Conciliar natureza e desenvolvimento

A Resolução do Conselho de Ministros veio dar pulmão à região de Odemira. A redução para 40% de área de agricultura coberta, impôs um limite físico para este tipo de agricultura, o que possibilita agora redefinir quais são as áreas dedicadas à agricultura e quais são as áreas com património natural a conservar.

Não há compatibilidade entre ambas – ora se há uma área com valor natural que importa preservar, não se pode fazer agricultura. No entanto, há espaço físico para podermos conciliar a agricultura com os valores naturais. Importa identificar as áreas a conservar e redefinir os limites do perímetro de rega para que possamos conciliar as várias actividades.

Não podemos é ser inconscientes ao ponto de querer travar o desenvolvimento agrícola. As condições climáticas da região aliadas ao regadio, não podem ser colocadas em segundo plano devido ao Parque Natural. O perímetro de rega nasceu 20 anos antes do Parque. O potencial agrícola da região foi estudado na década de 60. A importância económica deste sector na região é demasiado importante para ser posta em segundo plano. O papel da agricultura na fixação das pessoas aqui é de extrema importância.

Quando me mudei para a região, em 2016, vim por motivos profissionais: agricultura. Em cada projecto, para além dos colaboradores que são necessários para trabalhar no campo, é também necessária mão-de-obra qualificada: técnicos, gestores, financeiros, etc. Muita desta mão-de-obra fixa-se na região com as suas famílias. Não há sector profissional nenhum no concelho que tenha tanta dinâmica social como o que a agricultura tem.

A agricultura é um pilar importantíssimo na sustentabilidade e biodiversidade. Nós, produtores agrícolas, não somos destruidores da natureza e muito menos utilizadores inconscientes dos recursos. Nós, temos um respeito enorme pela natureza e pelos recursos que usamos no dia-a-dia. Ao nível da água, hoje trabalhamos com tecnologia que nos permite obter reduções de consumo abismais. Desde o uso de culturas em vaso até aos sensores em permanente leitura, obtemos uma eficiência do uso de água que não merece o rótulo que nos é, por vezes, colocado.

Relativamente à natureza, o uso de agro-químicos – como se diz por aí – obedece a regras de aplicações e de autorizações de uso cada vez mais apertadas. Cada vez mais, as explorações agrícolas optam por controlo biológico em vez de pesticidas. Cada vez mais temos restrições de uso por parte dos clientes. E que fique bem claro que os resíduos das aplicações de pesticidas nas culturas são degradados e não permanecem na fauna e flora. Claro que há espaço para melhorar e os agricultores estão em constante melhoria e a adoptar, cada vez mais, medidas para minimizar os impactos ambientais.

Nós, produtores agrícolas, não somos destruidores da natureza e muito menos utilizadores inconscientes dos recursos

Querer viver num mundo onde não existam impactos ambientais gerados pelas diversas actividades da economia é utópico. Importa conseguir minimizar esses mesmos impactos adoptando boas práticas.

Por fim, afirmar que esta região é de uma beleza e valência fenomenais. Importa definir uma estratégia a curto e longo prazo para os diversos sectores de actividade que se praticam cá, para que possam todos conciliar e interagir as suas actividades de uma forma sustentada e duradoura. Há espaço para tudo e todos.

E acabemos de uma vez por todas de associar as estufas a um crime ambiental. As estufas são o melhor aliado da sustentabilidade. É devido a esta estrutura que os agricultores conseguem minimizar as aplicações de pesticidas e conseguir produzir com melhor qualidade e segurança, protegendo as plantas das adversidades meteorológicas.

About the Author

Natural do Porto e com fortes ligações ao mundo rural transmontano. Forma-se em Engenharia Agronómica, com formação posterior na Holanda, iniciando a sua actividade profissional em Inglaterra, em 2012. Fixa-se na região do SW Alentejano, quatro anos depois, encantado com as suas valências. É Director de Produção de uma empresa agrícola desde 2018.

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