Sonhos e tesouros escondidos

No meu tempo de professor de História, a conversa na aula levava-nos frequentemente ao imaginário, pleno de mistério, de tesouros escondidos, cuja existência e localização eram por vezes revelados em sonhos, quais “arquetípicos” de Carl Jung. Para confirmar a veracidade destes sonhos premonitórios, uma vez um aluno contou que um seu vizinho sonhara com um tesouro de moedas de ouro, encerrado num pote de barro, por sua vez enterrado junto de certo sobreiro. Perguntei-lhe: “O teu vizinho encontrou o tesouro?” Resposta: “Bem, o tesouro não, porque alguém se antecipou, mas os restos do pote onde estava guardado ainda os viu espalhados por lá.”

Esta crença algo pueril em tesouros que esperam por nós já causou prejuízos em sítios arqueológicos, porque alguém com um detector de metais observou sinais ou porque se contavam lendas sobre determinado local. Estou a lembrar-me do antigo povoado da Idade do Ferro e romano, das Mesas do Castelinho, no concelho de Almodôvar, que o proprietário dos terrenos parcialmente destruiu, com retro-escavadora, porque lhe soava que havia lá um tesouro. Na realidade, o tesouro que existia não era um “pote de libras”, mas a possibilidade de melhorar o nosso conhecimento sobre a história regional.

As moedas islâmicas corriam também nos reinos cristãos nascentes da Península, pois estes não tinham moeda, havendo que obtê-la do território muçulmano quer através de algumas relações comerciais, quer através de saques de guerra

Não obstante a possibilidade de alguém encontrar algum tesouro valioso, nestas circunstâncias, ser muito inferior à de acertar no Euromilhões, quero contar um caso, em que alguém encontrou, efectivamente, um tesouro. A senhora que teve essa sorte não enriqueceu, mas ganhou algum dinheiro, aliás de forma ilegal, pois a lei não permite este tipo de negócios.

Tratou-se de um conjunto de muitas centenas de moedas de prata, datadas do Emirado independente de Córdova (séculos VIII e IX), portanto do período islâmico, encontrado perto do Monte da Consulta, em Luzianes, infelizmente disperso e provavelmente perdido para um estudo científico, com excepção de alguns, poucos, exemplares.

Este tesouro, decerto escondido por seu dono, talvez um dignitário ou um rico mercador em viagem ou em fuga, naturalmente face a qualquer perigo, talvez derivado da guerra, ou do banditismo, constitui o maior achado de moedas árabes do período do emirado até agora encontradas. Em qualquer caso, demonstrativo de intensos contactos comerciais. Note-se ainda que as moedas islâmicas corriam também nos reinos cristãos nascentes da Península, pois estes não tinham moeda, havendo que obtê-la do território muçulmano quer através de algumas relações comerciais, quer através de saques de guerra.

Al Hakam I

O autor destas linhas conseguiu adquirir duas das referidas moedas, intencionando que fossem estudadas e que ficassem no concelho, disponíveis para um futuro museu, ou mostra numismática. Uma delas, de que aqui podemos ver as duas faces, é um dirham de prata, datado de 798/799 da Era Cristã (ano 182 da Hégira, que marca o início do calendário islâmico), cunhado no al-Andaluz, sob o segundo reinado de al-Hakam I, 3.º emir independente de Córdova. Foi publicada no meu livro Odemira Histórica. Estudos e Documentos, de 2006, após leitura do especialista em numismática árabe, José Rodrigues Marinho. A segunda moeda, não publicada, é datada de 854/55 (240 da Hégira), segundo ano do mandato do emir Muhammad I.

Como é hábito, as moedas estão cobertas de inscrições relacionadas com o emir que as mandou cunhar, com data e lugar da cunhagem e com versículos do Alcorão. Não eram cunhadas imagens pois isso estava vedado pela religião, assumidamente monoteísta, a quem repudiava o culto de imagens e representações figurativas.

Com isto, termino e volto ao tópico do primeiro parágrafo. Não consta que o achamento deste tesouro tivesse decorrido de qualquer sonho indicatório. Apenas da extraordinária sorte da achadora – e naturalmente do azar do dono, que há mais de mil anos se viu obrigado a enterrar o seu pecúlio.

Sobre o Autor

Nasceu em Vila Nova de Milfontes, em 1945. Licenciou-se em História e exerceu a profissão de professor. Posteriormente doutorou-se, com uma tese sobre história portuária. Tem realizado pesquisa histórica, em particular sobre o Litoral Alentejano, cujos resultados têm sido publicados em livros, artigos e actas de simpósios.

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