Edição 26

Alcunhas

No dia 7 deste mês Francisco Ramos deixou-nos. Com uma intensa atividade académica, ligada à Universidade de Évora, Francisco Ramos acaba por ficar mais conhecido pelo famoso “Tratado das Alcunhas Alentejanas”. É raro um livro com estas características de dicionário se revelar uma obra tão divertida. Pessoalmente, fui lendo as suas seiscentas páginas assim como quem pega num romance. Todavia, a obra de Francisco Ramos não se esgotou neste “Tratado”. Entre a restante bibliografia são de destacar “Vinho do Alentejo; temas culturais” (um conjunto de textos antropológicos sobre o tema) e “De Monsaraz a Melbourne, reflexões antropológicas” (interessante coletânea de publicações dispersas). Há alguns anos, Francisco Ramos passou por São Teotónio, numa tertúlia literária organizada pelo Clube dos Poetas Vivos. Foi um momento inesquecível e uma forma de sobreviver na nossa memória através da obra.

Hadji Murat

Nos últimos anos do século XIX, Tolstoy escreveu “Hadji Murat”, uma espécie de biografia de um líder checheno. Hadji Murat era muçulmano e combatia os russos. Depois mudou-se para o lado do inimigo, constituindo-se como um traidor. Ainda tentou regressar aos seus antigos companheiros de armas mas acabou morto. Ora a história de um líder checheno, de religião muçulmana, a que hoje chamaríamos “terrorista”, é uma história perfeitamente atual. Quando a lerem perceberão que essa atualidade vai muito além da coincidência histórica. Perceberão igualmente o génio de Leo Tolstoy, um dos maiores escritores de sempre. Aconselhado para quem quer ler clássicos deste autor mas receia apeitar-se a um calhamaço como a “Guerra e Paz” ou “Ana Karenina”. É que Hadji Murat tem pouco mais de cem páginas.

&Tal

Aldeias do concelho de Odemira em concursos nacionais de grande audiência; passagem espalhafatosa de um canal televisivo pela FACECO; tradicionais reportagens do Festival do Sudoeste. Definitivamente, Odemira anda muito mediatizada. Ora embora reconheça que essa mediatização é um fator positivo para a promoção turística, convém que nos recordemos que ela não é um fim em si mesmo. Tem até algumas características de “circo” e, por vezes, parece que responsáveis – mas também largos sectores da população – a julgam como o suprassumo, o corolário, o melhor que se pode fazer ao concelho. E não é. Essa mediatização são os anéis da mão. Os dedos são o emprego, o bem-estar, a qualidade de vida, o ambiente, a educação.
Edição 25

Prémio Camões

Foi este ano atribuído a Manuel Alegre. Pessoalmente, e embora se sublinhem sempre as suas capacidades poéticas, gosto imenso da prosa de Manuel Alegre. Uma prosa de poeta, nota-se claramente; porém uma prosa límpida e humanista em livros que se lêem avidamente (fiquem tranquilos que não apanham seca), sempre com uma linha de beleza no horizonte. Cada um terá as suas obras prediletas. Por mim, gosto particularmente de “Alma”, talvez pela pureza das memórias de infância do autor. Foi um livro que me ajudou a compreender Portugal e os Homens.

“Love is on the air”

Na última Feira do Livro de Lisboa ficou a saber-se que a “A das Artes” ganhou mais um prémio. O Prémio para a “Livraria com Melhor Atendimento” (é o terceiro ano consecutivo que vence este galardão). Em 2015 e 2016 tinha-lhe juntado o prémio da “Melhor Livraria do País” (em 2017 ficou em segundo, perdendo para a Bucholz, de Lisboa). As razões de tantos prémios para uma livraria situada na costa alentejana, em Sines, longe dos grandes centros urbanos, poderão ser difíceis de encontrar. Na verdade o espaço não é grande, nem se assume por uma particular beleza arquitetónica; a decoração e as montras não deixam ninguém estupefacto; não é um local conhecido pelas suas preciosidades à laia de alfarrabista (embora seja verdade que lá encontramos muitos livros que não há nas grandes – em tamanho – livrarias). Todavia, ao entrar-se na “A das Artes” sente-se no ar o amor pelos livros e pela literatura. E é assim este amor: simples e verdadeiro.

&Tal

Existem cerca de 110 000 palavras de língua portuguesa. Ao que parece, o português médio não usa mais de mil, e este número parece estar a descer. Resultam daqui deficiências de comunicação, incompreensões, mal-entendidos. Resulta daqui, inevitavelmente, um deficiente conhecimento do mundo e uma grande dificuldade em agir sobre ele. Embora não tenha elementos, julgo que os apresentadores de tv, estrelas do nosso país, não usem muito mais vocábulos que o português médio, pelo que em nada contribuem para alterar este panorama. Desconfio que a maioria dos políticos também não o faz, e isso daria uma grande reflexão. A escola simplifica-se, o facilitismo vai-se impondo e evita-se o uso de palavras que os meninos possam não conhecer. Não vejo senão os livros para mudar esta situação.
Edição 24

Verão

Um amigo que entrou agora de férias perguntou-me que livro deveria levar para a praia. E eu questionei-me se há uma “literatura de praia”. Talvez haja. Pessoalmente gosto de ler na praia qualquer tipo de livro (que seja bom preferencialmente, mas não podemos ler apenas obras-primas, isso é certo). Respondi-lhe o que me veio à ideia de imediato: “As Avós e outras histórias”, de Doris Lessing. Talvez porque a primeira novela que compõe este livro (e que lhe dá o título) tenha uma praia por cenário. “Foi um bom conselho”, fiquei a pensar, meio invejoso, enquanto o meu amigo partia feliz para a praia. (é que não podemos ler apenas obras-primas mas convém lê-las, isso ainda é mais certo).

Almeida Faria

O nome talvez seja desconhecido de muitos. Não surge nos escaparates, não será um best-seller. Todavia foi um dos escritores que mais influenciou a literatura portuguesa dos últimos 50 anos (diria que esta minha afirmação é quase um instinto). E começou a sua carreira com 19 anos (sim, é possível escrever belas obras com 19 anos, é coisa que me parece tão genial e que não consigo explicar) num livro polémico: “Rumor Branco”, na altura muito criticado. Foi Virgílio Ferreira que saiu em sua defesa. Quem quiser conhecer a literatura portuguesa do século passado tem mesmo de o ler. Nos últimos tempos a “Assírio & Alvim” tem reeditado a obra deste escritor alentejano.

