Edição 26

A SALA DOS OUTROS

Só há uma espécie humana, mas por vezes não nos reconhecemos entre os nossos pares e deliramos para conseguir compreender a realidade que nos chega, que não é a nossa, seja pela TV ou pelos olhos. Umas causam mortes e ódios. Outras sucumbem na simples tarefa de pessoas comuns, com suposta inteligência, de viver em harmonia com os demais, mostrando uma fraca dose de cidadania, fazendo aquilo que não fazem entre as paredes dos seus lares, transformando-os em "Lixo Doce Lixo".
Edição 25

CONDOMÍNIO

Vivemos num mundo que não é só nosso e que não controlamos. Viajamos, escolhemos um lar, escolhemos um bairro, escolhemos o que aí encontramos, a cidade, o país. Mas o presente é efémero e só o futuro está à nossa frente, para ser aproveitado todos os dias. O que definimos como nossa escolha é mutável a todo o momento e não está ao nosso alcance desenhá-lo à medida, tornando-o estanque aos nossos desejos. Assim, a adaptação será sempre a regra. Adaptação aos elementos da natureza, à diferença do universo, ao acrescento que são os outros nas nossas vidas. Com um sorriso, com uma mão, com tudo o que queremos também para nós. Num domínio que a todos pertence e que deve ser vivido - e desfrutado! - em harmonia.
Edição 23

LUGARES DE CULTO

Se percorrermos a orla marítima, ou mesmo alguma cidade com um curso de água em redor, podemos observar pequenos amontoados de pedras em equilíbrio, que contagiantes parecem suster toda a harmonia do universo. Estão por todo o lado, vão aparecendo aqui e ali, auguram uma estabilidade espiritual - dizem! - na boa tradição das filosofias orientais e no doce sabor do abstracto. Não ditam nenhuma regra, nem pedem esmola. Apesar de possuírem o carácter inóspito de uma favela, inspiram à matutação e à paz, no reflexo de todos os astros à escuta do firmamento, não vá ele cair. Trazem boas novas, talvez, ou por ventura, tentam alumiar o cimo de alguma árvore. Desequilibrá-las seria o fim do paraíso. Por isso, pelo sim pelo não, vão crescendo estes locais de culto, à semelhança de um surto epidémico. Haverá alguma vacina?
Edição 22

ESTÁDIO DE FUTEBOL

É um facto, o futebol domina a sociedade e os estádios são a âncora paisagística de qualquer cidade. Podíamos mudar o nome do país para outro mais consentâneo com o desporto rei. Alguém que sugira. O das cidades, para as suas figuras mais proeminentes. Ajudava, de certeza que ajudava. O turismo, o comércio, a felicidade da população e, por consequência, toda a economia. Lá fora, iriam apreciar a mudança e os nossos parceiros na Europa e no mundo, abismados pelo nosso profundo empreendedorismo, tomariam o gosto ao replicar a nossa decisão. E assim, em pouco tempo, tudo seria futebol. Como aliás está escrito desde o princípio dos tempos, já que o nosso planeta é uma bola e o cosmos o nosso imenso relvado.
Edição 21

CÉLULA FOTO-ELÉCTRICA

O homem pré-histórico antes de rumar a outras tecnologias usava o Sol como fonte primária de energia. Foi assim que se deu conta do fogo. Apenas no século XXI cumprimos o ciclo e voltámos de novo a essa forma de vida. Noutra partes do Alentejo essa é a realidade, os raios solares que caem na terra (com ou sem maíuscula) são canalizados para o uso corrente das necessidades energéticas. O receptáculo é cada vez mais fino e com maior capacidade. Os custos são cada vez menores. Hoje, não há forma de se poder evitar este facto, o de abraçar de novo a pré-história que há em nós e seguir em frente.
Edição 20

COSTA ATLÂNTICA

A Costa é um lugar sagrado que define a linha entre dois mundos. Este onde a humanidade se estabeleceu e o outro, com uma imensidão desconhecida, onde se expande o universo aquático. Em Odemira, existem cerca de 55 quilómetros desta ligação ao mar, um privilégio absoluto que é necessário preservar dos dois lados, não criando barreiras intransponíveis que nos impedem de chegar lá à frente, ao futuro. É a essência da vida que está em jogo. Cada um tem a sua responsabilidade e não há razão nenhuma para que assim não seja. É preciso defender este bem precioso.
Edição 19

MUSEUS

Um museu é uma janela para o conhecimento e um lugar egocêntrico, onde se mostram os saberes da humanidade mas também as vanglórias. Os feitos e os trejeitos. Nos museus a realidade torna-se um abismo para os sentidos. Por dentro e por fora. Nesse lugar consagrado às musas encontra-se alimento e as pessoas saltam para fora da sua caixa. Nunca se deve desdenhar a capacidade de um museu, não importa a sua dimensão. À pergunta “Queres ir ao Museu?”, responder sempre que sim. Bom Ano!
Edição 18

