Os crimes contra a Humanidade

Passou despercebida uma resolução do Parlamento Europeu que promete pôr um fim à eterna discussão sobre qual dos dois regimes totalitários, nazismo e comunismo, foi o mais assassino. Aprovado no dia 19 de setembro, o texto intitulado “A Importância da Lembrança dos Europeus para o Futuro da Europa” conclama todos os países da união a equipararem o nazismo ao comunismo. Aprovada por 535 votos a favor, 66 contra e 52 abstenções, a resolução reconhece aos países membros legitimidade para tornarem ilegais expressões nazistas e comunistas no seu território e reconhece ainda que, enquanto a violência perpetrada pelos nazistas foi julgada e punida em Nuremberga, os crimes de Estaline e das suas ditaduras satélite permanecem sem a devida análise jurídica e moral.

O documento insta todos os países membros da União Europeia a condenarem o revisionismo histórico que celebra tanto o nazismo quanto o comunismo, e a combaterem os negacionistas do Holocausto bem como tomarem medidas para evitar a trivialização dos discursos nazista e comunista na política contemporânea. Condena ainda o uso dos símbolos dos regimes totalitários (suásticas e principalmente a foice e o martelo) em prédios públicos.

Assim, e à primeira vista, esta resolução agora aprovada coloca estes dois regimes sanguinários no mesmo plano e tenta com um acto político anular a sua adoração por parte de facções e ou franjas marginais.

Revendo as similitudes no que concerne às guerras ilegais, ocupação de territórios estrangeiros, campos de concentração e de extermínio e, de maneira geral, ao total abuso dos direitos humanos que ambos regimes praticaram, “parece” correcta esta resolução agora aprovada. Digo “parece” não porque não concorde com esta iniciativa dos burocratas de Bruxelas, mas porque a julgo totalmente deficitária e enviesada à luz do que assistimos praticado por outro dos “ismos” contemporâneos – O Capitalismo. Na sua extrema vertente o Neoliberalismo, também ele pratica guerras ilegais, também ele contém em si campos de extermínio (que muito embora não utilizando o Ziclon B ou o frio da Sibéria) mata em câmara lenta os civis inocentes dos territórios ocupados, também possui campos de concentração e tortura como Guantánamo, utiliza armas ilegais e alvos militares, também eles ilegais à luz da Conferência de Genebra, e ainda viola a mesma conferência no que diz respeito aos direitos humanos nos territórios bombardeados pelo domínio económico imperial.

Assistimos assim ao branqueamento do extermínio, de milhões de vidas desde a segunda metade do século passado, quando se condena e tenta extinguir qualquer eclosão de dois regimes homicidas esquecendo um terceiro em vigor que, em pouco difere no método e resultados das suas acções e políticas.

É com este hino à hipocrisia dos políticos avençados pela economia do armamento, da energia fóssil e dos interesses económicos respaldados por uma geopolítica determinada a fazer valer os valores fiduciários, em detrimento dos humanos, que assistimos a que uma tipologia de organização social e política virada para o domínio dos recursos naturais do planeta passe “entre os pingos da chuva”, não sendo equiparada em termos de sofrimento e extermínio humano às duas outras acima referidas e agora excomungadas do referencial civilizacional europeu.

“Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus.”

Eduardo Galeano

Não sendo novidade nenhuma esta cegueira selectiva europeia e ocidental, esta é sintomática do envelhecimento e caducidade do perfil político e das políticas europeias, no que concerne à humanização da sociedade nas suas basilares vertentes da justiça e ética.

Não importa mais acalentar a dicotomia entre esquerda e direita, pois ambas estão mortas, a luta a travar agora e já, reside entre o VELHO e o NOVO.

O VELHO conceito de que os nossos crimes são menos violentos, que a nossa versão da história é a correcta, que a nossa visão cultural é determinante e que nos podemos apropriar dos bens alheios por direito imperial, está moribundo e pede a extrema-unção, que a bem da verdade lhe deveria ser negada para o deixar qual alma penada em campa rasa e sem lápide em similitude com os outros “ismos” agora e bem ostracizados.

O NOVO, esse, está em construção…

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Alentejano com meio século de vida, com travessuras feitas por várias áreas profissionais e coisas estudadas em terras inglesas e sul-africanas. Instrutor de Desenvolvimento por vontade do destino.

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