A Noite da Boa Morte

FOTO: Tony Hernandez

O fim e o princípio dos ciclos de vida. O ciclo da vida-morte-vida

Nesta fase do ciclo da vida, que marca um fim e um início, é a noite das Almas, a noite dos Mortos, a noite da boa morte, o Samhain ou o Halloween, de acordo com as diferentes tradições, que celebra este momento do ano, e abre um portal de transição.

As tribos nativas tinham a sabedoria de como viver em harmonia com a vida e os seus ciclos, e ao longo da minha experiência de vida e de estudo foi crescendo a minha curiosidade para investigar várias tradições ancestrais, onde eu pudesse entender o que se passava dentro de mim e no meu entorno. Sempre tive o impulso de me conhecer e entender-me melhor e por isso desde cedo iniciei o meu percurso de auto-conhecimento e estudei Psicologia.

A civilização celta, que foi composta por várias tribos nómadas espalhadas por toda a europa, guarda um grande manancial de sabedoria sobre a importância de nos integrarmos e alinharmos os nossos biorritmos, ao grande ciclo da Vida e natureza, nos vários momentos de mudança ao longo da roda do ano. E para os antigos celtas é a noite que dá inicio ao tempo, é o crepúsculo que dá inicio ao novo dia e o ano começa na sua fase de declínio. Então, para eles, esta fase assinala o inicio de um novo ciclo.

Na nossa jornada do ano, o Outono marca o fim das colheitas e inicia o período da decomposição, onde as árvores se despem dos seus frutos e folhas, que caem no chão, rendidas, para se doarem à fertilidade da terra.

Trazendo esta metáfora para a vida é um tempo que nos convida a concluir ciclos, terminar projetos, e a fazer as podas necessárias para que possamos iniciar um novo ciclo desde o vazio. É também tempo de nos doarmos, doar o que já está maduro, e não nos serve mais. É tempo de compostagem interior, que nos incentiva a farejar aqui bem dentro dos meandros da nossa psique, da nossa alma, aquilo que já está a decompor-se e a fermentar para poder ser adubo fértil, para fazer nascer novas partes de nós.

A natureza lá fora convida a nossa natureza interior à integridade do deixar ir, do largar e limpar espaços da nossa memória, de libertar vivências nossas, bem como memórias das vivências dos nossos ancestrais, que tanto deles trazemos dentro.

É hora de rendição, de chorar, curar, libertar, transformar o que já não serve, deitar cá para fora, o que já não tem espaço de ser contido dentro. Honrar a beleza do que foi, mas saber largar o que de menos belo se tornou. E assim é a Vida e os ciclos da vida-morte-vida. É também hora de celebrar o bem vivido, os momentos prazerosos, a abundância do que colhemos no ciclo que chega ao fim.

No ano passado, por esta altura eu estava no México a celebrar precisamente esta data, em Teotihuacan, a cidade sagrada dos Maias, a nordeste da Cidade do México, com uma família indígena, que conheci ocasionalmente uns dias antes, no norte do país.

Este momento, para alguns locais do México, porque nem todos os estados o celebram, é tempo de celebração e de honrar a ancestralidade, mas também de cura e transformação, onde há a oportunidade de ressignificar a história de uma família. Quem fica, fica com o legado de levar a chama dos vários ensinamentos e sabedoria da sua linhagem, bem como de limpar e curar o que já não faz falta dentro da dinâmica familiar, quer sejam doenças ou comportamentos de desvio.

No México esta data é celebrada durante três dias, onde o primeiro marca o dia de celebrar as almas das crianças, tanto das que viveram, como as que nunca chegaram a viver, até chegar ao terceiro, onde se concretiza a festa total, com carros alegóricos, foguetes e bailes de música e dança.

Juntos fizemos os altares, vestimos os esqueletos com vestidos de cores e alegria, cheios de flores e oferendas, como bolos, doces, chocolates e frutas. Nesta celebração convidam-nos a abraçar o que a vida e a morte tem em comum, e como uma é a base da outra, porque sem um fim não há um início, e sem um início não há um fim.

