Bangladesh

Entre Odemira e Daca distam onze mil quilómetros. Se por acaso houvesse força e tempo para pegar nas pernas e fazermo-nos à estrada, demoraríamos três meses a lá chegar. Apesar dos pequenos impulsos de uma economia que emerge das trevas, o Bangladesh continua a ser dos países mais pobres do mundo com uma das maiores densidades populacionais do planeta. O terreno é pantanoso e quente, em transe com a perspectiva das mudanças climáticas. Uns metros acima e grande parte da sua superfície desaparecerá. Deste lado, é uma experiência inaudita entrar num autocarro que se dirije a qualquer terra do concelho onde floresce este mercúrio e encontrar muitos habitantes deste país a palrar numa língua que vive à beira do Golfo de Bengala. Como se na verdade, a força e o tempo que não tínhamos se tivesse feito por si. Todos os dias nos cruzamos, nós e eles, sem na verdade nos cumprimentarmos. Falta esse passo, de cá ou de lá. Uma ponte transfronteiriça de culturas tão distantes. Não consta que exista algum odemirense a viver à beira do Ganges, mas por cá o inverso é uma evidência definitiva que floresce nas margens do Mira. O Verão chega, as colheitas estão sempre à espera de mão-de-obra difícil de encontrar. Dizem que os portugueses não querem trabalhar. Por isso, os trabalhadores têm de vir de longe. Há uma justificação para tudo. Uma realidade à vista. Não devemos ignorá-la.

Sobre o Autor

Nasceu e cresceu em Lisboa e viveu quase duas décadas no Oriente. Gosta de se referir como "escritor visual". Publicou um livro e é um ambientalista simplório. Reside em Odemira há uma mão cheia de anos, mas continua a deambular pelo mundo e por outros planetas.

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