&Tal

Sempre ouvi dizer que Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band era o melhor álbum de Rock de sempre (opinião muito discutível, é certo). Cresci a ouvi-lo repetidamente e gosto muito do disco em que os Beatles deixam de ser, definitivamente, uma espécie de Boy’s Band meio queque, para se transformarem na vanguarda do seu tempo. O disco faz agora 50 anos, em junho de 2017 (o que quererá dizer que vou deixando de ser novo), e a sua audição não surge datada (pelo menos é assim que o sinto). Reouço-o, deleito-me: a música guia-me, emociona-me, as palavras inquietam-me e fico a pensar na vida, na amizade, no amor e na solidão, nos hippies que não morrem. Pensem e ouçam-no também.
Edição 23

“Refugiados”

“Refugiados” é uma recolha de entrevistas realizadas por Luís Henrique Oliveira a homens e mulheres que, nos últimos anos, partiram de zonas afetadas pela guerra e arriscaram a vida em botes de borracha para chegarem à Europa. O autor viajou para o sul de Itália e escreveu este livro que nos ajuda a compreender o outro e a perceber que o outro é feito da mesma matéria que nós. Livro tão mais importante neste tempo em que se odeia o que tem outra religião, nacionalidade e até clube de futebol. Um ódio que vai até ao desejo, e consecução, da morte do outro, como se vê nas claques da bola.

Claques

O problema das claques não é novo. Do passado recente há histórias de movimentos neonazis a elas ligados, de tráficos de armas e de drogas. Sempre me impressionou o que os homens são capazes de fazer juntos, numa espécie de histeria coletiva, acéfala, impregnada de violência dirigida ao que não é dos “nossos”. Há um livro – um grande livro – em que é descrita a passagem de uma claque por uma estação de serviço e a consequente destruição desta. Trata-se de uma descrição algo surrealista em que os hooligans se vão transformando em animais. A obra é mais que recomendável e a maior parte da ação tem lugar no Alentejo. Chama-se “Fantasia para dois coronéis e uma piscina”, o autor é Mário de Carvalho.

&Tal

O “futebol” já não é apenas um desporto. Dão-lhe o título pomposo e modernaço de “indústria do futebol”. Parece que, por ser “indústria” e os clubes “marcas”, se aceita com mais leviandade os resultados comprados e a concorrência selvagem. Eu gosto de futebol e sofro intensamente nos jogos do meu clube. Contudo, custa-me a perceber os custos do policiamento de claques e segurança que suporto através dos meus impostos, as horas a fio de tempo de antena que lhe é prestado. E dói-me a falta de honestidade e de verdade. A televisão está cheia de doutores encartados que veem o mesmo lance de maneira totalmente diferente, sempre no sentido de dar razão à sua equipa. Não há verdade nem objetividade. E estas discussões, sabemo-lo, têm enorme impacto em toda a sociedade, com as consequências que daí advêm. E eu que em criança aprendi o caráter formativo do Desporto.
Edição 22

E nada mais havendo a acrescentar”

assim se chamam as crónicas que Vítor Encarnação, à quinta-feira, publica no Diário do Alentejo. Crónicas essas que têm uma mais que merecida legião de fãs. Conheço quem assine o jornal só pelas crónicas, conheço quem o compre apenas nesse dia da semana. Como já acompanhei o Vítor em algumas tertúlias e encontros literários, pude testemunhar a devoção dos seus admiradores. Devo-me confessar, pois também eu estou entre os seus mais devotos admiradores. Vem isto a propósito do lançamento, em Abril, do segundo volume destas “Crónicas”. A não perder.

Cartas Portuguesas

ou melhor, “Les Lettres portugaises”, assim se chamava o livro editado em 1669 e que consistia nas cartas escritas por soror Mariana Alcoforado, freira do convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja, ao seu apaixonado, um tenente francês. Cartas de amor de extrema beleza que encantaram a sociedade da época pela sua intensidade. Cartas de tão grande qualidade que levaram muitos autores franceses a afirmar que não poderiam ter sido escritas por uma mulher, numa polémica que se arrastou até aos dias de hoje. Séculos mais tarde as “três marias” (Maria Teresa Horta, Maris Isabel Barreno e Maria Velho da Costa) editariam “Novas Cartas Portuguesas”.

& Tal

As “Novas cartas portuguesas” traziam consigo a denúncia da discriminação e a afirmação da sexualidade feminina. O problema é que foram editadas em 1972, o que levou à censura do livro e à perseguição das “três marias”. O processo decorreria em tribunal, os textos acusados de “pornografia”, e a situação apenas se resolveria com o 25 de Abril. É pertinente, pois, que se volte a falar deste assunto, das “Cartas…” e das “Novas Cartas…”, por tudo o que ele tem de ensinamento e evocação (é Abril, caramba! E soror também nasceu em Abril): um texto que era demasiado belo para poder ser escrito por uma mulher, mulheres que se aventuraram a falar do seu corpo, processos contra a igualdade de género. Neste 2017 em que deputados europeus defendem que as mulheres devem ganhar menos, em que um presidente do Eurogrupo faz afirmações sobre países que gastam tudo em “álcool e mulheres”, tratando estas como um subgrupo, e tanto mais…
Edição 21

Burros

Março é o mês dos burros, diz-se. Ao que parece porque é o mês indicado para a tosquia desses bichos. Ora calha mesmo bem ler “O burro-em-pé” de José Cardoso Pires. São cinco deliciosos contos de um dos melhores escritores portugueses. O meu preferido é “Dinossauro excelentíssimo”, uma fábula sobre um reino “onde vivia um imperador astuto, diabo e ladrão (…) de quem não se sabe se afinal ele era homem, se era estátua ou apenas descrição". Uma metáfora do salazarismo, pois claro. Há uma versão deste livro à venda que tem ilustrações de Júlio Pomar. Leiam que vão gostar.

Adeus Europa

É o subtítulo de um filme sobre a vida de Stefan Zweig que estreou recentemente. Ainda não o vi. Porém, serve-me o propósito para chamar à atenção para este escritor, um dos maiores do século XX. Zweig era já um autor aclamado quando Hitler chegou ao poder. Temendo por si – era austríaco e judeu –, emigrou para Inglaterra antes que o ditador alemão anexasse a Áustria. Quando a 2ª Guerra Mundial eclodiu, nova emigração, desta vez para o Brasil. Contudo, não conseguiu fugir da depressão que os horrores da guerra lhe causaram e acabaria por cometer suicídio, desiludido com a espécie humana. De entre a sua vasta obra, os livros mais conhecidos serão “Amok” ou “24 horas na vida de uma mulher”. Permitam-me, contudo, que indique “Coração Impaciente”, uma história perturbadora sobre o amor e as expectativas. Estou certo que ficarão presos à obra e ao autor.