Nesta tradição, contam que durante esta noite os mortos vêm visitar os vivos, para celebrarem juntos as suas histórias e memórias de vida. Temos assim o exemplo de que na morte há alegria, há celebração, porque é através do portal da morte que passamos para o novo, para o (re)nascimento. Recordar os familiares e trazer à memória os seus melhores momentos de vida é enviar essa mesma alegria de volta, e é semear a alegria em toda a família. Oferecer comida é trazer a abundância para todos também, e assim, a alegria e a abundância nunca cessam, porque o receber começa com o dar.

Na nossa tradição também os nossos ancestrais são relembrados, onde as suas últimas moradas são limpas e adornadas de flores coloridas. Há também o convite a revisitar a memória dos nossos antepassados e as suas histórias. É o momento de voltar a lembrar as qualidades daqueles que vieram antes de nós, como também a relembrar as nossas próprias histórias e a alinhá-las em harmonia com o ciclo da nossa família.

Na minha família paterna, a minha avó celebrava esta data de forma sagrada, e toda a família se reunia para jantar depois da procissão. As janelas da vila vestiam-se de mantas roxas, assinalando a passagem da morte, pela vida.

Depois da minha experiência no México fui capaz de sentir a transversalidade das culturas e os seus costumes, bem como das sincronicidades da vida. Como a vida nos leva ao encontro daquilo que inconscientemente fugimos, porque nos provoca dor, mas há um momento em que os esqueletos do armário começam a sair e a morte se torna a salvação para o outro lado de nós, aquele lugar tão temido, por ser desconhecido. Aquele lugar mais poderoso e brilhante de nós, mas por isso mesmo, tão escondido e protegido pela nossa rede de proteção do inconsciente, com as suas resistências.

O convite da vida foi iniciar uma profunda jornada de re-significação e alinhamento da minha história pessoal e familiar. Foi tão mágico o convite da morte e da vida para que eu pudesse fazer um caminho de cura e libertação, tão carregado de significado, de símbolos, memórias e emoções completamente impressas nos ossos, na pele, em todo o meu corpo. É incrível perceber, sentir, como nós trazemos toda a história da nossa família, e num campo mais alargado, de toda a humanidade, nas nossas células. E precisamente como a vida, a Vida com um todo, como energia primordial, em constante movimento, nos pede libertação e morte. Por todos nós, por toda a humanidade, porque ela está precisamente detida nas memórias e no corpo de todos nós. E a Vida quer movimento.

Chega a hora em que a mente já não consegue deter a morte, e o que nos resta simplesmente é a rendição. E quão bela e prazerosa pode ser essa morte, nunca vamos saber se não nos entregarmos.

Este portal que se inicia nesta noite, traz-nos assim o convite à reflexão do que urge deixar para trás, do que já não há como não morrer, para que possamos caminhar mais livres e íntegros na próxima jornada. Convida à entrega e à aceitação do que já não nos serve, quer sejam padrões de comportamento, situações, memórias, pessoas e relações, com a total compaixão merecida.

Há a máxima de que quando se fecha uma porta abre-se uma janela. Que possamos então fechar todas as portas do nosso lar interno, para que as janelas possam ser totalmente abertas ao novo ciclo, e a melhores e mais belas versões de nós mesmos. Que o novo ciclo nos traga o que precisamos para estarmos cada vez mais alinhados com a nossa missão, com a nossa verdade individual, conectada com a verdade Maior.

Uma feliz noite dos mortos, para que amanhã possamos despertar para o dia mais vivos que nunca!

* CURANDEIRA CONTEMPORÂNEA

About the Author

Com uma vida dedicada ao estudo da consciência pela experiência da cura e da transformação do corpo e da alma, aliada aos estudos em Psicologia, Filipa culmina na ideia de curandeira, que na sua visão e sensibilidade criativas é a porteira para a cura de outros.

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