Ti Chico da Ponte Conversa em Santa Clara-a-Velha

Estas recolhas de histórias de vida são a realização de um projecto do mercúrio, em parceria com a universidade Sénior de Odemira, que na diversidade do seu trabalho decidiu calcorrear as freguesias do Concelho de Odemira à procura de testemunhos coloridos, de gente que tem muito para contar e que nos vão contando os seus percursos de vida, as suas experiências, as suas aventuras e desventuras.

Não se trata de mera curiosidade. As visões do mundo poderão corresponder a um fundo cultural partilhado. A vida de cada uma destas pessoas é um percurso único que pode ter como pano de fundo a tal partilha que fundamenta as escolhas feitas em cada momento.

Aquilo que contam também é fruto dos sítios, das companhias e interacções com outros e outras. Do contacto com a natureza e da capacidade de observação. Das modas e modos de contar. O correr do tempo vai afinando o conto.

O Ti Chico é o primeiro. Vejamos o que nos conta.

 

Francisco da Silva Guerreiro, conhecido por Ti Chico da Ponte

Tem 89 anos e já não se lembra, diz ele, de muitas histórias recentes. Mas sabe que nasceu perto de Santa Clara, no monte, lá na serra, perto de Cortes Pereiras, nas Guerreiras.

“O que se passou antigo ainda não me esqueceu. O bom e o ruim. Os antigos até são muito poucos que eles já morreram quase todos. E eu vou depois disso.”

Que faziam os seus pais?

Não faziam nada. Eram lavradores. Fizeram moços. A gente éramos nove. Já só estou eu e estou em vésperas de embarcar (risos). Eu semeava pão, possuía gado e lidava assim e depois deixei-me disso da cultura, isso acabou. Vim para aqui há quase trinta anos. E aqui não faço mais nada do que é semear umas coisas na horta. Uma hortazinha onde semeio umas coisas para comer e pronto. Cabras não possuí. Possuí lá umas ovelhas, possuí umas rezes, possuí uma parelha de bestas e depois acabei com isso tudo. As parelhas de bestas era para ajudar o serviço, principalmente para lavrar… Carregar o pão para a eira, debulhar, carregar lenha para casa, enfim, a lida era essa.

Debulhava com um malho?

Debulhava numa eira no chão. Tinha ali um pontal onde fazia assim a maré. Que é o vento. A maré faz daqui. Daqui é o sul, do sueste do norte e do nordeste. Raspava ali um bocado a eira, fazia as medas de lado e ficava deste lado aqui da maré que era para limpar. Mas desde que passasse daqui para cima já não limpava que as medas tapavam e o vento não era certo. Daqui era sempre certo. Agora tem andado daqui que é para chover. Debulhava o pão, o gado. E depois á tarde vinha a maré deste lado, vinha daqui, (nordeste)… quando fosse daqui não se alimpava, nem de além. Só se alimpava daqui. Era como… a gente tinha as medas… a maré vinha daqui até aqui. Se tivesse a maré mais baixa limpava-se à mesma, se estivesse mais alta limpava-se, se tivesse de norte não.

E o grão qual era?

Trigo. Centeio a gente não queria isso. Eles moíam aquilo e depois tiravam lá a maquia. Não sei como é que eles maquiavam se era 7% se era a 8, não sei. Eles tiravam a maquia deles e eu trazia o resto. A gente queria era o trigo bom. Se levávamos trigo bom, queríamos a farinha boa. Mas eles às vezes misturavam o trigo com centeio e às vezes cevada. Uma cevada branca. Trafulha! Misturavam uns baldes àquilo e vinha a farinha de trigo com cevada na mistura e era mais ruim e o pão mais ruim. Mas eles faziam aldrabice.

E as medidas como eram?

As medidas eram aos quilos.

Já não havia alqueires?

Havia. Havia a deca mas era meio alqueire. Levava meio alqueire que eram dez litros. Duas decas eram vinte. A gente media as decas e levava, por exemplos: tinha preciso de dois alqueires e meio para o moinho. Para não pesar muito de cada vez levava dois alqueires e meio de cada vez.

E nas águas (do rio Mira) pescava-se alguma coisa?