& Tal

Não tenho dúvidas que precisamos de mudar de vida para criar um planeta sustentável. Percebo que vivemos num mundo que enfrenta graves problemas decorrentes da poluição, falta de recursos e alterações climáticas (bem sei que é diferente do mundo de Donald Trump). Por isso me preocupam sobremaneira dois assuntos da ordem do dia que acontecem aqui mesmo ao pé de nós: a exploração petrolífera na nossa costa, economicamente absurda, e a construção de um armazém de resíduos nucleares em Almaraz, ali juntinho da fronteira e do nosso Tejo. Apelo para os nossos deveres de cidadania. Temos de fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar estes dois processos. É que é mesmo como se diz: basta o silêncio dos bons para que o mal triunfe.
Edição 20

JOAQUIM MESTRE

Prémio Literário ASSESTA/ Joaquim Mestre foi apresentado no passado 28 de janeiro em Évora. No valor de 3.000 euros mais apoio à edição do livro, será um dos mais apetecidos prémio literários nacionais. Um grande momento da ASSESTA (Associação de escritores do Alentejo), em conjunto com a Direção Regional de Cultura do Alentejo, e uma mais do que justa homenagem a um dos escritores mais notáveis do Alentejo e do país. Na verdade, Joaquim Mestre merece um reconhecimento muito maior do que o que já tem. Esperemos que o prémio contribua para tal. E que os nossos leitores também o leiam. Verão que não custa nada e que irão gostar.

FEVEREIRO

É o mês de António Aleixo, a que chamaram “poeta do povo”. Homem semi-analfabeto foi trolha, polícia, tecelão, emigrante em França nos anos trinta, cauteleiro, vendedor ambulante de gravatas. Humilde, muito humilde, e doente, nunca abdicou de exercer a sua cidadania com os seus versos; nunca calou as suas opiniões, sempre tão acutilantes. Morreu em 1949 com uma tuberculose. E estão tão atuais as suas quadras…
“Forçam-me mesmo velhote,
de vez em quando a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.”

& TAL

Li a notícia que os oito homens mais ricos do mundo têm a riqueza equivalente a 3,6 biliões de pessoas. Ou seja: oito homens apenas têm tanta riqueza como a metade mais pobre do planeta; oito homens apenas têm tanta riqueza como o equivalente à população de 360 “portugais”. É impressionante. É medonho. É profundamente desumano; chocante. Fico revoltado, sinto náuseas. Vergonha e revolta. E lembra-me outra quadra do Aleixo, nem sei porquê:
“Tu, que vives na grandeza,
Se calçasses e vestisses,
Daquilo que produzisses,
Andavas nu, com certeza.”
Edição 19

2017 (1)

Ele está aí, o novo ano. E é centenário da Revolução Russa, facto que viria a marcar toda a história do século XX. Não, não vou falar aqui, em tão pouco espaço, da Revolução Bolchevique. Vou apenas mencionar um livro que a tem como cenário mas que não é dela que trata diretamente. O livro é “Dr. Jivago”, o autor Boris Pasternak. Um romance de amor de enorme intensidade, uma daquelas obras porque vale a pena estar vivo só para a apreciar. Quem ficar assustado com as mais de quinhentas páginas do livro pode sempre ver o filme (são menos de três horas e meia), também ele um clássico. Estou certo que não se arrependerá.

2017 (2)

Por cá será centenário das aparições. Há um livro absolutamente fantástico de José Rodrigues Miguéis que lhes faz óbvia referência. Trata-se de “O milagre segundo Salomé”. Salomé é uma prostituta de Lisboa que, toda vestida de branco, é vista por pastorinhos que a confundem com a virgem. O engano dará oportunidade a alguém para enriquecer com o logro. Em lado nenhum se diz que é 1917, em lado nenhum se refere a Cova da Iria. Foi tão polémico que não pode ser editado quando foi escrito, em 1970, tendo de esperar pela Revolução dos Cravos. É tão polémico que está esgotado à espera de reedição. Pode ser que surja este ano.

Escolas

Saiu o ranking das escolas. A melhor escola pública do 3º ciclo (tendo em conta os resultados dos exames) está em Beja. É uma excelente notícia: no interior, apesar de todas os constrangimentos, conseguem-se obter resultados de excelência. Beja, a nossa capital de distrito, era há alguns anos uma espécie de parente pobre das capitais de distrito: “aquilo não tem vida nenhuma, não é nadinha”, ouvia-se dizer; os seus habitantes eram os mais ridículos das anedotas de alentejanos. Hoje tem a melhor escola pública do 3º ciclo, talvez a biblioteca mais ativa do país, músicos que conquistam o mundo como António Zambujo. Atrevo-me a dizer que o sucesso de Beja está claramente dependente do olhar que teve para a Arte e a Cultura. Era bom que o país olhasse para Beja.
Edição 18

SÃO TEOTÓNIO ANTIGAMENTE

Assim se chama o livro de Soares Fernandes, mais conhecido por Zé Viana. Um livro que parte das suas próprias recordações, às quais junta o seu espírito de investigador, e em que sistematiza toda a informação possível em relação a São Teotónio, deixando, claramente, transparecer o amor que tem à sua terra. Um livro que os mais velhos lerão com saudade e que fica para memória futura. Tantas obras destas, monográficas, têm servido de base não só ao trabalho dos historiadores, como também à investigação dos ficcionistas que aqui bebem os ambientes, o anedótico; que sobre estes livros traçam as suas personagens e buscam inspiração para as suas histórias.

MAR DE CORAL

Ainda com os ecos da discussão em torno do mais recente Nobel da literatura - em que muitos afirmam que deveria ter sido entregue a um escritor -, permitam-me a publicidade a um livro de uma escritora que a maioria conhecerá pela via da música. Trata-se de “Mar de Coral”, de Patti Smith. Um excelente livro de poesia (sobretudo) com uma boa tradução. Curiosamente, Patti Smith comemora o seu aniversário em dezembro, que também é o mês do Natal (para bom entendedor…). Chico Buarque, famosíssimo compositor e cantor brasileiro, tem escrito dos mais belos livros de ficção em literatura portuguesa dos últimos anos. Não faz anos em dezembro, mas o Natal é quando um Homem quiser.

& TAL

Conheci-a em 1993 e fiquei desde logo impressionado com a sua arquitetura. Tenho-me lá deslocado nos últimos anos e continuo impressionado, não só com a sua arquitetura, mas sobretudo com o seu dinamismo. Recentemente, a Biblioteca Municipal de Beja foi o palco do I Encontro Ibérico de leitores de Saramago, que decorreu entre 18 e 20 de novembro. Um sucesso, mais um, sempre ao serviço da cultura. Uma biblioteca que tanto tem feito pelos livros e pela literacia em Beja e no Alentejo. Alguém notou neste encontro que será, provavelmente, a única biblioteca do país aberta à noite. E quase sempre cheia de gente. Há que aprender com os melhores.
Edição 17

TEATRO SOCIAL

Cristina Chafirovitch é um grande mulher do teatro. É claro que esta é uma opinião suspeita de quem tanto tem aprendido com a sua mestre, mas é bom não nos esquecermos dos nossos professores e dos que nos enriquecem, o que é o caso. Cristina Chafirovitch é uma especialista em Teatro Social, muito dele posto em prática nas terras do concelho odemirense, onde lançou sementes que vão crescendo pela mão dos que com ela trabalharam e com quem ela partilhou generosamente o seu saber. Agora partilha-o na forma de livro, o que acaba por ser mais democrático e muito nos orgulha: “Teatro Social” é o nome da obra, edição Esfera do Caos.

