A troca como forma de preservar Festa da semente de São Martinho das Amoreiras

A agricultura de subsistência continua a ser prática entre os agricultores do concelho de Odemira

A agricultura de subsistência continua a ser prática entre os agricultores do concelho de Odemira. A criação de uma rede regional de sementes que promova a preservação e ao, mesmo tempo, a liberdade perante o controlo das indústrias, é um dos motivos da realização do evento.

Desde 2011 que a Festa da semente acontece para o público e para a região, tendo em conta as práticas da comunidade. Inicialmente, foi organizada por um grupo de pessoas ligadas ao GAIA – Grupo de Ação e Intervenção Ambiental Alentejo, sendo que a primeira edição integrou o projeto “Centro de Convergência”, uma estratégia de dinamização e desenvolvimento de meios rurais. Este evento começou por acontecer na Aldeia das Amoreiras e há cerca de quatro anos que tem como ponto de encontro São Martinho, no concelho de Odemira. Desta vez, a 9 de fevereiro, no salão de festas da localidade.

Como resposta à “Campanha pelas sementes livres” desenvolvida pelo GAIA Nacional, surgiu a necessidade de comunicar sobre a troca de sementes. Rita Asas, um dos elementos da organização, confessa que com o passar do tempo, este evento “começou a ser também das pessoas da região”, que colaboram, cada vez mais, na logística. Este ano contaram com o apoio de 10 voluntários e visitantes do norte a sul do país.

A AMAP, Associação pela Manutenção da Agricultura de Proximidade, com sede no Porto, esteve no local e ainda partilhou experiências e conhecimentos. Filipa Almeida é natural desta cidade e visitou a festa da semente pela primeira vez, em representação do programa da Rádio Manobras. Reforçar que é licenciada em Engenharia do ambiente e participou num dos primeiros encontros da AMAP. De acordo com a sua perspetiva, a agroindústria está muito presente na região e “não está a andar de mãos dadas com a preservação da semente”. Atualmente, o agricultor não tem tempo para completar círculos, ou seja, semear, recolher e manter as caraterísticas do que está a ser plantado.

Por outro lado, existem alguns visitantes assíduos, como é o caso da Rita Norberto, que já vem pela quarta vez. Decidiu sair de Lisboa e ir viver para o campo, mais concretamente, na freguesia de Luzianes – Gare. A seu ver, a soberania alimentar está dependente do que cada um cultiva, sem haver necessidade de ser dependente de sementes híbridas, completas de fertilizantes e pesticidas provenientes das grandes corporações.

Rita Norberto, estudou biologia e tem mestrado em Gestão e conservação da natureza. Como tal, defende que “esta vida incrível que existe dentro de um grão pequenino” só é possível de manter através da biodiversidade. Se a semente está em risco, o consumidor tem de encontrar alternativas para as poder guardar, garantido a sua liberdade. Neste sentido, a rede regional tem como objetivo facilitar a comunicação local, através da criação de um banco de sementes, que preserva as que são tradicionais.

Apesar de já existir algum trabalho feito em Odemira, é importante incentivar a retomar essa prática, aproveitando que nesta zona muitos agricultores recorrem à horta como principal fonte de alimento.

Na feira, o mercado de produtos biológicos tem sido uma constante ao longo destas oito edições, havendo desde um produtor de mais de 80 variedades de malaguetas, à farinha de bolota, entre outros. O número de visitantes tem crescido, assim como, a vontade de atuar a nível regional. A descentralização desta prática torna-se uma potencialidade, uma vez que, se pretende “complementar e não competir”, como afirmou Lilian Von Wussow, membro da comunidade Tamera -Centro Internacional de Pesquisa para a Paz, sediada no Alentejo.

A tomada de consciência para a problemática da liberdade e troca de sementes exige, desta forma, a continuidade da realização destes eventos. O principal objetivo continuará a ser o mesmo, semear.

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