Edição 26

As gaivotas, as aves que roubam

Os nomes dados em português a muitos dos animais selvagens da nossa fauna são de origem fenícia, e nasceram de atributos desses mesmos animais. O “escalabardo”, a “porca-sara”, a “joaninha”, a “vaca-loira”, etc., etc., tem nomes que nasceram exatamente de suas características, e só conhecendo a língua antiga e o seu processo evolutivo para o português atual se pode compreender plenamente essa situação. Vamos falar agora de uma ave muito comum entre nós, e da origem do seu nome, a “gaivota”.
Influenciados pela moderna classificação que fazemos das aves, somos levados a separar as “gaivotas” das espécies a que chamamos “aves de rapina”. Esse é o nosso modo de ver na atualidade, mas certamente nem sempre foi assim. Repare-se que o termo “gaivota” é de origem fenícia e é decomponível em dois radicais que surgem na composição de outros nomes de aves: “gav” (que encontramos por exemplo no “gavião”), e “ot” (que existe, por exemplo, em nomes como “minhoto”, “grafanhoto” e “tagarote”). O radical “gav” provém do fenício “qvâ”, que significa “roubar”, e o nosso “ot” nasceu de “oit”, que quer dizer “ave de rapina”. Assim, tudo indica que a nossa palavra “gaivota” tenha nascido de “qavâoita” que evoluiu para “gaivota”. O interessante é o significado do termo em fenício: “ave de rapina que rouba”, que afinal condiz bem com o modo de vida destes animais.
Edição 25

A águia que grita e o seu nome

Hoje vamos falar da “águia-de- asa-redonda”, ou melhor, da origem e significado do seu nome. A questão que desde logo se coloca é o porquê de “asa redonda”. A asa desta espécie não é especialmente redonda, e a generalidade das pessoas nem a distingue das outras espécies de aves de rapina de tamanho médio. Porquê esta designação de “asa redonda”
O nome “asa-redonda” é já antigo porque o dicionário de José Monteiro da Carvalho, de 1765 fala de uma variedade de milhanos nos seguintes termos: “… os (milhanos) de aza redonda são bons para comer, porque se alimentão de gallinhas, perdizes, etc.”. É claro que o rigor da descrição das aves e seus hábitos deixa muito a desejar nestes dicionários antigos, mas para o caso o que interessa é que pelo menos no século XVIII já se falava de uma espécie de nome “asa-redonda”.
Como é bom de ver, a explicação para a origem do nome não está na asa, mas apenas na língua antiga e na sua evolução. Este “asa-redonda” certamente nasceu de “ãesaredammdaâ” que significa “ave que grita quando voa”. Expliquemos melhor a situação. Este “ãesaredammdaâ” do povo, que efetivamente descrevia o facto da ave em causa se distinguir de outras por gritar com frequência em voo, facilmente evoluiu para “ãsaredamda” e daí para a atual “asa redonda”. Repare-se que o início da palavra é “ãessare”, que significa simplesmente “ave”, e que noutro caso deu origem à nossa palavra “açor”.
Edição 24

Do “Travasso” à “Travessa”

Há muitas situações em que uma palavra atual resulta da evolução convergente de duas ou mais palavras antigas. Hoje quando falamos de topónimos rurais do grupo de “travasso” e de topónimos urbanos relacionados com “travessa”, podemos pensar que se trata de palavras com uma raiz semelhante, aplicadas em diferentes situações, mas na verdade, como em muitos outros casos, as suas origens e significados são bem diferentes.
Há muitos “Travessos”, “Travasso”, “Travessa”, “Travassô”, “Travassós”, e mesmo “Trave”, etc., que são topónimos rurais que resultam da evolução do termo “tarvasu” que em fenício significa “estábulo” (que pode ter o significado de “curral” ou mesmo de “cortiço”). Devem ter sido topónimos relacionados com assentamentos de pastores, alguns muito antigos, porque há um número significativo de sítios arqueológicos antigos (Neolítico e Calcolítico) que ainda hoje têm nomes desta família.
Já a “travessa” e outros topónimos deste grupo devem ter tido origem no “transversus” latino (“oblíquo, transversal”) como referência toponímica a atalhos entre caminhos principais. De resto a designação urbana de “travessa” (enquanto tipo de artéria urbana) terá certamente essa origem. Como sempre, os falantes de latim influenciaram principalmente as cidades, enquanto o povo rural, que falava a velha língua de origem fenícia, deixou a sua marca nos nomes que ainda hoje damos aos sítios do campo.
Edição 23