NOBEL

A academia sueca surpreendeu ao atribuir o Nobel da Literatura a Bob Dylan. Desde logo se gerou uma grande discussão, pois Dylan não se enquadrava na imagem que se tem de um “escritor”, afirmando-se que ele era um autor de canções. A questão parece-me, todavia, estar inquinada. O que interessa é se Dylan tem ou não qualidade literária, enquanto poeta, para receber o prémio. Na minha opinião, e na de muita gente, tem. Na opinião de outros não terá. Mas esse será sempre um problema do Nobel, uma eterna discussão sobre o merecimento do galardão. Grandes escritores ficaram por o receber, outros tê-lo-ão recebido injustamente. Por mim, considero que o deste ano foi bem entregue.

& TAL

Escrevo estas linhas um dia depois de, apenas a cem metros da minha casa, ter ocorrido uma cena de esfaqueamento muito feia. As vítimas são dois emigrantes asiáticos. O suspeito, pelo que parece, também. Ouvi logo comentários racistas a propósito do sucedido “pois… esta malta e os seus hábitos”. Comentadores esquecidos de um criminoso de Aguiar da Beira, ou dum Manuel Palito, que não serão a melhor prova dos brandos costumes e pacifismo português. De qualquer modo, estamos por aqui a criar condições que proporcionam um certo de crime tipicamente suburbano: imigrantes amontoados, não propriamente bem remunerados, comunidades tradicionalmente conflituosas entre si, elevadíssimo número de homens em relação ao de mulheres. Já o disse antes: não vale a pena ignorarmos os factos, há que enfrentá-los e tomar decisões.
Edição 16

Sudoeste

É este o nome da obra da escritora alentejana Olinda P. Gil que será agora editada em versão papel. O título não engana: as três histórias contidas no livro – três histórias escritas claramente no feminino -, têm um cenário que nos é familiar. “Sudoeste” foi apresentado em 2015 pela Porto Editora exclusivamente em formato ebook. Na altura houve algum aparato com estas edições digitais, pois a Porto Editora queria mostrar-se inovadora e com os olhos no futuro. Ora agora entendeu que a qualidade da obra merecia um maior destaque, uma vez que as edições digitais continuam com grande dificuldade em vingar, disponibilizando o livro em papel.

Nobel

Aproxima-se outubro e faz-se sentir algum frenesi em torno do anúncio do Nobel da literatura. Aposta-se em vencedores, lamenta-se antecipadamente as ausências, deseja-se que a nomeação não seja norteada por critérios políticos, como ficou a suspeita do ano passado. Entre a comunidade lusófona agita-se a possibilidade da poetisa brasileira Lygia Fagundes Telles. A ver vamos. Entretanto, a Academia Sueca dá a conhecer os candidatos derrotados a Nobel. Não os mais recentes: por uma questão de pudor recua-se 50 anos, portanto até 1965. Assim ficamos a saber que, antes de Saramago, houve pelo menos quatro candidatos portugueses: Júlio Dantas, Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro e Miguel Torga. Boa ocasião para os ler. É que se não foram Nobel, podiam-no ter sido.

& Tal

Assinale-se um filme e um teatro fora de portas e que têm, inevitavelmente, que ver com livros. O filme é a adaptação cinematográfica de “D'este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra”, um livro de António Lobo Antunes (chamasse-me eu Academia Sueca e dava-lhe o Nobel). O tema ainda é meio tabu na sociedade portuguesa que nunca olhou verdadeiramente para a Guerra Colonial. Esta será mais uma oportunidade.
O Teatro é “O ano da Morte de Ricardo Reis”, baseado na obra homónima do Nobel José Saramago. Um livro fantástico que merece uma leitura (ou releitura), pois descreve o ano de 1936, com tantas semelhanças aos nossos tempos. A apresentação é n’ “A Barraca” e o elenco conta, no papel de Lídia, com a “nossa” odemirense Sónia Barradas, motivo suplementar para não falharmos a ida ao teatro.
Edição 15

Gregos

Nikos Kazantzákis é um dos grandes escritores do século XX. Muitos conhecê-lo-ão através do cinema, pois os seus livros “A última tentação de Cristo” e, sobretudo, o famoso “Zorba”, foram adaptados para a sétima arte e transformaram-se em sucessos de bilheteira. Ora acontece que o único livro de Kazantzákis atualmente editado em Portugal, “O Cristo Recrucificado”, ganhou uma atualidade inesperada. Uma aldeia grega começa a receber, perto da Páscoa, milhares de refugiados que fugiam à ocupação turca. Acontece que nessa aldeia se estava a encenar a Paixão de Cristo. A esmagadora maioria dos aldeãos recebe mal os refugiados e tenta rechaçá-los. O único que os defende, inesperadamente, é o “ator” que representa Cristo. Viver-se-á como que uma repetição da História. Um enredo apaixonante, e inquietante, em torno dos valores do cristianismo.

Turcos

A Turquia está aí nas notícias (e temo que por muito tempo). Li alguns livros sobre este país, desde a revolução de Ataturk até aos dias de hoje. Estudei-a no âmbito académico. Vi documentários e visitei-a. No entanto, nada me deu a conhecer melhor a sua complexidade que a obra de Orhan Pamuk, em particular “Neve”: o problema do fanatismo religioso, a negação da história passada, a difícil relação entre as elites e o aparelho militar, tudo narrado num profundo humanismo. É para isto mesmo que serve a literatura: dar-nos a conhecer os homens e as sociedades; deixar-nos diferentes – mais ricos -, após a sua leitura.

& Tal

Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura: 1761 em Portugal Continental; 1869 em todo o Império Português de então. Vem isto a propósito de haver elementos que indicam um aumento do tráfico de seres humanos no espaço da União Europeia. A maioria das vítimas são do sexo feminino, enquadrando-se dentro da “escravatura sexual”. Todavia, há um número a subir (na Europa e em Portugal): são os escravos masculinos ligados ao trabalho agrícola. Quer de escravos portugueses lá fora, quer de escravos estrangeiros em Portugal. Seria bom que não fossem dados passos atrás no nosso pioneirismo em direitos humanos. E seria revoltante que tal existisse na zona onde habitamos. Estejamos atentos.
Edição 14

Rufia

“As viúvas de Dom Rufia”, assim se chama o novo romance de Carlos Campaniço, um dos escritores alentejanos da atualidade com maior sucesso. O enredo é conhecido, explorado já por cineastas e escritores (sobretudo ibero-americanos) de menor e maior sucesso: um homem com várias mulheres, cada qual no seu sítio. Campaniço traz o tema para o Baixo Alentejo durante a Primeira República, época dada a devaneios. A linguagem é encantadora, as descrições, deliciosas, casam tão bem com Alentejo e o ser alentejano! Que bom livro para ler, também, na praia.

