O problema não são as estufas

Manuel de Landa, no seu livro “Teoria da Assembleia e Complexidade Social”, descreve como as distribuições de recursos nunca existem num espaço abstracto, mas estão sempre relacionadas com entidades concretas, como comunidades, mercados ou redes interpessoais. Os recursos podem ser vistos como propriedade de tais entidades, sejam recursos físicos como petróleo, água, framboesas, ou ainda metais de terras raras, ou conceituais, como solidariedade, mutualidade, legitimidade ou confiança. Uma forte ligação entre esses activos tangíveis e intangíveis foi e é até à data o motor do sucesso do desenvolvimento humano. O homem sonha, a obra nasce e modernamente acrescentou-se o factor de coabitação ou regeneração ambiental à produção.

Não tenho a certeza se esta ligação entre estes activos aqui nas nossas terras de regadio alentejanas, está com apego suficiente às ecologias em que vivemos. ou se entraram em complexos circuitos de contaminação cruzada por dependência salarial , comercial ou ideológica .

Seriam necessárias formas individuais de compreensão da perda que está em jogo, bem como seria também necessária uma estrutura colectiva para lidar com as consequências do impacto socioambiental provocado pelo agronegócio aqui estabelecido. Seria importante ainda, não cometer os mesmos erros que outros continuam a cometer ainda que arrependidos, e olhar para o exemplo de outros que estão em vias de – ou já abandonaram esta espécie de agricultura.

Uma mudança de paradigma implica uma grande mudança nos conceitos e práticas de como algo funciona ou é realizado e podendo ocorrer numa ampla variedade de contextos, agricultura incluída.

O físico e filósofo americano Thomas Kahn Kuhn contesta que as mudanças de paradigma caracterizam uma revolução apenas por um quadro científico predominante. Surgem, (diz ele) quando o paradigma dominante, sob o qual a ciência normalmente aceite opera, é tornado incompatível ou insuficiente, facilitando a adopção de uma teoria ou paradigma revisto ou completamente novo.

Mudanças de paradigma têm origem em ideias controversas e normalmente percebidas como equivocadas ou becos sem saída, embora o cepticismo e a investigação sejam parte integrante do processo científico, o peso da resistência científica e pública a um novo paradigma acaba normalmente por prevalecer provocando até muitas vezes o ridículo. Estas mudanças acontecem numa ampla gama de outros contextos para descrever uma profunda alteração no modelo, modalidade ou percepção. Embora não sejam instantaneamente aceites, se for comprovado que uma ciência periférica se baseia em critérios sólidos e testados, esta pode criar um momentum que se desenvolva lentamente tornando nulo o sistema vigente ou estabelecido.

A título de exemplo refiro que existem alternativas agrícolas comprovadas, com alto retorno económico, maior input positivo na natureza e um forte output na qualidade de vida das comunidades, elevando de forma significativa as condições de satisfação geral, mas que requerem a visão de uma outra perspectiva agrícola e socioeconómica, como condição para a sua aplicação.

Os paradigmas são importantes porque definem como percebemos a realidade, e como tal, todos estamos sujeitos às limitações e distorções produzidas pela sua natureza socialmente condicionada e permeabilidade à confusão como é o caso dos ambientalmente falidos conceitos de desenvolvimento agrícola

Não devemos confundir tecnologia com modernidade, a primeira pertence ao mundo dos utensílios a segunda ao mundo dos homens e ao seu avanço cultural e civilizacional. A modernidade, pertence aos tais activos intangíveis que se reflectem no bem estar de toda uma comunidade e do planeta de forma geral.

Modernidade é não contaminar o ambiente com químicos, é não ser necessário criar corredores ecológicos dentro de um parque natural, é ser socialmente responsável e não promover uma indústria de imigração sem ter condições para alojar o fluxo que provoca, é não deixar para o erário público o ónus da responsabilidade do impacto social, é tratar com respeito todo o tecido ambiental, é criar mais e destruir menos.

“Não somos responsáveis apenas por fazer, mas também pelo que deixarmos de fazer”.

Molière

Ser moderno é aplicar eficiência a todos os pilares do desenvolvimento sustentável, e criar um fluxo de retorno positivo para todos os, social, ambiental e económico. Enquanto algum dos três estiver em desvantagem não existe verdadeiro e equilibrado retorno, nem real desenvolvimento e muito menos sustentabilidade.

Mas para que tal equilíbrio tão comum noutras comunidades, pudesse existir aqui à beira Mira, teria que acontecer uma alteração de paradigma ou uma outra visão de realidades colectivas de sucesso, ou outra coisa qualquer que lhe queiram chamar.

O problema não são as estufas… é o sistema que elas sustentam.

About the Author

Alentejano com meio século de vida, com travessuras feitas por várias áreas profissionais e coisas estudadas em terras inglesas e sul-africanas. Instrutor de Desenvolvimento por vontade do destino.

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