Os carros e os currais

O topónimo “curral” é muito comum entre nós, existindo tanto no continente como nos arquipélagos atlânticos. A origem da palavra, ainda em uso na atualidade, deve estar nos termos fenícios “Kr” (kar) que em ugarítico e hebraico antigo significa “cordeiro”, e de “HL” (âal), que quer dizer “ovelhas desgarradas”. Portanto “karâal” significa algo como “cordeiros e ovelhas separadas”.
De facto o “curral” é o local onde se guardam os animais que têm crias novas. Ainda hoje se faz isso. Quando cabras ou ovelhas parem, separam-se das restantes, deixando-as ficar no curral ao abrigo dos elementos e dos predadores. Claro que a etimologia proposta geralmente para a palavra “curral”, como sendo proveniente de “curru”, que em latim significa “carro”, não faz o menor sentido porque os currais nunca foram nem são locais para guardar carros, mas antes gado.
O termo “curral” está ainda em uso na nossa linguagem corrente e o topónimo é comum tanto nos Açores, como na Madeira, como no Brasil e nos países africanos de língua oficial portuguesa. Por outro lado tem uma distribuição relativamente regular no continente, sendo por isso de supor um uso relativamente prolongado desta palavra e a sua fixação na toponímia igualmente prolongada no tempo.
Edição 22

Colos, Cola, Cercal e calabouço

Quem já visitou o chamado “Castro da Cola”, no concelho de Ourique, não estranhará que o radical “col” corresponda a uma fortificação. De facto o que mais facilmente se percebe quando se visita o sítio, onde também existe uma igreja dedicada precisamente a Nossa Senhora da Cola, é o que resta de um povoado fortificado que data de período islâmico e que sobreviveu talvez até o século XV. Contudo a ocupação do local deve ser muito anterior, já que parece haver vestígios desde a Idade do Bronze. Há em Portugal muitas outras povoações cujo nome inclui este radical “col” ou “cal”, e provavelmente a maioria delas nasceu também de povoações fortificadas muito antigas.
Terá também sido fortificada a nossa vila de Colos, muito embora isso não seja absolutamente evidente na povoação atual. Do mesmo modo, a mesma raiz, “cal”, pode ter estado na origem do nome “Cercal” que nos está tão próximo, embora também não seja visível hoje nenhuma fortaleza. De resto este “col” ou “cal” aparece dissimulado em topónimos como “Colares” (col+ ares – “ares”= serra), “Colo de Pito”, e muitos outros. Este radical “kl”, que entre nós deu origem a nomes com os sons “col” ou “cal”, significa na língua pré-latina falada pelos nossos avós, “conter, fechar, encerrar, confinamento, prisão”. Esta palavra servia para designar a barreira em si, que evidentemente impede de entrar, mas também impede de sair. Por isso, para além da ideia de fortaleza que nós associamos ao que “impede de entrar”, a raiz “kl” foi também usada por exemplo na palavra “calabouço” com o significado de “prisão mal cheirosa” (“kl’” - prisão + b’s - “cheira mal, feder, ser intolerável”).
Edição 21

Justa homenagem

Em 1837, D. Francisco de São Luiz Saraiva, Bispo reservatário de Coimbra e conde de Arganil (conhecido popularmente como “Cardeal Saraiva”), publicou um artigo extraído das atas da “Academia Real das Sciencias”, da sessão de 15 de setembro de 1835. O título desse trabalho era “Glossario de Vocabulos Portuguezes Derivados das Linguas Orientaes e Africanas, Excepto a Árabe”, e nele enumerava uma vasta lista de palavras com relação evidente com as línguas antigas do Próximo e Médio Oriente. Nessa época não tinham ainda sido decifradas as inscrições que nos vieram tornar possível o conhecimento de línguas como o assírio, o acádio ou o ugarítico, e por isso é-nos hoje possível ir mais longe nessa relação que a nossa língua tem com essas antigas línguas do mundo mediterrâneo.
Fica aqui a merecida homenagem ao Cardeal Saraiva, investigador que com rara visão antecipou em mais de século e meio os conhecimentos que temos atualmente sobre esta matéria. Fica também o lamento pelo conservadorismo fanaticamente latinista de alguns dos nossos académicos, que mesmo quando as novas descobertas se tornam inquestionáveis e indesmentíveis, se mantêm agarrados às velhas páginas das sebentas de outros tempos.
Edição 20

