Mindsight na educação dos filhos I PARTE 1

O Dr. Dan Siegle no seu tempo de estudante de medicina, durante o treino profissional no hospital, reparou que alguns dos seus professores não possuíam a capacidade de reconhecer a vida interior subjectiva dos seus pacientes ou mesmo dos estudantes. Apesar dos óbvios e comprovados conhecimentos técnicos, estes médicos ignoravam a experiência interna da pessoa que estavam a cuidar. Por exemplo, em situações em que o médico recebia o resultado das análises do paciente com um diagnóstico de uma doença terminal, quando transmitia a notícia ao paciente e aos seus familiares, seguia directamente para o próximo quarto de hospital sem reparar na resposta emocional que essa notícia tinha desencadeado no paciente e nos familiares: as lágrimas, o visível medo e ar devastado dos familiares. Dan Siegle não conseguia compreender e ficou intrigado acerca de como é que alguns médicos podiam não ver a vida interior dos pacientes. A palavra Mindsight nasceu assim e Dan Siegle utilizava-a para classificar as pessoas que não conseguiam aperceber-se da vida interna da mente dos outros e foi desenvolvendo este conceito ao longo da sua vida. Começou por querer compreender a relação entre a presença ou ausência de mindsight nos pais e as relações de vinculação estabelecidas com os filhos e o desenvolvimento do cérebro. link

Mindsight é uma capacidade que pode ser aprendida e treinada. É a base fundamental da auto-regulação e do bem-estar. Permite, por um lado, a criação de relações de vinculação segura quando estamos a educar os filhos, durante o seu crescimento e, por outro lado, um mecanismo de integração interpessoal!

Mindsight é a capacidade de visualizar, conhecer e compreender a nossa mente e a mente do outro. Permite-nos “desenvolver relações humanas com significado ao mesmo tempo que mantemos uma saudável noção de individualidade”.

É integrar a parte esquerda e direita do cérebro e o andar de cima (cortex cerebral) com o andar de baixo do cérebro (tronco cerebral, sistema límbico). Possibilita a utilização e desenvolvimento, de forma integrada, das diferentes capacidades do cérebro e facilita a aquisição de circuitos neuronais responsáveis pela empatia e pelas relações sociais. link

Lembro que é nas relações humanas que construímos a nossa identidade, e que esta ligação aos outros favorece felicidade e realização pessoal. Lembro também a importância da aquisição das aptidões sociais para a vida em sociedade em que constantemente alternamos do modo “Eu” para o modo “Nós” sem perdermos a nossa identidade única. link

A mindsight tem três componentes: o discernimento (insight), a empatia e a integração.

O discernimento é a capacidade de entender o que está dentro de si próprio e o que acontece dentro de si próprio.

Empatia é a capacidade de compreender a experiência da outra pessoa, como ela vive as experiências do dia-a-dia.

Integração é, por um lado, o reconhecimento de que existem diferentes funções e estruturas mentais no cérebro e por outro lado, a promoção da criação de ligações entre essas diferentes funções das diferentes partes do cérebro. A integração refere-se às ligações (circuitos cerebrais) que se estabelecem dentro de si e as ligações que se estabelecem na relação com os outros. “O objectivo é evitar viver num dilúvio emocional (cérebro direito) ou num deserto emocional (cérebro esquerdo). Queremos permitir que as imagens não racionais, as memórias autobiográficas e as emoções vitais desempenhem os seus importantes papéis, mas também queremos integrá-las nas partes de nós mesmos que conferem ordem e estrutura às nossas vidas.” Nas relações que temos com os outros, é o processo de integração que nos permite estabelecer relações que produzam bem-estar, aprendendo a utilizar o cérebro de uma forma global.

Exemplo do dia-a-dia: “Estávamos num dos nossos restaurantes mexicanos preferidos e reparei que o meu filho de quatro anos se tinha levantado da mesa e estava parado atrás de um pilar, a cerca de três metros de nós. Por muito que o ame, e por muito adorável que ele seja a maior parte do tempo, quando vi a sua cara zangada e desafiadora e percebi que estava a pôr repetidamente a língua de fora na nossa direcção «adorável» não foi a palavra que me ocorreu. Algumas pessoas que estavam sentadas perto de nós repararam e olharam para o António, meu marido e para mim, para verem como íamos lidar com a situação. O meu marido e eu sentimos a pressão e o julgamento das pessoas que nos observavam e esperavam que impuséssemos a lei das boas maneiras num restaurante. Quando me aproximei e me agachei ao pé do meu filho para ficar ao nível dos seus olhos percebi que tinha duas opções claras. Opção 1: podia recorrer ao tradicional ‘Ordenar e Exigir’ e começar com a típica ameaça proferida num tom severo: «pára de fazer caretas, meu menino. Vai-te sentar e termina o almoço ou não comes sobremesa. Por vezes a opção 1 é uma reacção adequada. No entanto, no caso do meu filho, este confronto verbal e não verbal teria desencadeado todos os tipos de emoções reactivas no cérebro do andar de baixo – a parte que os cientistas chamam de cérebro réptiliano- e ele teria ripostado como um réptil a ser atacado.” Qual poderia ser a opção 2 que facilitasse a utilização do cérebro superior? Ou seja que promovesse uma reacção mais ponderada por parte da criança?


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