Edição 26

Cem Palavras

Finalmente chegámos ao mês dos 5 Fs. Fátima, Futebol, Família e Fado dominam 11 meses do ano, mas em agosto chegam as Férias. Faz-se de tudo para não se fazer nada. Fica-se sem pressa à espera do pôr-do- sol. Falamos da silly season porque não há muito mais para falar. Focamo-nos no bronze e desfocamo-nos das dietas. Fugimos da rotina chata que nos persegue todo ano e mergulhamos na rotina fresca das férias. Ficamos desapontados com o mau tempo, mas não nos afeta muito porque, na verdade, mais vale um mau dia de férias do que um bom dia de trabalho.
Edição 25

Cem Palavras

Quando um partido chega ao poder, a oposição, em toda a sua redundância, opõe- se; o governo anterior, agora que não governa, teoricamente resolve problemas, começando a fazer o trabalho que não fez quando estava em maioria. Os deputados, essa amálgama de sesta em conjunto, lá estão, sendo. A amorfidade política nunca vai ganhar forma enquanto se governar a 4 anos, sem planos a longo prazo, enquanto interessar mais galgar carreiras e egos, do que responder a interesses nacionais. E, enquanto isso, vão sempre haver catástrofes sem responsáveis, sendo a maior de todas o nosso desgoverno, seja de que cor for.
Edição 24

Cem Palavras

Quando perguntamos a uma criança “O que é estás a fazer?, ela responde “Nada!” e esconde as mãos, ficamos preocupados. Da mesma forma, quando perguntamos a alguém que faz parte do governo, ou que tem cargos de gestão pública, “O que é que se passa na sua conta e/ou nos seus impostos?”, respondem “Nada!” e depois escondem os movimentos bancários e declarações fiscais, ficamos preocupados. É como um cabeleireiro nunca tirar o chapéu, um dentista nunca mostrar os dentes ou um alfaiate andar nu. Não tenho nada contra, até podem ser os melhores do mundo. Mas, para mim, prefiro outro.
Edição 23

CEM PALAVRAS

Sabemos que o mundo está à beira do colapso quando começa a haver, entre outras coisas, marchas pela ciência, pelo ambiente e quando a sociedade duvida das vacinas.
Numa era moderna, com um acesso inesgotável à informação, como é que se pode desconsiderar factos? Ainda por cima, estas críticas à ciência (e a todas as suas formas) são feitas na internet, através de um smartphone enquanto ouvimos o “plim” do micro-ondas (estão a perceber a ironia?).
O bicho papão que todos tememos somos nós próprios, a nossa ignorância, prepotência e letargia. A Humanidade devia começar a duvidar de si própria.
Edição 22

CEM PALAVRAS

Existem pessoas com patologias que utilizam o nome de uma causa maior para justificar os seus fins. Quando são muçulmanos, a sociedade chama-lhes terroristas; quando são loirinhos chama-lhes doidos; quando são políticos chama-lhes sistema. O mundo está cheio de psicopatas com mais ou menos tendência para detonar. Na maior parte dos casos, a forma como explodem tem repercussões tenebrosas para as pessoas que os rodeiam. O vocábulo com que identificamos esses atos varia conforme as palavras disseminadas pelos media quando os noticiam. Por isso, hoje em dia, há muitos “ataques terroristas”, à falta de melhores substantivos para definir estes assassinos.
Edição 21

CEM PALAVRAS

A alimentação ficou cheia de preceitos ridículos. Diz a boa etiqueta que não devemos começar a comer sem dar graças às redes sociais, através de uma fotografia sagrada do repasto por encetar.
Diz o vocabulário que não existem cozinheiros, existem chefs; já não há alarves, há foodies; já não se diz “comida boa”, diz-se "comida gourmet".
Dantes, o gosto pessoal era respeitado; hoje há sacrilégios sociais inquebráveis, como por exemplo não gostar de sushi.
A obesidade mórbida dos egos estrangula o bom senso, enquanto a anorexia cultural chupa a razão. E ficamos assim, uns integraizinhos sem glúten com nomes chiques.
Edição 20