ENGAVELAR OU COMBATER

A palavra “engavelar” é uma palavra que significa “lutar, andar à bulha”. É um regionalismo usado no Baixo Alentejo litoral que significa o mesmo que “combater”. A origem das duas palavras é diferente, e por isso uma foi adotada pelo português padrão enquanto a outra fica confinada ao falar regional sem ter sequer honras de constar dos dicionários de português. O nosso “engavelar” é certamente proveniente do fenício “âmqavâle” que significa exatamente o mesmo que o “engavelar” português: “lutar com, encontrar-se hostilmente com o inimigo, combater com, batalha, lutar com”. Assim, o “âmqavâle” acabou por criar o nosso verbo “engavelar”. É curioso notar que “âmqavâle” é a forma fenícia exatamente equivalente à forma latina “combater” que nasce precisamente da ideia de “lutar com” (com+bater). Do latim ficou-nos o “combater”, do fenício o “engavelar”. A língua oficial, patrocinada pelos urbanos latinizados, acabará fatalmente por fazer desaparecer mais esta palavra de origem fenícia e popular, deixando o termo latino como única forma de referir a ideia. É assim que ao longo dos séculos a língua latinizada das elites tem vindo a extinguir o falar tradicional do povo.
Edição 19

Os lagos que nunca existiram

Muitos topónimos deixam desconcertado qualquer observador atento. Sabe-se que alguns nomes dos sítios foram criados há milhares de anos e o seu significado original perdido, de modo que hoje esse antigo nome vai sendo associado a palavras do português atual apenas pela proximidade fonética. O que vos mostro hoje é o caso dos “Lagos” que têm água, e dos outros “Lagos” que não a têm nem nunca a tiveram.
Há efetivamente locais que se chamam “Lago” ou “Lagos” e que são áreas onde naturalmente se acumula água. Bem perto de Vila Nova de Milfontes há um topónimo do mesmo grupo, os “Alagoachos”. O nome tem certamente por origem a existência de lagoas temporárias que ainda hoje por ali se formam. Há contudo alguns outros nomes desta família que não correspondem nem nunca puderam corresponder a acumulações de água, embora se trate sempre de locais frescos e húmidos. A título de exemplo destes “Lagos” sem água, podem ser referidos vários na freguesia de Colos. Neste caso o topónimo “Lagos” deve ter nascido do termo fenício “l?” (pronunciado “lague”), termo que significa exatamente “húmido, fresco, verde, vigoroso”. Assim se compreende que hoje se chame “Lagos” a locais onde efetivamente nunca existiram lagos.
Edição 18

A VIAGEM DO LOBO

Q uando os povos do leste do Mediterrâneo se dispersaram pelo velho mundo depois do Neolítico, levaram consigo as sementes e animais que tinham domesticado, as técnicas e crenças, e inevitavelmente a sua língua. Esses povos chamavam “labbu” ao “leão”, que era a fera do Próximo Oriente que mais os preocupava. Quando atingiram o ocidente da Europa não encontraram por cá leões, mas aplicaram o mesmo nome ao carnívoro que mais os apoquentava: aquele a que hoje chamamos “lobo”. Assim o nome “labbu”, viajando no tempo e no espaço mudou também de significado, e nasceu entre nós a palavra “lobo” para designar o maior canídeo selvagem da Ibéria. Mas o processo de difusão da palavra não tinha terminado. Na expansão marítima os portugueses levaram consigo também, e mais uma vez, a sua língua e a sua cultura. Tal como antes, os colonos que saíram do velho mundo para diversos continentes, em muitos casos não encontraram lobos, mas apenas outros carnívoros. Foi assim no Brasil, onde chamaram “lobo-guará” a um outro predador que por lá encontraram, ou no arquipélago da Madeira onde batizaram de “lobos-marinhos” as focas que por lá havia. A milhares de anos e a milhares de quilómetros de distância, a palavra lobo, em metamorfoses sucessivas, sobreviveu num processo adaptativo notável. Coisas da língua que só agora começamos a perceber.
Edição 17