ZONA DE (DES)CONFORTO

Há sempre qualquer coisa que nos impele para o desconhecido. Sair, dar um passo em frente e entrar nesse escuro, onde nada se sabe e muito pouco se compreende. Onde o futuro é incerto. É isso que nos faz viver. Depois logo se vê. Faz-se contas à vida. Abre-se a janela. Deixa-se entrar o ar. E tudo recomeça.
Edição 17

TRONO

Os habitantes desde planeta são levados desde muito novos para um mundo de competição, para hierarquias, para objectivos de poder que se regem por marcas e classificações: os melhores para um lado, os piores para o outro. É uma corrida. À partida têm todos as mesmas ferramentas, a mesma capacidade de raciocínio, o mesmo estatuto de ser humano, com cabeça, troncos e membros. Mas as escadas não são iguais para todos. Alguns galgam vários degraus de cada vez, outros ficam pelo primeiro patamar. E isso determina toda a sua existência. Mas é neste vai-e-vem que começa a sede do trono, a sede de que se é mais do que os seus pares. Começando a pisar terreno alheio. Não há como parar este fenómeno.
Edição 16

LUGAR AO SOL

Não é necessário ser um lugar especial, basta uma vidinha, uma coisa simples, virado para um lado ou para o outro, tanto faz, desde que bata o sol. A luz, a energia, o calor, estão aí, à mão de semear. Para quê complicar? O astro está sempre lá em cima, livre e gratuito. Já na Pré-história se sabia que era a fonte principal de onde todos podiam beber. Mas são poucos os que chegam a essa conclusão. Há distrações, há os ecrãs, os gambuzinos, a papelada. As correrias do costume. E quando chega a noite, esquece-se que o sol existe.
Edição 15

ESTÔMAGO

A primeira fronteira onde tudo começa. Onde tudo se sente. O amor, o medo, a coragem. A vida. Um lugar cheio de ácidos que desfaz qualquer organismo que nele pisa. Um inferno cheio de fome. Lá em cima uns letreiros a faiscar: “Fábrica que absorve e transforma”. Para os mais incautos, uma estação de tratamento para uma existência em pé, que imprime passaportes para outra estação. Não deixa nada em claro. Contabiliza e tem memória. Por ordem do estômago, somos apenas um covil de resíduos. Nada mais. Ainda assim, conseguimos pensar, uma coisa ou outra.
Edição 14

OUTRO LUGAR

Não queremos estar aqui. Aqui neste lugar. O tempo não deixa. Chegamos tarde, já tudo aconteceu. As televisões já partiram para outro directo. Correm que nem pulgas. Já nada interessa. Nada tem importância quando tudo conta. Sem filtro, dizem. Ardem mais depressa. E o que fica? Não fica nada. Os jornais já estão a rolar nas gráficas e amanhã é outro dia. Quem ganhou? Não queremos saber. Queremos fugir. Ninguém quer estar aqui. Fujam! É o melhor que têm a fazer. Para outro lugar.
Edição 13

LUGAR ERRADO À HORA ERRADA

Estar na confluência cósmica de um acontecimento onde só cabe um elemento. É azar, é destino? Para quem professa alguma crença é o dedo do seu todo-poderoso a dar o seu toque. A moldar o mundo. E por isso não devia existir razão para tristeza. O ciclo segue o seu caminho. A renovação da terra, onde tudo cai, tudo se transforma. E a vida continua, noutro lugar.
Edição 11

POSTO DE CONTROLE

Há os que entram e os que saem. Cada um com a sua bagagem às costas. Vidas inteiras despejadas à pressa para dentro de uma mala, na esperança de um retorno. Uma mochila, um aparelho de navegação, às vezes uns novelos de lã, lá dentro, com umas agulhas, para fazer uma camisola quentinha, não vá a coisa dar para o torto. Nunca se sabe quando neva. E a salutar resma de papel-higiénico, sim, porque o canal pode estar entupido e nem um panamá ou uma parca daquelas mais coloridas, para assinalar a nossa presença, nos safa. Convém por isso estar sempre à espreita, de preferência num local altaneiro. Faz bem. Ajuda a quebrar o tempo e dá-nos tempo para pensar, é um “spring breaker”, por assim dizer. E depois, sim, decidimos o que fazer.
Edição 10

CAMA

Passamos pouco tempo na cama. Não lhe damos importância. A cama é o lugar de todos os sentidos. Que nos absorve no mundo desconhecido do sonho. Sabendo que estamos a dormir, estamos também a viver. Na nossa cama. De consciência aberta para outras frentes. A limpar o dia que correu. A encostar-nos ao dia que vem. Sozinhos ou acompanhados, a cama é o nosso melhor planeta. Aquele que nos põe em órbita.
Edição 9

SUL

O sul é o caminho que sobra quanto estamos no topo da esfera. Estamos sempre no topo da nossa esfera. Sul é o contrário de norte. O contrário de norte é desnorte. Lugar idílico onde se vai sem sentido. À nora. Guiados apenas pelo vento. Sem caminho. Onde não se vê. Não se encontra. E aí, procura-se. Sobe-se. Desce-se. Numa única direção. Ao encontro do destino mais certo. Que é tudo aquilo que nos espera. Ver. Tocar. Provar. Ouvir. Cheirar. Sul, o sexto sentido. Aquele que nos dá o espaço. O espaço do nosso norte.
Edição 8

