Uma ligação ao mar

Este mês encontrei em Odemira Miguel Veiga, 47 anos, artesão, da Longueira

Qual a sua ligação a este território?
Sou da Longueira, os meus pais e toda a família são é daqui, cresci cá e é cá que tenho os meus amigos. Saí da região durante alguns anos para trabalhar na hotelaria, no Algarve, uma vez que há duas décadas não se passava nada aqui e era normal a juventude querer explorar outros lugares. Mas depois voltei, trabalhei cerca de dez anos numa empresa agrícola e quando terminou essa fase da minha vida, comecei a fazer artesanato ligado directamente à forte relação que tenho com o mar, onde vou à pesca desde pequeno, com o meu pai e os meus tios. Descobri então uma veia criativa que não sabia que existia e, com um foco no desperdício e na reutilização, tive também uma tomada de consciência ambiental. O meu trabalho como artesão reflecte não só a descoberta da criatividade mas também o conceito, hoje em dia muito actual, de recolher materiais perdidos e desaproveitados nas praias e na costa, e dar-lhes uma nova vida como peças decorativas e de bijutaria. Gosto de mostrar a crianças e adultos como se pode criar com pouco, com coisas a que ninguém liga. É o mar que me inspira e traz a matéria prima que uso no artesanato: cortiça, troncos, conchas, pedaços de plástico, utensílios anteriormente usados na pesca: bóias, redes, cordas, inutilizados para o seu propósito inicial. Estas minhas criações vêm também compensar o facto de já não ir tanto à pesca, já que o mar já não é o que era, já não se pesca como se pescava, já não há as espécies que havia, na realidade até me dá pena ir ao mar hoje em dia.

O que tem esta terra de especial?
O que torna esta região especial para mim é o facto de ser a minha terra. É aqui que tenho a minha família, os meus amigos e as minhas origens. Gosto desta calmaria, deste sossego. E gosto do mar, sempre o mar.

O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?
Estando eu na Longueira, o que mais me preocupa é o que se passa mesmo aqui à minha volta: a agricultura intensiva, a multiplicação imparável de estufas, e as consequências ambientais que irão revelar-se mais tarde. O que se passa por aqui faz-me muita impressão. Por outro lado, claro que o impacto social de todos os trabalhadores que vêm trabalhar neste sector também me impressiona pois entendo que procurem uma vida melhor mas receio que exista algum tipo de exploração ou condições de vida deficientes. Em relação aos aspectos positivos, destaco o projecto Rota Vicentina, que promove o turismo de qualidade, em pequena escala, sem provocar uma massificação. São projectos assim que trazem alma à nossa costa, atraindo os turistas “certos”, espaçados ao longo do ano, com tempo para apreciarem as coisas boas desta região, sem aquela pressão típica de Julho e Agosto. É positivo que o turismo não se concentre todo no verão, como se passava antigamente.

#encontreiemodemira

“Encontrei em Odemira” é uma rubrica do mercúrio, (humildemente) inspirada no blogue “Humans of New York”, que pretendia na sua origem ser um “catálogo” exaustivo dos habitantes de Nova Iorque, com pequenos apontamentos das suas vidas, e que acabou por se tornar um projecto vibrante, abrangendo dezenas de países, com milhões de seguidores nas redes sociais e inúmeras causas filantrópicas. À nossa escala, esta nova secção tem o objectivo único de mostrar aos leitores a diversidade humana que habita hoje em Odemira, entre autóctones que sempre aqui viveram, forasteiros que escolheram este território para viver e até mesmo aqueles que vieram aqui parar quase ao acaso. A cada mês vamos encontrar habitantes de Odemira e colocar-lhes três questões:
Qual a sua ligação a este território?
O que tem esta terra de especial?
O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

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