Poetas

“Vamos comprar um poeta” é o novíssimo de Afonso Cruz. Uma menina convence a família a ir à loja comprar um poeta (sempre é melhor do que os pintores, sobretudo os escultores, que sujam tudo). Assim é feito: a família adquire um poeta. O poeta apenas ficará transitoriamente com a família – uma crise levará a que tenham de se desfazer dele, abandonando-o num parque - porém, a sua influência far-se-á sentir para sempre. Um pequeno grande livro (pouco mais de cem páginas), fortemente inspirador (quando o acabei dei por mim a pensar que todos temos um poeta dentro de nós, mas a maioria envergonha-se do dito, ou finge não dar por ele). Duvido que haja alguém que não goste deste “Vamos comprar um poeta”. Um livro para todos.

& Tal

Charcos - Que belo trabalho da Liga da Proteção da Natureza em prole dos charcos temporários na nossa zona. Eu próprio desconhecia a sua existência e o manancial de vida que albergam. Defendê-los é urgente. Urgente e difícil neste momento em que apareceu a febre das estufas. A LPN, através do projeto “lifecharcos”, tem tentado sensibilizar os mais jovens. Talvez através deles se consiga chegar aos pais, além de que é das nossas crianças o mundo do futuro, convém que não o esqueçamos quando agredimos o ambiente e o mundo que vai deixando de ser o nosso. Uma luta complicadíssima, espécie de David contra Golias para usar uma imagem sobejamente conhecida. É que do lado do Golias está o dinheiro e o dinheiro parece, nos dias que correm, que tem sempre a razão. Terá?
Edição 13

O mestre

Dizia Fernando Pessoa que Alberto Caeiro, um dos seus heterónimos, era “O mestre”. Curioso que “O mestre” tinha apenas a instrução primária. A maioria dos meus amigos mais literatos e pessoanos comungam desta admiração por Alberto Caeiro (eu deixo-me levar mais por Álvaro de Campos, um engenheiro modernaço). Isto a propósito de uma obra monumental editada pela Tinta-da-china (editora que publica sempre livros belos, mais que não seja pelo invólucro). Chama-se “Obra completa de Alberto Caeiro”, coisa para umas quatrocentas e tal páginas, e que tem mais do que a obra, poética e em prosa, do Mestre. Coisa fantástica, pela qual vale a pena perder a cabeça.

O amigo do Pessoa

Quando era jovem, recordo de ouvir muita gente dizer que preferia Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa. É discutível e pessoal, claro está. Mário de Sá-Carneiro foi amigo e poeta de Orpheu com Pessoa. Suicidou-se num hotel de Paris quando já ia nos vinte e seis anos. Ora tal aconteceu em 1916, é agora o centenário. E é por isso que Mário de Sá-Carneiro tem aparecido timidamente referenciado por estes dias, depois de ter andado apagado da memória coletiva. Vale bem a pena conhecer a sua obra. Aconselha-se vivamente, que um povo é também (e muito) os seus poetas. (Quem o quiser pode ouvir uns poemas no youtube, há por lá umas relíquias ditas pelo grande Mário Viegas.).

& Tal

Aproveito este espaço para lembrar, ou informar, que está a discussão pública a intenção do consórcio Eni /Galp iniciar uma sondagem de petróleo a 46,5 Km de Aljezur. É assunto da máxima importância, para todos nós e para os nossos filhos. O Mercúrio, aliás, já o alertou. Participem como quiserem na discussão, defendendo o que considerarem certo. Mas seria importante que se discutisse, que tomassem posições, que isto não fosse coisa sobre a qual recaísse o silêncio e a decisão só dos outros. Somos cidadãos, caramba! E não pensem os mais distraídos que, lá por se dizer que é a 46 Km de Aljezur, é coisa que só prejudica os algarvios….
Edição 12

Primavera

Gosto desta alegria primaveril. Exulto quando regressam as andorinhas a dizer que o Inverno vai chegando ao fim. E depois vem Abril, mês de volúpia e esplendor, a seguir Maio com as suas flores. Gosto também da Primavera porque ela traz novos livros. As editoras passam uma espécie de hibernação e renascem nestes meses, adivinhado a apoteose da Feira do Livro de Lisboa. Este ano estou expectante com duas novidades: “Letra Aberta” e “O amor em Lobito Bay”. O primeiro é obra póstuma de Herberto Helder, esse poeta maior que contrariou a sede mediática dos escritores de agora; o segundo é o regresso da grande escritora portuguesa Lídia Jorge, depois de “Os memoráveis”, lançado em 2014 e sucessivamente reeditado.

Tolerância

Há algum tempo participei numa discussão em que se referia que os escritores são, por norma, tolerantes. A razão parece-me simples: os escritores (penso nos autores de ficção) têm de se pôr no lugar do outro, compreendendo-o. Infelizmente o mundo não parece estar para grandes tolerâncias e somos surpreendidos por toda a espécie de preconceitos, não se olhando para o próximo como ser humano, mas apenas como figura de televisão que desaparece se carregarmos no off. E também os escritores não parecem ser objeto de grande tolerância. Abundam os exemplos; de Frederico Garcia Lorca, que morreu fuzilado pelas tropas de Franco; Salman Rushdie, com uma condenação à morte proclamada (ainda não cumprida) pelo governo iraniano; Reynaldo Arenas, perseguido em Cuba e que acabou suicidando-se; e tantos outros.

& Tal

Anda-se a falar da prospeção de petróleo na nossa zona e vai daí lembrei-me de Ken Saro-Wiwa. Tão esquecido que foi este escritor! Ken Saro-Wiwa era um nigeriano que lutou contra a degradação ambiental causada pelas petrolíferas no delta do Níger. Acabou preso e, muito rapidamente, condenado à morte por enforcamento. A Shell, com o peso na consciência, acabou por resolver a situação à boa maneira ricaça de quem tudo pode: pagou 15,5 milhões de dólares às famílias de Saro-Wiwa e mais 15 dos condenados. Salvo as devidas diferenças, que nós somos, supostamente, uma democracia na bela Europa, é bom conhecer, nos tempos que correm, o poder do petróleo.
Edição 11

PAIXÃO

“Rios de Paixão”, assim se chama o último livro de Carmo Miranda Machado. Uma escrita fluida, descomplicada, que nos prende desde o início. Um livro que passa pelo mundo e onde se nota a influência da literatura sul-americana. Uma bela obra da escritora de Vale de Vargo, autora das célebres crónicas “Ruas do mundo” na Mais Alentejo.

