OPINIÃO PÚBLICA

O Pedro e o Lobo

Todos conhecemos a história


Por:Fernando Almeida

2019-06-19
A forma de pensar de uns e de outros tem vindo a contaminar a sociedade e tem criado uma cultura coletiva em que a destruição da vida aparece como algo normal e absolutamente justificável

À medida que o ser humano se vai distanciando da natureza e dos seus ciclos, parece esquecer que também ele, Homem, é tão dependente do equilíbrio do planeta como qualquer outra espécie. Admira ver os que rodeados dos confortos urbanos vêm todas as suas necessidades satisfeitas sem deixar as comodidades da vida moderna, olhar para o mundo natural como se lhe não pertencessem. Alguns até se lamentam da chuva, incómodo que perturba o fim de semana, mesmo em tempo de seca severa, como se a água que bebem e que permite criar o que comem não fosse uma verdadeira bênção dos céus…

 

Esse afastamento do mundo real, por vezes substituído pelo consumo compulsivo de fantasiosas imagens televisivas e de jogos de computador, leva à incompreensão dos ciclos naturais e ao desejo de viver um mundo estéril, livre de bactérias, livre de insetos, livre de ervas, livre de cobras, de aranhas, de sapos, de lobos e de tudo o mais que possa inquietar a tranquilidade senhorial de quem se acha superior a todos os demais seres vivos. Há também os outros, os que não olham para o mundo senão como local onde se produz dinheiro. Para estes, desde que algum ser vivo tenha a ousadia de reclamar para si nem que seja uma ínfima parte daquilo que o planeta produz, deve ser eliminado para sempre da superfície da Terra…

 

A forma de pensar de uns e de outros tem vindo a contaminar a sociedade e tem criado uma cultura coletiva em que a destruição da vida aparece como algo normal e absolutamente justificável, e onde até se ridiculariza o modo agir dos povos que respeitam e protegem a natureza. Aqui, entre nós, o que tem dominado é o espírito “anti-vida”: desde os germicidas, aos raticidas, aos inseticidas, aos fungicidas, aos herbicidas, tudo serve para matar os seres vivos que nos rodeiam. E é curioso que a nossa ignorância aliada à falta de bom senso nos tem levado a pensar que somos imunes aos venenos que lançamos ao nosso redor, e por isso chegamos mesmo a pulverizar de inseticida a casa onde comemos e o quarto onde dormimos… Achamos que matará os outros seres vivos, mas a nós nada de mal fará.

 

Quando vejo a forma como de ânimo leve destruímos a natureza, lembro-me da China do final dos anos 50 do século passado e da sua lamentável ideia de exterminar os pardais. A história, para quem a não conheça, conta-se em poucas palavras: pensaram os responsáveis chineses que se os pardais e outros pássaros comiam algo como dez por cento das colheitas de cereais, bastaria eliminá-los para no ano seguinte, sem que se tivesse sequer semeado mais um grão que fosse, ter um acréscimo significativo das colheitas. É evidente que no ano seguinte, em vez de haver abundância de comida, houve fome, porque como é fácil de perceber, não havendo pássaros os insetos atacaram as culturas e provocaram nelas verdadeiras razias. Afinal a natureza estava certa e o Homem na sua arrogância tinha errado de novo. E diz-me a experiência do muito que já vi e ouvi no mundo que é assim que acontece sempre que nós desrespeitamos a natureza e os seus ciclos: mais cedo ou mais tarde pagamos caro os erros que cometemos. Já devíamos saber isso.

 

Tudo isto vem a propósito da utilização de herbicidas, já não só usados em algumas culturas agrícolas, mas antes generalizado aos espaços urbanos, em passeios e jardins, até à berma das estradas, mesmo onde as ervas não constituem qualquer problema, a escolas, nos pátios onde as crianças e jovens convivem e brincam, à margem de ribeiros, de canais de rega, de valas de drenagem, como se se tivesse instalado entre nós um ódio ao verde.

 

Agarrado à sola do sapato, na água que bebemos, no que comemos, no pão, no peixe (mesmo do mar) e na carne, no ar que respiramos, esses venenos acabam por chegar a todos nós. No que respeita ao glifosato, que é o principal composto herbicida usado entre nós, as análises têm mostrado que os portugueses estão muito mais expostos que outros povos da Europa, talvez porque o uso por aqui tem sido generalizado e sem qualquer tipo de critério.

 

Sabe-se que que poderosíssimos interesses económicos envolvidos com os agroquímicos têm feito tudo para nos convencer que os produtos que vendem são inofensivos para a nossa saúde e para o ambiente em que vivemos, mas também todos sabemos que, por exemplo, a indústria tabaqueira andou dezenas de anos a negar os evidentes efeitos negativos do tabaco sobre a saúde. Pagaram estudos a cientistas sem escrúpulos, pagaram congressos médicos, publicações em revistas, pagaram aos melhores escritórios de advogados, sempre com o intuito de garantir lucros para si mesmos e com desprezo total da vida e da saúde dos demais.

 

Todos conhecemos a história do Pedro e do Lobo: as grandes empresas internacionais tantas vezes nos têm enganado em situações deste tipo que, mesmo que um dia falem verdade, já ninguém vai acreditar no que dizem. Eu por mim continuo a achar que se é veneno para os outros seres vivos, não deve ser muito saudável para nós…

 

 

Fernando Almeida