CEM PALAVRAS

Mulheres marcharam em todo o mundo. Foi o Trump quem despoletou o acontecimento, mas cada passo em frente nestas caminhadas representa a liberdade conquistada pelas mulheres, no mundo ocidental.
Durante séculos foi-nos exigido recato, submissão, entre outras subordinações ridículas. Parece um tempo distante, mas ainda estamos longe de não viver numa falocracia.Nesta sociedade silenciosamente misógina, os Trumps e os Berlusconis expressam publicamente, e de forma exagerada, o que a maioria dos homens pensa. Caso contrário o salário entre os géneros era o mesmo, havia oportunidades de trabalho iguais e, acima de tudo, os direitos eram aplicados de forma idêntica.
Edição 19

CEM PALAVRAS

No período da passagem de ano estamos determinantemente determinados tal é a determinação. É um novo ano ainda mais novo, o princípio perfeito para o princípio das coisas. Se algo ficou por fazer, é agora que tudo vai mudar.
Vamos dar início às resoluções adiadas, as que prometemos sempre começar amanhã, mas quando o amanhã deixou de ser viável atirámos determinados “para o ano”.
Vamos começar a dieta fartamente prometida, aliás, os detoxs verdejantemente saudáveis parecem viáveis, até estamos dispostos a experimentar. Mas não é preciso ser já, ainda é janeiro, temos o ano todo para isso. Começamos amanhã. Amanhã
Edição 18

CEM PALAVRAS

A América não está louca, é toda a leviandade com que encaramos o mundo que está a destruir-nos. Criticamos um futuro líder mundial porque quer construir muros, mas acabámos de construir um na Europa, em Calais. Criticamos, com repugnância, que ele vai ser um ditador, um vilão, mas damos dinheiro à Turquia para impedir que os refugiados cheguem mais além e fechamos os olhos à chacina que tem vivido confortavelmente neste país. Achamos que ele é racista mas estamos a ver a extrema-direita a ganhar força em França sem nos preocuparmos. Não, não é a América, é o mundo.
Edição 17

CEM PALAVRAS

Todos gostamos de fugir à nossa responsabilidade como cidadãos. Pomos a culpa num “eles” que funciona para quase tudo, porque eles não fazem, eles não ouvem, até porque eles são todos iguais. Mas esquecemo-nos que nós fazemos parte do “eles”. Partilhamos uma sociedade onde cada um tem responsabilidades, onde eu tenho, tu tens e eles têm. Pluralizar os problemas é só uma forma de fingirmos que, na nossa bolhinha, não temos de fazer nada, é só esperar que as coisas mudam sozinhas. Mas não mudem, ou então eles acabam por mudar e fazer como querem. Mas aí, eles têm razão.
Edição 16

CEM PALAVRAS

A crise de que tanto se fala é uma consequência, sobretudo, de uma crise de valores. Basta olhar para a classe política a nível mundial, e percebemos que algo está errado. Existem ditadores acordados com a União Europeia, nazis de cabeleira muito falsa a candidatarem-se à presidência de potências mundiais, entre muitos outros exemplos.
Também não precisamos de ser génios para percebermos que uma crise económica é uma consequência da ganância de elites com escrúpulos duvidosos.
Ou seja, é fundamental educarmos uma nova geração. Está na altura de valorizarmos os valores, com toda a redundância que este caso bicudo merece.
Edição 15

CEM PALAVRAS

Agosto é um mês que chega de rompante. Dá-se logo pela sua presença. No dia 1, os media passam as notícias para segundo plano e só mostram os nossos governantes se estiverem de calções na praia ou num bailarico. As redes sociais, em vez de caras, passam a mostrar vários pés com os mais diversos cenários de fundo. Este ano, com a moda de caçar bichos virtuais, os pirilampos agradecem e proliferam por esse mês a dentro. Agosto é um mês a gosto, onde deixamos as preocupações em casa e onde Portugal assume a sua tanga, mas a de praia.
Edição 14

CEM PALAVRAS

O choque dos líderes europeus com a saída da Inglaterra da UE é hipócrita. Dá vontade de rir, ou chorar, conforme a nossa nacionalidade. Nesta união, os ricos emprestam aos pobres com juros absurdos, numa esperança utópica de reverem o dinheiro.
Estes líderes metem o bedelho nas políticas internas, forçam medidas e depois dizem que erraram. Estes líderes tremeram com o referendo da Grã-Bretenha pela fragilidade que podia causar, mas vou ser eu a dar-lhes as más notícias: Nesta união sadomaso onde há mestres e submissos sem safeword, a Europa caminha para a auto-fornicação, no sentido mais calão do termo.
Edição 13

