Alcunhas, Murat e televisões

Hadji Murat

Alcunhas

No dia 7 deste mês Francisco Ramos deixou-nos. Com uma intensa atividade académica, ligada à Universidade de Évora, Francisco Ramos acaba por ficar mais conhecido pelo famoso “Tratado das Alcunhas Alentejanas”. É raro um livro com estas características de dicionário se revelar uma obra tão divertida. Pessoalmente, fui lendo as suas seiscentas páginas assim como quem pega num romance. Todavia, a obra de Francisco Ramos não se esgotou neste “Tratado”. Entre a restante bibliografia são de destacar “Vinho do Alentejo; temas culturais” (um conjunto de textos antropológicos sobre o tema) e “De Monsaraz a Melbourne, reflexões antropológicas” (interessante coletânea de publicações dispersas). Há alguns anos, Francisco Ramos passou por São Teotónio, numa tertúlia literária organizada pelo Clube dos Poetas Vivos. Foi um momento inesquecível e uma forma de sobreviver na nossa memória através da obra.

Hadji Murat

Nos últimos anos do século XIX, Tolstoy escreveu “Hadji Murat”, uma espécie de biografia de um líder checheno. Hadji Murat era muçulmano e combatia os russos. Depois mudou-se para o lado do inimigo, constituindo-se como um traidor. Ainda tentou regressar aos seus antigos companheiros de armas mas acabou morto. Ora a história de um líder checheno, de religião muçulmana, a que hoje chamaríamos “terrorista”, é uma história perfeitamente atual. Quando a lerem perceberão que essa atualidade vai muito além da coincidência histórica. Perceberão igualmente o génio de Leo Tolstoy, um dos maiores escritores de sempre. Aconselhado para quem quer ler clássicos deste autor mas receia apeitar-se a um calhamaço como a “Guerra e Paz” ou “Anna Karenina”. É que Hadji Murat tem pouco mais de cem páginas.

& Tal

Aldeias do concelho de Odemira em concursos nacionais de grande audiência; passagem espalhafatosa de um canal televisivo pela FACECO; tradicionais reportagens do Festival do Sudoeste. Definitivamente, Odemira anda muito mediatizada. Ora embora reconheça que essa mediatização é um fator positivo para a promoção turística, convém que nos recordemos que ela não é um fim em si mesmo. Tem até algumas características de “circo” e, por vezes, parece que responsáveis – mas também largos sectores da população – a julgam como o suprassumo, o corolário, o melhor que se pode fazer ao concelho. E não é. Essa mediatização são os anéis da mão. Os dedos são o emprego, o bem-estar, a qualidade de vida, o ambiente, a educação.

Deixe uma resposta