ABRIL

“Abril em Odemira”. Desde há muitos anos que esta é festa rija que contribui para a coesão – difícil, diga-se – do concelho. Serão poucos, de entre os vinte e tal mil que somos, aqueles que não passam nesses dias por Odemira, além dos turistas que aqui vêm em romaria. E as festas duram todo um mês com diversas iniciativas. Se fosse eu o programador, a programação seria diferente. Se fosse a minha vizinha do lado, maior ainda seria a diferença. É que se em cada português há um treinador de bancada, em cada odemirense há um bom programador do “Abril em Odemira”. Eu cá gosto do programa. E uma coisa vos digo: não perderei o António Zambujo. E muitos de vós não perderão qualquer outra coisa. A não perder, nunca, é a festa de Abril!

& TAL

Tinha ainda oito anos quando aconteceu a famosa Revolução dos Cravos. E que melhor prenda se poderia ter dado à minha vida que Abril ter chegado quando era criança? Retive os abraços e os beijos, a felicidade e a esperança nos olhos do povo. Foi a minha primeira primavera. Foi a minha primavera. Vivi sempre na esperança de um dia poder ver Abril de novo. Momentos houve em que quase perdi essa esperança. Hoje recupero-a: ainda é possível um novo Abril, tenho de manter vivo. Há uns anos foi aprovado um novo acordo ortográfico. Não gosto dele, detesto a forma como o processo foi conduzido, acho que não corresponde à evolução da língua. Por razões profissionais acabei impelido a ter de o cumprir. Faço por o cumprir. Menos numa coisa: aceito escrever os nomes dos meses com minúscula. Mas Abril, não!
Edição 10

Eco

Em Outubro, a poucos dias de ser anunciado o Nobel da Literatura, escrevi aqui que gostaria de ver - finalmente - o nome de Umberto Eco entre os premiados. A Academia sueca não o quis, tendo atribuído o prémio, aparentemente, por critérios que também são políticos. Agora já não o poderá fazer, nem nós poderemos ler mais livros desse grande escritor italiano. Atrevo-me a pensar que este não-prémio desilustra mais a academia sueca do que Umberto Eco. Será sempre um grande escritor, um dos maiores escritores dos últimos tempos e não precisava do prémio para o ser (e quem precisa?). A Academia, porém, perdeu a oportunidade de se associar ao Eco.

Napoleão

Napoleão Mira lançou um CD. O primeiro CD deste escritor alentejano é editado quando Napoleão tem sessenta anos. Um início prometedor. Chama-se “12 canções faladas e um poema desesperado”. Um trabalho com forte componente poética (a maioria dos poemas são seus, mas também os há de Álvaro de Campos e Carolina Tendon, entre outros). Todavia não se espere apenas uns poemas falados com fundo musical. Nada disso. A música é central neste CD, e para tal basta referir alguns dos nomes que colaboram com Napoleão Mira: Reflect, Dino d’Santiago, Orelha Negra e Sam the Kid.

& Tal

Chama-se Henrique Raposo e escreveu um livro a falar mal do Alentejo e de suas gentes. Até aí tudo normal, não se pode querer que todos gostem da região e dos alentejanos. Espantosas, porém, são algumas das suas afirmações: “constata factos”, segundo as suas próprias palavras: “as alentejanas nem têm palavra para violação”, “o Alentejano vê o suicídio como um fenómeno natural, como o nevoeiro”, “o Alentejo é a terra da desconfiança”, “as pessoas não falam umas com as outras”, “têm uma cultura de fora-da-lei” e mais uns epítetos pouco simpáticos. Enfim, preconceitos e generalizações a partir da história dos seus pais e avós (a psicologia certamente explica isto); nada mais que um racismo primário e particularmente imbecil, o deste Raposo. O que custa é que lhe dão tempo de antena nas televisões, rodeado de intelectuais calados.
Edição 9

VERGÍLIO

Mal se dá pelo centenário de Vergílio Ferreira, um dos maiores escritores portugueses de sempre. Fala-se aqui e ali, timidamente. Parece que há vergonha de se dizer que este país não produz só bons futebolistas, que também é capaz de produzir grandes escritores. Curiosamente, algumas editoras parecem estar atentas ao Vergílio e aos novos tempos: a Quetzal lança “1000 frases de Vergílio Ferreira”. Muito a propósito, sempre se pode copiar uma ou duas para fazer figurão no facebook. É o tempo dos pensamentos profundos e curtos, aquele em que vivemos. Por mim, vou reler e deleitar-me com o “Para sempre”. Alguém me acompanha?

CARNAVAL & TAL

Diz-se que Natal é sempre que um homem quiser. Por mim, gosto de pensar que seria bom que Carnaval também fosse assim. Gosto do Carnaval e da brincadeira. E confesso que me custa a compreender aqueles que não gostam; aqueles que desconfiam da diversão. Eu cá gosto! E ainda por cima o Carnaval mostra bem a influência que a literatura tem sobre o mundo. Duvidam? Vejam então as máscaras à vossa volta. Ele há Zorros e Robins dos Bosques, Pinóquios, Princesas várias e bruxas dos livros; Ali Babás, Aladinos e génios; já vi Romeus e Julietas, Obélixes e toda a família gaulesa, bem como uma vasta coleção de gente saída dos livros de BD. Por mim, gostaria talvez de mascarar de Aureliano Buendía.

O POETA

Para mim fevereiro é mais do que Carnaval. Fevereiro é o mês de António Aleixo, que não deixo de evocar. Joaquim de Magalhães foi o homem que passou para o papel a quase totalidade da obra de Aleixo. Eu tive a sorte (vantagens da idade) de ter sido aluno de Joaquim de Magalhães. Ouvi-o falar do poeta e contar histórias de Aleixo. Por causa dessas histórias, Aleixo transformar-se-ia num herói da minha infância final. Acho que depois de astronauta quis ser poeta. Mais tarde, ao lê-lo, percebi que nunca poderia ser Aleixo e ainda hoje evito poetar. Façam-me um favor e mergulhem na sua obra. Não se arrependerão.
Edição 8

CENTENÁRIO

Em 1916 Portugal entrou na primeira guerra mundial. 2016 talvez seja uma boa oportunidade para evocar de forma mais sistemática esta guerra, que nos deixou profundas marcas: o elevado número de gaseados, o fim da primeira república que não suportou a crise originada pela guerra e que levou a um regime ditatorial – o mais longo regime ditatorial europeu. O grande livro sobre a primeira guerra foi escrito por um alemão, Erich Maria Remarque, e chama-se “A oeste nada de novo”. Um grande livro. Para quem sofre de bibliofobia (e houve tantos na história, alguns até fizeram fogueiras com os ditos) aconselham-se as versões em cinema. Há duas e bastante boas.

... & TAL

O Mercúrio mede a temperatura. A temperatura do nosso planeta – e o Deus Mercúrio era o Deus mensageiro dos romanos -, está claramente a aquecer. Não vale a pena fingir que talvez não seja assim, que tudo se resolverá, que isto é invenção de pessimistas ou de neohippies radicais: o planeta está a aquecer e as consequências são trágicas. Daí a importância dos “Acordos de Paris” no mês passado. A consciência da gravidade da situação chegou – finalmente! – aos governantes do planeta. Não há hipótese: temos de mudar de vida. Já nem se trata de deixar um mundo melhor para os nossos filhos, trata-se apenas de não lhes deixar um mundo muito pior.