CEM PALAVRAS

Eu gosto de futebol. Gosto do convívio, dos petiscos e das cervejas. Também gosto do jogo. Sigo o princípio da época de forma moderada, mas no final frequento tascas com a regularidade dos jogos importantes. Cada bola à barra é compensada num prego no pão, cada receção falhada é abraçada por um tremoço e cada golo é festejado com um brinde de imperial. Este brinde aumenta de tamanho quando joga a seleção. A nação despe-se dos clubismos e veste as cores de Portugal. Todos passam a adorar a bola e a perceber um bocadinho o que é ter um clube.
Edição 12

CEM PALAVRAS

No Brasil há uma crise política? Levantam-se dedos e sentam-se rabos para se manifestarem num computador a jeito; Em Angola há censura? Por cá gritam vozes importunadas, dentro do conforto da sua “liberdade”. Bombas terroristas? Nascem ações conjuntas de mudança de perfil, mas só o virtual porque o outro dá trabalho.
Entretanto, vão construir uma inútil plataforma de petróleo no Algarve, os políticos esquivam-se agilmente da justiça e outros praticam exercícios de censura ginasticando a corrupção nacional. Mas nós já nos cansámos de lutar por outros e ainda há uns dias saímos de casa no 25 de abril.
Que canseira.
Edição 11

CEM PALAVRAS

Todos sabemos que os políticos são incorruptíveis; o futebol é feito de milhões, porque todos trabalharam arduamente (é difícil ser presidente de um clube ou intermediário de compra/venda de jogadores); sabemos que as pessoas muito ricas são as primeiras a oferecer-se para pagar mais impostos, e deixam sempre o dinheiro nos bancos nacionais para estimular a economia.
Neste contexto, todos sabemos que os imensos paraísos fiscais foram criados sem malícia, são apenas para os milionários poderem dar férias ao dinheiro, de tão altruístas que são. Daí o nosso espanto do caso Panamá. Nada disto se passa nos outros offshores.
Edição 10

CEM PALAVRAS

Muito resumidamente: As relações entre pessoas de quem gostamos passam por assisti-las durante a vida.
Quando mudam de casa damos-lhes uma mão, quando estão tristes um ombro, quando têm problemas uma palavra. Damos um bocado de nós porque elas também dão um bocado de si, quando menos estamos à espera.
A morte assistida é tão importante como a vida assistida. Quando a pessoa está em sofrimento, numa doença estupidamente prolongada, que implica um definhamento inevitável, deve ser uma opção podermos auxiliá-la como sempre fizemos, deixando-a escolher o último bocadinho que nos quer dar. Assim, assistimos a um fim com dignidade.
Edição 9

CEM PALAVRAS

Há pessoas que mudam o mundo, ou que primam por ser as melhores naquilo que fazem, que procuram o brio profissional, ou que lutam pelos direitos de todos, custe o que custar, ou trabalham o que for preciso para concretizar um sonho, ou que têm um talento único e exploram-no, ou que sabem aproveitar a vida focando-se no que as faz feliz, ou que tiveram que fazer escolhas difíceis que as mudaram drasticamente, que são os melhores pais do mundo, ou que são os melhores filhos do mundo. Há pessoas notáveis. Depois há outras que são presidentes da república portuguesa.
Edição 8

CEM PALAVRAS

Janeiro é um mês que nem se dá por ele. Entre ressacas, histórias do ano que passou e resoluções de ano novo, quando damos por nós já estamos em fevereiro. Fevereiro tem o carnaval, março tem a primavera, abril tem a Páscoa, maio tem a nossa senhora, depois vem o pacote de verão junho-julho-agosto, setembro tem os melhores últimos dias de praia, outubro tem o Halloween, novembro começam os preparativos de Natal que ocupa dezembro e, quando damos por ele, já voltou mais um novo ano. Por isso, aproveitem lentamente as coisas boas porque 2017 está quase aí.
Edição 7

