Cittàslow – uma vila mais habitável

O movimento Cittàslow já se tornou um movimento internacional que tem mais de 200 vilas e cidades participantes.

Há exactamente 20 anos que em Orvieto, pequena cidade italiana, surgiu o movimento “Cittàslow” (cidade lenta), um movimento para promoção duma cidade que se concentra nos valores próprios, contra a padronização dos produtos e serviços, contra a perda da pluralidade cultural, contrariando a forma de vida “fast” (rápida) e melhorando a qualidade da vida urbana. A base deste e de outros movimentos “slow” era a ideia do “slow food” (alimentação lenta) que apareceu já nos anos 80 do século passado.

O movimento Cittàslow já se tornou um movimento internacional que tem mais de 200 vilas e cidades participantes.

É uma organização a que cidades com menos de 50.000 habitantes podem aderir como membro, cumprindo pelo menos 50 % dos requisitos. Estes requisitos abrangem sete áreas temáticas:

– Políticas ambientais
– Infra-estruturas
– Qualidade urbana
– Valorização dos produtos regionais
– Hospitalidade
– Consciência
– Qualidade paisagística

Em Portugal, já existem seis cidades Cittàslow: Tavira, Lagos, S. Brás, Silves, Viana do Castelo e Vizela.

Olhando para Milfontes pode dizer-se que a vila cumpre, mais ou menos, uma boa parte dos requisitos. Ainda não existe muita padronização de produtos e serviços, mas sim uma promoção de produtos regionais e artesanais. A paisagem tanto como a hospitalidade têm grande qualidade. No entanto, é preciso ter atenção. A diversidade do comércio já diminuiu e só restam poucas lojas tradicionais. Em vez disso houve um aumento significativo de restaurantes e bares etc. que fecham durante o inverno, tornando o centro uma vila fantasma.

Completamente diferente é a situação da infra-estrutura, nomeadamente a situação do tráfego. Com a excepção do centro histórico, em todo o lado existe prioridade para os automóveis que entram na vila em grande número, fazendo muita poluição, tanto sonora como visual como em relação ao ar.

Para as pessoas que por qualquer razão ou vontade precisam dum automóvel para se deslocarem não existe alternativa, quer dizer, não existe nenhuma forma de transporte público (além do trem turístico … cuja ideia dum transporte frequente circular, hop on hop off, até podia servir como base para um transporte público por carrinha).

Andar de bicicleta entre os carros é perigoso e pouco confortável, não existem ciclovias eficientes. E as pessoas que andam a pé têm ainda menos hipóteses de passear tranquilamente.

Como já escrevi noutra altura, os estreitíssimos passeios não dão espaço, nem para carrinhos de bebé, nem para cadeiras de rodas, nem para carrinhos de compras. Uma pessoa sozinha consegue andar, mas tem que ter sempre os olhos abertos para todos os lados, senão vai bater nos candeeiros de rua, nos sinais de trânsito, noutros transeuntes, ou vai cair no chão por causa das permanentes descidas e subidas nos passeios feitas para facilitar a entrada dos automóveis nas garagens. Quando se quer passear com a família ou um grupo de amigos: só em fila indiana.

Enquanto não se fizerem alterações significativas em relação ao trânsito (que no meu entender deve ser uma tarefa prioritária) poderiam fazer-se para já pequenas mudanças que ajudariam os transeuntes, p.ex. alargar os passeios nos sítios dos candeeiros, pôr os sinais de trânsito nos cantos dos passeios, abaixar os cantos dos passeios para os automóveis em vez de abaixar todo o passeio. Além disso, não seria boa ideia plantar mais árvores?

Se calhar muitas das pessoas que costumam atravessar a vila só de automóvel bem como muitos dos comerciantes vão pensar que uma redução drástica da circulação dos automóveis iria afastar as pessoas e possíveis clientes. Mas as experiências que se fizeram em milhares de cidades pelo mundo fora mostram exactamente o contrário: nos sítios em que os transeuntes conseguem reconquistar os centros urbanos e aumentar a qualidade da vida urbana, os movimentos das pessoas e os negócios tendem a aumentar.

Vila Nova de Milfontes uma Cittàslow – para mim esta visão é um sonho maravilhoso.


SITE OFICIAL DO MOVIMENTO CITTÀSLOW

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