PRESIDENTES ESCRITORES

Dia 24 de janeiro terão lugar as nossas eleições presidenciais. Portugal teve presidentes (como antes teve reis) escritores, que escreviam mais do que prefácios de roteiros. Eram outros os tempos, bem sei. De entre estes presidentes-escritores destacam-se Teófilo Braga, que exerceu o cargo interinamente após o 5 de outubro de 1910, e Manuel Teixeira-Gomes, presidente entre 1923 e 1925. A sua obra está atual, e é interessante pensar num presidente atual a escrever “novelas eróticas”, como o fez Manuel Teixeira Gomes. São mesmo outros os tempos, bem sei.
Edição 7

DICAS DA PRAXE

Pela aproximação ao Natal é suposto saírem umas dicas sobre livros para oferecer. Ora aqui nos “Livros & Tal” há recomendações desde o número dois do Mercúrio, pelo que será fácil para o leitor paciente procurar as ditas dicas nos números anteriores. Bem sei que julgarão indecente não as repetir e poupar-vos o trabalho, mas seduz-me a ideia de vos ver numa livraria, meio perdidos, a apalpar os livros, a deixarem-se levar por esta capa, aquela badana, uma memória que nasce de um título. Deixem-se levar. E por mim digo: as melhores prendas que tive foram livros. Recordo com exatidão quem me ofereceu os que mais me marcaram.

ACONSELHAMENTO DESPROPOSITADO

Ainda assim deixo-vos a menção do livro que mais gostei de ler neste ano, ao jeito de provocação. Não é coisa nova. Chama-se “Pantaleão e as visitadoras”, o autor é Mario Vargas Llosa. O argumento é desaconselhado a gente mais séria e que não gosta de brincadeiras: o exército peruano resolve montar um serviço de visitadoras para os seus soldados; o riso está garantido. Enfim, diria que é uma boa leitura de Verão e agora é Natal; que o livro fala do calor na selva e agora está um frio que se farta. Mas os livros levam a que verão seja quando um homem quiser.

... & TAL

Gosto do Natal comercial, confesso: as luzinhas, os filmezinhos a puxar a lágrima, doces em abundância. Dou por mim a cantarolar os meninos de Santo Amaro de Oeiras, feliz com o frio. Mas depois deixo-me embalar e fico imbuído do espírito natalício: quero estar com a família e os amigos, dar abraços, acreditar num mundo mais justo. Quanto às prendas, de que também gosto, deixem-me fazer eco de um pedido: ofereçam amor em primeiro lugar, claro; em relação às mais materiais, escolham o que com amor foi feito: a arte grande ou pequenina, o mel, o que sai da nossa terra. E ofereçam natal para todo o ano.
Edição 6

ALENTEJO

É o nome da primeira edição da ASSESTA (Associação de Escritores do Alentejo). Um livro que contém treze contos de outros tantos escritores desta recém criada associação. Entre os autores contam-se Carlos Campaniço, Joaninha Duarte ou Luís Miguel Ricardo. Merecem destaque nesta edição as ilustrações – os ilustradores são carinhosamente chamados “amigos da assesta” – de grande qualidade. Entre estes amigos estão ilustradores conhecidos como Danuta Wojciechowska ou Joaquim Rosa (que também é o autor da capa). A primeira apresentação desta obra ocorrerá já a 14 de novembro nos ELA.

ELA em 2015

São Teotónio será a capital alentejana dos livros nos dias 13 e 14 de novembro. Chegam os ELA (Encontros Literários do Alentejo) que tiveram a sua primeira edição no ano passado pela mão do projeto “Clube dos Poetas Vivos”. Este ano repete-se a dose: encontros com autores, apresentação de livros, oficinas. Permitam-me destacar uma estreia nacional: o grupo de teatro de marionetas “Era Uma Vez” apresentará a sua nova peça “Cada coisa é uma coisa”. Marionetas que se destinam a um público adulto, por isso apresentada na noite de sexta-feira, 13. Muita curiosidade nesta apresentação de um dos melhores grupos de bonecos do país.

... & Tal

Odemira tem uma escultura dedicada a um dos grandes dramas atuais: os milhares de refugiados que chegam à Europa fugindo dos horrores da guerra e de atrocidades a que não se assistia há muitos anos. A obra, de Gonçalo Condeixa e Thomas Wimmer, pretende, segundo os autores, não ser um memorial estático, para apenas se olhar. No dia 24 de outubro teve ali lugar uma pequena concentração, que juntou um número razoável de participantes, tendo em atenção a chuva que caiu todo o dia e impediu a performance que “Os pés descalços” tinham preparado. Não impediu, contudo, que fossem apresentados trabalhos de alunos da Escola Secundária, se escutasse música e que todos comungassem de reflexão e humanismo. A reflexão e o apelo ao humanismo, eis dois efeitos perigosos que a arte pode provocar.
Edição 5

Longevidade

Álvaro de Campos nasceu em Tavira a 15 de outubro de 1890. Foi engenheiro naval, viajou pelo Oriente, trabalhou em Londres. Quem o diz é Fernando Pessoa, pois Álvaro de Campos é um dos seus heterónimos. Sempre gostei particularmente de Álvaro de Campos, a ponto de sonhar que o encontro por aí (embora ele nunca queira falar comigo de poesia, o que me entristece). Ora Álvaro de Campos fará este mês a bela idade de cento e vinte e cinco anos. É imprescindível ler “Tabacaria” um dos mais belos poemas da língua portuguesa. É um pouco longo, bem sei. Poderão escutá-lo no youtube em várias versões, de Mário Viegas, Villarett ou numa um pouco mais sintética do escritor alentejano Napoleão Mira a meias com o seu filho, Sam The Kid.

NOBEL

Outubro é o mês em que se anuncia o vencedor do Prémio Nobel da Literatura. Todos os anos, por esta altura, há sururu e suspense sobre o desenlace de tal prémio. Não posso saber se no momento em que o leitor está a ler o “Livros & Tal” o vencedor já foi anunciado. Se não foi deve estar para breve. Ora um dos eternos candidatos é o italiano Umberto Eco, de que muitos conhecerão “O nome da Rosa”. Eco é um dos grandes escritores do século XX, com uma obra fantástica. Este ano foi publicado “número zero”, uma crítica mordaz ao jornalismo dos nossos dias. Poderá não ser Prémio Nobel 2015, mas lá que merecia, merecia. Sem desfazer o vencedor, pois claro.