CEM PALAVRAS

O natal nunca chega de mansinho, muito pelo contrário. De um dia para o outro, e sem aviso prévio, as ruas enchem-se de decorações, nas lojas as músicas natalícias agarram-se aos nossos ouvidos e os anúncios de supermercado, em vez de frango no espeto, vendem hipopótamos aos saltos. Mas, por estranho que pareça, eu gosto do natal. Gosto de dar e receber (seja de que forma for), de cantar as tais músicas festivas, empanturrar-me de doces que só vejo uma vez por ano e garantir que vejo toda a família junta mais vezes do que vejo os doces. Feliz Natal.
Edição 6

Cem palavras

O outono é a estação onde caem as folhas das árvores, mas parece que este fenómeno está a contagiar outras áreas. Aproveitando o mote, esta tem sido uma época de queda de governos de direita, caem direitos humanos e de liberdade de expressão, caem valores que se partem, que se estilhaçam, ferindo os que ainda são ingénuos o suficiente para acreditar num mundo melhor. Eu quero ter essa ingenuidade, gostava mesmo que não fosse preciso acreditar, que fosse uma certeza absoluta. Mas o melhoramento do mundo é muito difícil quando, infelizmente, também estamos numa época em que caem muitos tomates.
Edição 5

Cem Palavras

A tecnologia mais avançada tal como a conhecemos, descobriu um dos principais ingredientes para a vida tal como a conhecemos. Uma máquina comandada por vida inteligente tal como a conhecemos, há de procurar vida tal como não a conhecemos. Informação extraterrestre a ser recolhida pelo primeiro extramarciano, a ser comandado por máquinas extraordinárias que, por sua vez, são comandadas por humanos extravasados. Esperemos que o robot não tenha tecnologia alemã tal como a descobrimos. Caso possua, muito embora fique contente que tenham encontrado água em Marte, espero que não sejam lágrimas de extraterrestres extintos devido à ganância das tecnologias extremadas.
Edição 4

Cem Palavras

Fizeram do verão um político. Começa a pré-campanha numa perfeita mentira em forma de pílulas e batidos milagrosos, que tornam qualquer corpo perfeito, sem esforço. Quando chega ao poder, achamos que nos esperam dias quentes, mas arrefece-nos essa espetativa com montras de lojas em roupa de inverno, lembrando-nos que se aproxima a intempérie. Já despidos de grandes esperanças e de roupas, pedimos um gelado numa praia vazia em setembro, mas sabe ao azedo do regresso às aulas e ao trabalho, que nos é relembrado sem descanso pelas inúmeras campanhas publicitárias. Aí sabemos que sentimos o sabor dum final de mandato.
Edição 3

CEM PALAVRAS

Pedi à minha filha de 4 anos que escolhesse um único presente de Natal. Quis-lhe dar uma lição sobre o consumismo – eu, que até tenho a consciência destas coisas! Ela, tomou a tarefa com muita seriedade. Era notório o esforço do processo.
Uma semana depois,
Mãe, já sei o que quero
Sim? Então diz lá...
Uma pedra
Uma pedra?... Oh! (consegui travar a exclamação “isso não é um presente!”)
Sim, eu adoro pintar pedras, mas faltam-me as pedras
Um cesto cheio de pedras redondas, de vários tamanhos, escolhidas uma-a-uma para a Isabel e uma grande lição para a mãe dela.
Edição 2

CEM PALAVRAS

Diz-se que o mundo vai mal. Sente-se cá dentro. De tal forma que, às vezes, quando me abandono ao sentimento, tenho ganas de fugir. Ou de esquecer. Ou de mandar fazer. Ou de protestar.
Diz-se que o mundo vai mal - que tem que mudar. Só com mudança profunda é que lá vamos, só com um novo olhar. Como, não sei - imagino que se começa com um passo, segue-se com um outro, experimentando e inspirando outros a avançar, festejando, se possível. O erro é fugir, esquecer ou ficar à espera que façam. Eu não deixaria nas mãos deles...
Edição 1

CEM PALAVRAS

Passei uma parte da minha vida a lançar raízes por aí. Confunde-me o facto de sentir que esse hábito de lançar raízes foi interrompido a determinado ponto. Talvez nunca me tenha adaptado ao chão que piso agora. O facto surpreende-me - julguei-me talhada para a adaptação fácil. Em Odemira, passei os verões da infância. Esta vila deu-me muito colo e eu bem precisava dele. Aqui as raízes devem ser bem fundas - sinto-as hoje ainda, bem vivas, quando vou de passagem entre o país do norte que me mantém em estado de espera, desenraizada, e a terra onde eu anseio regressar.