OS PERCEBES PARA QUEM OS PERCEBA

Todos nós sabemos o que são “percebes”, ou como às vezes se diz, “perceves”, e possivelmente muitos também já nos perguntamos por que motivo se chama “percebes” àquela espécie de crustáceo cirrípede (cujo nome científico é Pollicipes pollicipes). A explicação reside na origem da palavra que, como é bom de compreender, nada tem que ver com o verbo perceber. Então, se os percebes não se relacionam com o perceber, de onde vem a palavra e o que significa? O nome deve provir da sua morfologia característica, com a parte dianteira do animal, dura e fendida. De facto o corpo dos percebes é dividido em duas partes: a unha ou capítulo e o pedúnculo. Ora esta unha fendida é que dá o nome ao animal. Em fenício “prsh” significa “casco (fendido), separação, fenda” e “aps” quer dizer “fim, extremidade”. Assim, “prshaps” é precisamente “extremidade com casco fendido”. Assim já se percebem melhor os percebes.
Edição 16

Um Trajano que nunca foi imperador

Hoje vou falar-vos de uma curiosidade da toponímia do concelho de Odemira, na freguesia de S. Luís. O nome em questão é “Trajanos”, monte a norte da aldeia, como quem vai para o Cercal do Alentejo, e que anda acompanhado de um “Trajanitos”, topónimo este nascido por certo como diminutivo do primeiro.
As interpretações tradicionais da toponímia olham com um agrado romântico para ao nomes dos sítios que podem lembrar nomes de pessoas, e tentam associar um qualquer “herói fundador” ao nome das terras. Foi assim quando se pretendeu que “Lisboa” (referida em textos antigos como “Olisipo”) tivesse nascido de Ulisses, ou quando ainda hoje se faz crer que “Beja” seja um nome resultante de “Pax Julia”.
Nessa mesma linha de pensamento haverá talvez quem tenha a tentação de relacionar este topónimo “Trajanos” com o imperador romano Marco Trajano, nascido perto de Sevilha, na Península Ibérica, e que governou o Império Romano por volta do ano cem depois de Cristo. Pois que me perdoem os mais fervorosos defensores da nossa latinidade, mas este “Trajanos” de S. Luís nasceu da língua fenícia falada pelo nosso povo, e não do latim nem de nenhum imperador. O fenício “tarjann” está na origem deste local, e sabem porquê? Porque essa palavra significa simplesmente “afiar facas”.
Antes de sermos invadidos pelas ergonómicas e baratas pedras de afiar da indústria, aqui nesta região do país, quem queria uma boa pedra de afiar ia a “Trajanos” buscá-la. Por certo ainda há muito boa gente que tem lá por casa uma delas.
Edição 15

Carmo e as vinhas velhas

Talvez alguns mais atentos ou mais amantes e conhecedores de vinhos tenham reparado que há muitos vinhos e vinhas cujo nome inclui o radical “carm”. Não me cabe, nem me ficaria bem, publicitar marcas comerciais de vinhos, e por isso deixo a cada um o trabalho de procurar nas prateleiras dos supermercados ou nos confins da sua própria memória exemplos desta situação.
A pergunta é óbvia: porquê? Sim, por que motivo há tantas vinhas e vinhos com nomes desta família. A explicação é simples: “carm” em fenício (“krm” em ugarítico, “kèrem” em hebraico antigo, e mesmo “karmu” em árabe) significa precisamente “vinha”. Daí haver muitas vinhas (e marcas de vinho) que incluem este radical.
Outros “Carmo” têm origem religiosa, mas também esses, ainda que indiretamente se relacionam com as vinhas ou pomares. Existe em Israel atual o “Monte Carmelo”, serra que foi cenário para alguns episódios bíblicos com o profeta Elias. Esse “Carmelo” nasceu por certo de “karmèl” com o significado de “pomar” ou de “karm ilu” que quer dizer “vinha de Deus”. Pois foi no “Monte Carmelo” que nasceu a Ordem religiosa do” Carmo” ou dos “Carmelitas”, instituição que acabou por dar o nome a muitos outros locais.
Edição 14

