “ligar-se e redirecionar”. Ligar-se significa ser capaz de adivinhar o que o outro está a sentir no momento e pode iniciar o diálogo perguntando e pedindo confirmação. Normalmente, uma vez que o diálogo começa depois flui! Estamos ligados e agora queremos redirecionar o cérebro para o andar de cima. Queremos que a pessoa utilize as suas competências socia-emocionais. Queremos que a pessoa se envolva na resolução da situação. O que quer mudar, o que lhe faz falta? Quando é capaz de o fazer significa que conseguimos redirecionar. Estamos em sintonia!

 

Aqui fica a descrição do que aconteceu:

 

«Comecei com uma observação: “pareces zangado. É verdade?” Ele franziu o rosto numa expressão feroz, pôs outra vez a língua de fora e proclamou em voz alta:” sim!” A verdade é que fiquei aliviada por ele ter parado ali; não me admiraria nada se tivesse acrescentado o seu mais recente insulto preferido e me chamasse “cara de peido”. Perguntei-lhe porque é que estava zangado e descobri que estava furioso porque o António lhe tinha dito que só tinha direito a sobremesa se comesse pelo menos metade da quesadilla. Expliquei-lhe que percebia porque é que estava aborrecido e disse: “Bem, o pai não é muito bom a negociar. Decide o que te parece a quantidade justa para comeres e depois fala com ele. Se precisares de ajuda, diz-me”. Fiz-lhe uma festa no cabelo e voltei para a mesa e observei o rosto de novo adorável a evidenciar sinais de intensa reflexão. O seu cérebro do andar de cima estava sem dúvida envolvido. Na verdade, estava em guerra com o cérebro do andar de baixo. Até ao momento, tínhamos evitado um ataque de fúria, mas ainda parecia que um perigoso rastilho ardia dentro dele. Passados cerca de 15 segundos, o meu filho voltou para a mesa e disse ao António, num tom zangado: ”Pai, não quero comer metade da minha quesadilla. E quero sobremesa.” A reação do António harmonizou-se perfeitamente com a minha: “Bem, então o que te parece que seria uma quantidade justa?” A resposta foi lenta e decidida: “Tenho uma palavra para ti: dez dentadas.” O que torna a resposta nada rigorosa ainda mais engraçada é que dez dentadas significam que ele comeria muito mais de metade da quesadilla. O António aceitou a contraproposta, o meu filho comeu as dez dentadas e a sobremesa com grande satisfação, e a família inteira (bem como os outros clientes do restaurante) saboreou o almoço sem mais incidentes. O cérebro do andar de baixo do meu filho nunca assumiu o comando total, o que, para nossa sorte, significou que o cérebro do andar de cima venceu a batalha.»

 

O cérebro da criança, 12 estratégias revolucionárias para treinar o cérebro em desenvolvimento do seu filho, Dr.Daniel J. Siegel e Profª Dr.ª Tina Payne Bryson, Casa das Letras, 2018

 

Mindsight na educação dos filhos - Parte 1

 

Maria Monteiro