Nós e os inúteis

Conheci em tempos um sujeito que nunca tinha trabalhado, nem para outros nem para si mesmo, nem para o privado nem para o público, nem a aprender nem a ensinar, em suma, nunca tinha feito nada que tivesse préstimo na vida. Nunca conheci ninguém que fosse mais lesto a denegrir tudo o que os outros faziam. Nada estava bem, ninguém era competente, todos tinham defeitos graves, deviam ser despedidos porque nada de valor acrescentavam ao mundo. E era ele, o verdadeiro inútil e parasita da sociedade, quem achava que sabia julgar o trabalho dos outros…

Todos os povos têm o seu próprio desporto nacional. Para uns será o sumo, para outros o tiro com arco, para outros o cricket… Podemos pensar que o nosso é o futebol, mas não é. Entre nós o principal desporto, porque o mais praticado e porque tem mais impactos sobre o nosso quotidiano, é o dizer mal de nós próprios. E parece que nem a recente e misteriosa onda de promoção do país, que nos colocou no mapa do mundo e na rota do turismo internacional, veio acabar com esse desporto. Somos assim, mas a comunicação social que nos fala do mundo todos os dias tem grande responsabilidade nisso.

Entre nós o principal desporto, porque o mais praticado e porque tem mais impactos sobre o nosso quotidiano, é o dizer mal de nós próprios.

Quem nos ouça nas conversas de café e não conheça efetivamente a realidade do país, ficará a pensar que temos os piores serviços de saúde do mundo, e que ir a um hospital público é uma aventura perigosa. Não admira, porque a própria comunicação social quase só fala daquilo que corre mal nos nossos serviços de saúde, e só rarissimamente daquilo que está bem. Ainda recentemente se gastaram horas de noticiários e páginas de jornais a falar de uma ecografia mal feita e de um médico de competência duvidosa. Mas as televisões e os jornais nada disseram sobre o excelente trabalho de milhares de outros médicos que no dia-a-dia dão o seu melhor pela qualidade da saúde dos portugueses. Quem falou das noites que perdem em urgências esgotantes, e das equipas das ambulâncias que voam pelas estradas para nos socorrer quando necessitamos?

A avaliar pela mesma comunicação social os professores devem ser em grande percentagem pedófilos, incompetentes e violentos para os alunos. E a imagem das escolas que transmitem é dominada pela insegurança e intolerância. Mas será realmente assim, ou na maior parte dos casos os professores são cuidadosos e competentes, quantas vezes verdadeiros segundos pais e mães dos alunos, e na escola domina um bom ambiente de tolerância e de amizade. Mas se as notícias que nos falam de escolas e professores nos jornais e televisões só mostram o que corre mal, somos levados a crer que realmente a situação é desastrosa.

É claro que funcionários públicos são verdadeiros parasitas da sociedade, inúteis, incapazes e dispensáveis, que apenas atrapalham a vida dos cidadãos e das empresas. Pelo menos é assim que alguns querem que todos nós os olhemos. Mas será verdade? Será que a maioria dos funcionários públicos é dispensável e pouco produtiva? Como nos casos anteriores toma-se a parte pelo todo, e confunde-se o sistema, por vezes obsoleto e arcaico, com o valor dos que no seu quotidiano fazem o melhor para que tudo vá funcionando.

Também só temos notícias dos políticos corruptos (ou suspeitos de corrupção que os jornalistas julgam antes dos tribunais), dos que se aproveitam da sua posição para retirar vantagens para si próprios e para os seus amigos e correligionários partidários. Mas será que são todos assim, ou essa é apenas a situação de alguns, que os órgãos de comunicação social usam para melhor vender notícias (ou melhor, a publicidade que se vende junto das notícias)? Onde estão as notícias dos presidentes de junta de freguesia que largam a família para conduzir uma carrinha de recolha de idosos; onde andam os jornalistas, que entre as centenas de presidentes de câmara deste país, só encontram os que são desonestos? Então e os outros, os que dão o melhor de si pelas suas comunidades, esses não são notícia?

Parece que todos nós, geralmente capitaneados por uma certa comunicação social gulosa de escândalo e ansiosa por audiências, procuramos o que está mal e desprezamos tudo o que temos de bom

E o mesmo se passa com bombeiros, com militares, com polícias, com jovens, com velhos… Parece que todos nós, geralmente capitaneados por uma certa comunicação social gulosa de escândalo e ansiosa por audiências, procuramos o que está mal e desprezamos tudo o que temos de bom. Até acho bem que se procure o que está mal, mas numa perspetiva construtiva que conduza à melhoria, e não na lógica miserabilista e acusatória que nos divide e nos baixa a autoestima. Mas temos também que começar por não falar só do que corre mal, e antes a mostrar e promover também o que temos de bom, que felizmente é muito mais que o que temos de menos bom, e por isso merece ser notícia.

Se calhar é por Portugal não ser tão mau assim, que muitos, provenientes dos quatro cantos do mundo, quando cá chegam já não querem de cá sair. Talvez esteja na hora de dar mais valor ao esforço de cada um de nós, até porque quando as pessoas se sentem valorizadas ficam mais motivadas e ainda melhoram mais o seu desempenho.

O mundo melhor faz-se mais com reconhecimento do mérito, que com a crítica do erro. Já é tempo de aprender isso. E quanto aos inúteis, os que nunca fizeram nada na vida e passam os dias nos cafés a dizer mal de tudo e de todos, simplesmente ignorem-nos.

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Geógrafo de formação; professor por profissão; investigador por vocação; irreverente por natureza; preocupado com o planeta e com o futuro de todos nós por obrigação.

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