BABEL E AS LÍNGUA MODERNAS

Conta a lenda que em tempos os homens construíram em Babel uma torre que pretendiam que chegasse ao céu. Deus não gostou do atrevimento dos homens, que pretendiam fazer obra grandiosa que se assemelhasse às suas próprias obras. Destruiu a torre e, para que os homens não voltassem sequer a tentar feitos semelhantes, confundiu-lhes as línguas de forma que cada grupo falasse uma língua diferente e nunca mais voltassem a ser unidos e a conseguir grandes feitos.
Na verdade o mito da “Torre de Babel” lembra o tempo em que todos os povos do Próximo Oriente se conseguiam compreender, e que, mais tarde, esse entendimento já não era possível. É um fenómeno normal de divergência fonética (e não só) que vai afastando as línguas da mesma raiz quando passam séculos e milénios. Veja-se um exemplo simples de duas palavras que hoje parecem bem diferentes e que nasceram de uma mesma raiz antiga.
Em fenício (ugarítico) “tjen” significava “ser dois, duas vezes”. Este som tj desapareceu evoluindo para algumas línguas europeias como “t” e para outras como “j”. Por isso temos hoje no português a palavra “gémeo” (proveniente de “jn”) e no inglês o “twin” (proveniente de “tn”. O mesmo ocorreu certamente em muitos outros casos e assim temos em algumas línguas o “rosa”, o “rouge”, o “roxo”, o “rosso”… e noutras o “red”, o “rot”… Afinal, línguas que parecem muito diferentes são pouco mais que evoluções diferentes da mesma língua antiga.
Edição 13

Madeira, a ilha da grande serra

Diz-se que o nome que damos ao arquipélago dos Açores provém dos açores que efetivamente nunca lá existiram. Também se diz que o nome que damos ao Brasil nasceu da cor de uma madeira avermelhada que de lá vinha, mas na verdade a palavra “brasil” já era usada em 1377 para referir terras distantes, logo muito antes da descoberta do Brasil e da madeira de cor avermelhada que lá havia. Tontarias, que repetidas mil vezes passaram a verdades consagradas.
Diz-se igualmente que a ilha da Madeira ganhou o nome por ter muitas árvores, esquecendo que essa seria por certo uma característica comum a todas as ilhas desabitadas do Atlântico. Na verdade o nome que damos à ilha da Madeira deve ter nascido do termo “madhrh”, que na linguagem popular de origem fenícia significava “serra grande”. De facto a grande serra que constitui a coluna dorsal da ilha é, essa sim, a característica distintiva relevante capaz de dar utilidade ao topónimo. A ilha da Madeira era efetivamente, na linguagem dos marinheiros do século XV, a “ilha da grande serra”, e não a “ilha das árvores”, porque árvores todas elas tinham, e essa não seria uma característica distintiva com utilidade.
Edição 12

As serras na toponímia

Há serras portuguesas cujo nome significa em fenício simplesmente “serra”. É o caso da nossa serra do Marão, cujo nome por certo nasceu do termo fenício “mârôm”, que significa simplesmente “altura, elevação, local elevado”. Há outra designação fenícia para “serra” que criou muitos topónimos em Portugal: “hr” (âêr) significa precisamente “monte, montanha, serra”. Este “hr” está na origem dos nossos “Aire”, “Airó” e de vários “De Aire” e “Daire”. Em qualquer dos casos anteriores, quando dizemos “Serra do Marão” ou “Serra de Aire”, estamos na prática a dizer “serra” duas vezes de duas formas diferentes.
O mais interessante é que a própria palavra “serra” (no sentido de montanha) é de origem fenícia (ao contrário da palavra “serra” enquanto instrumento de trabalho, que é de origem latina) e é comum a “cerro” (ou “serro”). Alguns dicionários relacionam “cerro” com o termo latino “cirru”, o que constitui uma tese absolutamente despropositada, já que essa palavra latina significa “anel de cabelo, tufo de cabelo”. Efetivamente tanto o termo “serra” como o termo “cerro” (ou “serro”), devem ter nascido de “?eru”, “šaru” ou “?iru”, formas que significam em fenício “alto, elevado”. Portanto as nossas “serras”, independentemente do nome distintivo que ostentem, são de origem fenícia.
Edição 11