ODE AO EMIR

Com os seus 140 km de extensão, pouco mais ou menos, o rio Mira demarca a versatilidade do concelho. Com uma fauna e flora inaudita, muito mais se poderia fazer no rio, tornando-o a via mais efusiva da vida cultural e histórica de Odemira. Por exemplo, com uma carreira regular que subisse e descesse o fluxo do seu leito, à laia de um Mississípi de trazer no bolso, calhando em todos os cais e apeadeiros, abraçado ao suco das marés. Contando com os penhascos do Caldeirão, onde nasce, gostamos particularmente do nome dos seus afluentes. À direita, o Torgal, o Luzianes e o Perna Seca; à esquerda, o Macheira, o Guilherme e o Telhares; e na linha avançada, o areal das Furnas e da Franquia chutam as doces águas até ao mar. Esta é uma equipa em que não há como mexer. E os nomes revelam tudo. Com uma toponímia mourisca, “ode” significa rio e mira vem, mais coisa menos coisa, da adulteração do termo “emir”. Portanto o Emir descia o rio para estender a sua prol, em cada poiso. Assim se fez a História, basta segui-la.
Edição 7

PRAIA DO ALMOGRAVE

Existem agora na Costa do Almograve umas “argolas olímpicas”. Já experimentámos e ficámos fãs. Nada como sentir a brisa marítima de pernas para o ar e depois fazer um Tsukahara e ficar esborrachado no solo arenoso. Não são só as argolas, é toda uma linha de apetrechos e equipamentos que ajudam a puxar pelo ginasta que há dentro de cada ser humano, sempre tão dado ao experimentalismo físico. Este em particular, fez-nos lembrar uma estação de autocarros do tempo da U.S.R.R., uma colheita que deu tão bons atletas.
Edição 6

Funcheira

Por vezes, é aqui que tudo começa. Ou que acaba. Uma linha. Chegamos ou partimos. A Funcheira já foi uma aldeia mais vivida, agora, entristecida, é apenas um apeadeiro para esta costa de mar onde nos encontramos. Não há um café, não há vivalma, apesar de passarem por esta estação mais de cem pessoas diariamente. Daqui, a capital fica a menos de duas horas e o sul também a pouca distância, a uma cochilar de carruagem. Podia estar mais acessível, a linha, mas não, está ali onde tem de estar, para corrermos até ela.
Edição 5

BARRAGEM DE SANTA CLARA

Catalogada como uma das maiores albufeiras da Europa, com fundos de xistos e rochas vulcânicas, esta barragem torneia o rio Mira e fornece a água e a electricidade que chega a nossas casas. Lugar calmo onde se está em paz com a natureza e na sustentável governação dos achigãs. Ideal para pernoitar junto ao marco erigido com a assinatura de Salazar. Se é dado a cinematografias, para distracção durante alguma insónia, aproveite a intemporal Pousada (de onde foi captada a imagem) para uma sequela do Thriller de Michael Jackson.
Edição 4

Estradas Secundárias

Escolha o caminho errado, não leve aparelhos de navegação e surpreenda-se por essas estradas mal sinalizadas e com o alcatrão a saltar. De noite, o luar e a Estrela Polar ajudam. De dia, já sabe, o Sol nasce no Japão e cai no Poente. Pode ainda usar um mapa esquecido no porta-luvas, provavelmente dos anos 80. Apesar de as distâncias alongarem - não se preocupe, é saudável - tenha a certeza de que há sempre um destino à sua espera. É isso o que importa.
Edição 3

Praia dos Alteirinhos

Há dois anos a areia desta praia fugiu com os ventos e as tempestades marítimas que assolaram o litoral alentejano no inverno rigoroso. Mas esta época volta a fazer as delícias dos vereneantes que passam pela Zambujeira do Mar, como lugar de culto para as maravilhas do mar. A certeza é que este é sempre um lugar magnífico em qualquer altura do ano, com ou sem areal, de prefer~encia com o número de pessoas que mostra a imagem.
Edição 2

Senhora das Neves

Perto de Colos foi erguida uma ermida. COnta a lenda que as pedras para a sua construção foram levadas pelo vento até ao cimo do morro, de onde se v~e um grande manto branco sempre que amanhece. Quando o nevoeiro levanta consegue vislumbrar-se o mundo inteiro. Diz o povo que este lugar tem mão divina. Mas o que sabemos é que é de perder o fôlego. Aconselhamos a levar um farnel.
Edição 1

Ribeira do Torgal

Onde a água corre sempre fresca e a Natureza vive no seu estado mais em bruto, deixada a fluir sem a intervenção humana. Deixe-se envolver pelo chilrear dos pássaros e pela folhagem que entrecorta a luz do sol. Enquanto não chega o tráfego do pico do verão, vá até ao Pego das Pias e dê um mergulho. Respire fundo e vá sempre a pé.