NOBEL & Tal

Saramago é Nobel português, todos o sabem. Mas poucos referem que Aquilino Ribeiro também já foi candidato a esse prémio. Aconteceu em 1960. Consta que houve quem movesse mundos e fundos para impedir Aquilino de ganhar, e entre esses que o fizeram gente de referência no mundo das letras. A razão? Aquilino estaria implicado no regicídio de 1908. Aquilino não era homem que se calasse e que apenas escrevesse. Era incómodo, muito incómodo. Pena que a literatura portuguesa de hoje não tenha aquilinos. Apenas uma opinião, claro.
Edição 4

Baleias

Dias de Melo foi um dos grandes escritores portugueses do século XX. Escreveu, sobretudo, sobre os baleeiros da sua terra. São admiráveis as obras Mar pela Proa e Pedras Negras. Por isso, estando eu na Ilha do Pico, quis ir visitar a sua terra, Calheta de Nesquim. E lá procurei por alguma espécie de homenagem. Encontrei muito pouco: uma foto na casa dos botes, entre os baleeiros; uma designação: “acolá, naquela encosta, uma casa de pedra, era onde vivia”. Umas memórias, pouco mais, “talvez um dia se faça qualquer coisa que aparece aqui mais gente como o senhor, ele até parece que queria deixar o seu legado à freguesia”.

Escritores

Fui-me embora do Pico perguntando-me porque diabo são tão ignorados os nossos escritores. Por acaso, num canal noticioso dou com uma reportagem sobre José Rentes de Carvalho. Transmontano, vive na Holanda há mais de cinquenta anos. Os seus livros têm como cenário, maioritariamente, Portugal. Escreve em português, mas a primeira edição é, geralmente, em holandês. Aparece referenciado muitas vezes como um escritor holandês. Na Holanda vende em barda. É admirado. Por cá, finalmente, vão falando nele, mas de maneira tímida e meio envergonhada, a ver se ninguém dá por isso.
Os exemplos do desprezo luso pelos seus autores abundam desde o tempo de Camões, que viveu miseravelmente. No Alentejo temos um belo exemplo: Joaquim Mestre. Um verdadeiro mestre que a suposta elite literária, lá de cima da sua petulância, insiste em ignorar, ciosa dos mesmos que gaba, quantas vezes por compadrio. Quem o quiser conhecer e mergulhar no Alentejo rural terá de ler Breviário das almas, livro obrigatório.

& Tal

E depois fiquei depois a pensar que é setembro, e que em setembro se inicia mais um ano letivo. & Tal(vez) que a escola possa fazer qualquer coisa por isto. Contrariando a televisão, talvez possa dizer que os grandes heróis deste povo e deste mundo foram os cientistas, estadistas, homens corajosos, artistas e escritores que melhoraram as nossas vidas, desafiaram poderes e retrataram a grandeza e miséria humanas. Muito mais que as estrelas mediáticas e os heróis cor-de-rosa que bazofiam no quotidiano dos ecrãs. Apenas uma opinião.
Edição 3

Grécia

Fala-se da Grécia. A Grécia está na moda, quer se queira ou não (e desconfio que os gregos não o quereriam). Descansem que não vou evocar a Ilíada e a Odisseia, que dizem ser o princípio da literatura ocidental. É que na Nova Grécia ainda se escreve, claro. Há, aliás, dois prémios Nobel da literatura que são gregos (em ’63 e ’79), curiosamente ambos poetas. Em Portugal apenas consigo encontrar um deles. Chama-se Odysséas Elytis e o seu único livro traduzido tem por título “Louvada seja”. Um livro maior, arrebatador (e ficamos a pensar no que se perde na tradução de poesia e apetece-nos aprender grego só para o ler no original). Para admirar e melhor entender o espírito grego. Recomenda-se vivamente.

A Livraria

A APEL organizou um concurso online para que os leitores votassem na melhor livraria portuguesa. A vencedora está aqui perto de nós, em Sines, e chama-se “A das Artes”. Esta distinção deve-se, certamente, ao amor com que o livreiro Joaquim Gonçalves trata a literatura e os leitores. Um local a visitar, revisitar e encomendar livros. É que calcula-se a odisseia que o Joaquim tem vivido para manter aberto este espaço com a concorrência terrível das grandes superfícies.

& Tal

ASSESTA é o nome da recém-criada Associação de Escritores do Alentejo. Um belo nome, considera o autor destas linhas, altamente suspeito nesta consideração. É que junta duas atividades tão do seu agrado: a leitura e a sesta, esta última tão apetecível no verão e nas férias a que (ainda) vamos tendo direito. Talvez porque as duas – leitura e sesta - nos tragam os sonhos: a sesta quando dormimos, a leitura quando nos acorda. É que ele (o autor destas linhas) ainda não desistiu de sonhar. Como os leitores destas linhas, supõe o dito autor.
Edição 2

“Saudade”

Sobre ela escreveu Vítor Encarnação numa das suas crónicas no Diário do Alentejo. Essas mesmas crónicas estão agora reunidas no livro “Nada mais havendo a acrescentar”. No Festival de Mmastros de São Teotónio, o grupo “Atar e pôr ao fumeiro”, prestou homenagem a este texto durante a sua atuação (eu vi! eu vi!). Não admira, já que este grupo foi, involuntariamente, o inspirador de tão bela crónica, numa passagem do escritor por São Teotónio. Um livro a ler, de um dos melhores escritores alentejanos da atualidade.

Recomenda-se

O livro de microcontos “Ficou tanto por dizer”, de Fernando Guerreiro. Autor que também tem feito carreira como contador de histórias, este odemirense das Portas de Transval é um verdadeiro mestre na arte dos microcontos. Alguns carregados de sensibilidade poética, outros aproveitando o duplo sentido das palavras, outros ainda remexendo no âmago da condição humana, em todo o caso sempre com imensa qualidade. Um pequeno livro de grande valor (que não monetário).

ASSESTA

É o nome da recém constituída Associação de Escritores do Alentejo (à qual pertencem os dois autores antes mencionados). Teve a sua primeira reunião no dia 7 de junho. É um belo nome, considera o autor destas linhas, suspeito no caso. E lembra-se que esta é boa época para a SESTA (mas este autor é admirador confesso de tal prática) e em que há mais tempo para se ler um bom livro (ou um mau também). Ora não há nada melhor que uma boa leitura para embalar a ASSESTA.

& Tal

Contou-me um amigo de São Teotónio que teve recentemente de deixar a casa em que vivia. Esta seria alugada a uma empresa que contrata emigrantes que vêm trabalhar nas explorações agrícolas. Um responsável dessa empresa queria apressar a saída da casa e andava atarefado a medi-la, fazendo contas para ver quantos colchões conseguia amontoar por metro quadrado, e ali despejar o máximo de trabalhadores possível. Uma casa que se transforma numa espécie de curral apertadinho. Não faltam histórias e descrições destas por aí. É o drama da emigração maciça, por vezes em condições sub-humanas, que vive agora paredes meias com o idílico da costa vicentina. É bom que não ignoremos o primeiro enquanto (ainda) podemos desfrutar o segundo. Não é bonito fingir que não se vê.