As “cabras” que não são gado

Os regionalismos da língua conservaram, ao abrigo das correntes mais latinizadas impostas pelo falar urbano e académico, termos que se perderam na língua padrão. Do mesmo modo, a toponímia dos nossos campos constitui um quase infindável manancial de palavras que escaparam à formatação erudita, porque de uso exclusivamente rural e popular. Em ambos os casos encontramos a palavra “cabra” com significados originais fenícios, que nada tem que ver com o animal doméstico que conhecemos.
Na toponímia, a “Cabra”, em formas como “Cabra Figa”, “Cabra Assada”, entre outras, provém de “qabru”, que significa em fenício “sepultura”, e corresponde a antigas necrópoles. Na linguagem popular regional do Alentejo Litoral as “cabras” são veias que se tornam visíveis nas pernas. Ora essas “cabra” que são “veias visíveis” também nada têm que ver com animais, mas antes com o termo “kabar(tu)” que significa exatamente “varizes”. Anote-se que o “tu” final de “kabar(tu)” é marca do género feminino comum em fenício, pelo que a palavra no masculino seria “kabaru”, origem evidente das nossas “cabras” que significam “veias”.
Edição 10

O MONTE E A HERDADE

Sabemos bem que a nossa palavra “monte” pode ter dois significados bem distintos. Por um lado pode ser o nome genérico dado a uma forma de relevo (que pode ir desde o pequeno cabeço até a uma elevação de grandes dimensões), mas o nosso “monte” pode também significar simplesmente “casa agrícola”. É evidente que estamos perante a evolução convergente de duas palavras de origem bem diferente.
Ora, se o “monte” como forma de relevo é por certo originário do latim, a nossa palavra “monte”, quando corresponde a uma casa e respetiva propriedade agrícola, nasceu da forma fenícia “mnt” [mônut], que significa “herança, parte, porção”. O que é mais interessante nesta situação é que o conceito que deu origem ao “monte alentejano”, mais tarde, veio a fazer nascer a palavra “herdade”. De facto, o “monte” e a “herdade” são palavras que significam “herança, parte que foi herdada”, mas enquanto a primeira nasceu da língua popular de origem fenícia, a segunda foi usada pela elite de origem latina.
Edição 9

OS LOUCOS E OS MALUCOS

Ainda hoje chamamos “malucos” aos habitantes das ilhas Molucas. É uma história de falso conhecimento que se tem perpetuado. E é triste porque como diria Stephen Hawking, “o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão do conhecimento”.
Ao contrário daquilo que geralmente se diz e escreve, a palavra “maluco” não nasceu de qualquer tipo de relação com as ilhas Molucas. Este nome “Malucas” que os portugueses chamaram a essas ilhas foi certamente uma corrupção da palavra malaia “meloc” que quer dizer “principal, importante, excelente”. Parece que “meloc” era o nome dado aos governantes locais, e nem sequer terão sido os portugueses os primeiros a chamá-las assim, porque os comerciantes árabes que desde o século X comerciavam com aquela região já as chamavam de “Al Maluk”, como referência aos seus chefes ou reis. De resto essa palavra na forma “melek” já ocorre na Idade do Bronze no Próximo Oriente com o mesmo significado: “rei”. Seja como for os ilhéus não eram “malucos”, e a relação entre ambas as palavras é apenas uma coincidência fonética.
Faltou também aos estudiosos da língua observar que existe uma semelhança estranha entre as nossas palavras “maluco” e “louco”, e que essa semelhança não ocorre por acaso. Tudo se tornará mais claro ao perceber que a palavra “louco” vem do fenício “lêêkêê” significa “ter um olhar inexpressivo e comportar-se como louco”. A palavra “maluco” contém esse “Lêêkêê” que originou “louco”, mas precedido da palavra fenícia “mhl”, significa estar “adulterado, corrompido”. Assim “maluco” será simplesmente o que se encontra corrompido pela loucura.
Já agora, deixem de insultar os habitantes das ilhas Molucas chamando-lhes “malucos”, que não têm culpa nenhuma da nossa ignorância.
Edição 8

Por maus caminhos

Geralmente os nossos dicionários admitem que a palavra “caminho” tenha tido origem num hipotético termo “camminu”, do “latim vulgar”. Simplesmente, como é bom de compreender, o dito “latim vulgar” não é nem nunca foi latim. Por outro lado, o termo latino foneticamente mais próximo do nosso “caminho” é “caminus”, mas significa “forno, fornalha, fogão”. Evidentemente que este “caminus” latino, que significava “forno”, nada tem que ver com percursos ou distâncias.
Edição 7

A Cabra e as Sepulturas

A toponímia tem uma imensidão de nomes enganadores. Parece que significam algo do nosso quotidiano atual, quando afinal nasceram de uma ideia bem diferente milhares de anos antes. E nem sempre é fácil perceber a real origem dos topónimos que usamos hoje, quer sejam nomes que já não têm qualquer significado conhecido, quer pareçam ser palavras que usamos todos os dias.
O exemplo que vos trago hoje tem tanto de curioso como de interessante para a pesquisa arqueológica. A palavra “cabra”, quando corresponde a um topónimo, raramente se deve referir ao animal que hoje tratamos por esse nome. Pelo contrário, deve referir-se a “sepultura”. O topónimo é, como tantos outros, de origem fenícia, e radica em “qabru”, que significa precisamente “sepultura”. Deu no português (com passagem pelo provençal e pelo francês) a palavra “macabro”, que mantém em pleno o seu sentido original.
Por cá existem muitos sítios que se chamam “Cabra: “Cabra Figa”, que significa “sepulturas de incineração); “Cabra Assada”, que nasceu por certo de “qabru ased” e quer dizer “encosta das sepulturas”); “Cabeça da Cabra” corresponde a “sepulturas da aldeia”, etc.. Os nomes dos sítios da nossa terra são mesmo assim.
Edição 6

Fiasco

Diz-se que a nossa palavra “fiasco” provém do italiano. A imaginação deliran-te de alguns até explicita que a palavra teria relação com certo tipo de garrafa de cristal fabricada em Veneza, no bairro de Murano! Diz-se que quando essas garrafas saíam mal, eram usadas como simples frascos, e daí o “fiasco”, que significa “frasco” em italiano. Outros dizem que a palavra nasceu de um cómico italiano de nome Biancolletti, que em certo espetáculo se teria servido de um frasco para fazer as suas graças! É claro que quem pensar um pouco verá que em português o radical é afinal simples: na nossa língua antiga, o fenício, “askku” significa precisamente “abominação”. Neste caso “asco” significa sempre algo de mau, algo de detestável, de abominável. Tanto a própria palavra “asco”, como “verdasco”, “nevasca”, “borrasca”, “panasca”, e outras palavras que contêm este “asco”, nasceram desta mesma ideia de “coisa má”. A razão da palavra “fiasco” há que considerar que, como em fenício “fe” é “falar, gritar”, “feaskku” será “gritar abominação” ou “dizer coisa abominável”. Esqueçam portanto os frascos e os cómicos italianos, porque não fazem falta nenhuma para explicar a origem desta palavra portuguesa.
Edição 5

O “GRÃO DE AÇO” E OS “GRANDAÇOS”

No que toca à toponímia portuguesa pode dizer-se que quase nada significa o que aparenta significar. Entre muitos outros, é o caso de dois topónimos do Baixo Alentejo que parecem hoje corresponder a significados bem diferentes, quando afinal nasceram de uma mesma realidade: “Grão de Aço”, topónimo do concelho de Odemira na zona de Corte Brique, e “Grandaços”, povoação do Concelho de Ourique.
Edição 3

A “BOLA” E O “BAAL”

Quando uma das detidas do Estabelecimento Prisional de Odemira sai em liberdade, as demais gritam num frenesim ensurdecedor: "bola! bola! bola! bola!!" No entanto, parece que já ninguém sabe por que motivo o fazem. A explicação para este fenómeno curioso prende-se com o uso da antiga língua de origem fenícia, que num ambiente fechado como é uma prisão se perpetuou até hoje.
Edição 2

A FOLGA E O FOLE

As explicações que têm sido dadas para a origem de muitas palavras do português roçam o ridículo. É o caso da origem tradicionalmente proposta para a nossa palavra “folga”, que alguns relacionam com o termo latino “follicare”, que significaria “respirar como um fole”. Portanto “estar de folga” seria “respirar como um fole”! Como em muitos outros casos esta explicação, completamente despropositada, só pode ter surgido por se querer, a qualquer custo, encontrar uma origem latina para a palavra portuguesa.
Edição 1

ORIGEM DA PALAVRA “TRABALHO”

Embora a ideia de trabalhar possa ser muito dolorosa para algumas pessoas, não é propriamente uma tortura. No entanto, tradicionalmente aceita-se que a nossa palavra “trabalho” tenha nascido do verbo latino “tripaliare”, que significa “torturar com tripalis” (este “tripalis era um instrumento de tortura formado por três paus).