Pescava-se. Apanhava-se bordalos, pardelhas, barbos. O Bordalo é melhor que o barbo. Agora isso tudo acabou. Já não há aí nada. Mas agora é as carpas e como o achigã comem tudo… Ainda há aí achigãs. Agora os outros peixes… desapareceu tudo.

E os balhos eram feitos com uma flaita aqui na boca truz truz, truz truz e as moças… Eram uns balhos bons

E vossemecê pescava também?

Eu pescava. Fazia aí pescaria. Tanto peixe, tanto peixe.

E nos bailes também pescava umas coisas?

Às vezes. Era conforme dava a pesca (risos).

E os bailes como é que eram?

Nos meus princípios era uma flaita. Sabe o que é uma flaita? Toin toin toin, toin toin, e o balho era…

E vossemecê também tocava?

Às vezes tocava mas era pouco.

Havia alguém que fosse um tocador mais conhecido?

Havia aqui mas depois começaram a aparecer as concertinas. E os balhos eram feitos com uma flaita aqui na boca truz truz, truz truz e as moças… Eram uns balhos bons. Vai de tocar flaita e a gente vai de bailhar com as moças, enfim, faziam-se uns balhos porreiros.

As moças bailhavam entre elas mas os homens não se bailhavam entre eles pois não?

Às vezes ainda bailhavam alguns. Elas não queriam bailhar com eles e eles agarravam-se uns aos outros e bailhavam à mesma. Iam a se divertir. Elas não queriam ir mas iam eles uns com os outros. E às vezes, aqueles mais baldeadões, que havia e ainda hoje os há, e depois… “ah vocês não querem bailhar com a gente só querem ir com os namorados é isso que vocês gostam?”. Agarravam-se uns aos outros, vá de dançar, vá rasteira e vá pulos e escangalhavam os balhos.

Às vezes havia balhos bons e outros mais ruins mas nas mesmas alturas. Uns faziam aqui, outros mais além e uns divertiam-se. Outros mais longe e outros mais perto e depois deu em aparecer as concertinas.

Apareceram as concertinas e a flaita acabou.

As concertinas ainda tocam mas é quase sempre já é aqueles coisos que eles têm enleados à concertina que aquilo faz um barulho marafado que aquilo não presta para nada.

Não há balho nenhum como o da concertina, se eles souberem tocar e que não tenham aqueles latões todos a bater. Os balhos porreiros são aqueles. Mas eles já usam todos isso e depois querem misturar uns com os outros e aquilo é um barulho que não dá para dormir, não dá para nada e dá cabo dos ouvidos.

Aqui fazem eles, quase sempre aí. A gente está dormindo e é um barulho, um barulho que aquilo não presta para nada. Mas eles gostam assim… e fazem. Um mau balho é quando é aqueles que não prestam para nada (risos). É que não está lá coisas que sirva.

E aqueles bons, estava ali moças à farta e estava moças e foi um balho… esses é que eram bons. E havia outros que era uma sucatada qualquer que não prestava para nada e o balho não prestava e era assim. E depois as pessoas iam-se embora e o outro batia lá a noite até de manhã. Agora é tal e qual. Fazem balhos ali. Começa aí às nove horas até de manhã.

Quantos filhos é que o Ti Chico tem?

Tenho 3 e morreu já um. O mais velho. Faz dois anos agora. Ele bebia muito. Era um belo moço, mas então? Era beber e bebia e eu a dizer “não bebas e não bebas e não bebas”. Era como dizer a uma parede. Vá bebia, vá bebia, vá bebia de maneira que arrebentou com ele. Apareceu-lhe uma cirrose quando ele foi ao médico. “Vai ao médico, vai ao médico e não bebas”.

E ainda teve dois anos que não bebia que eu tratei dele com uns comprimidos. Estava aí porreiro que era uma beleza. Ele não sabia que eu dava-lhe aquilo no comer. Eu já não podia entrar numa venda que vinha aquele cheiro a bebida, tinha de desarvorar dali. Eu não dizia que era eu que estava dando que era a mãe que estava dando os comprimidos. Ele mete-se assim com a mãe, “mais logo não como aqui vou-me embora que aqui não como mais”. Começou a beber outra vez e foi uma desgraça.

Esse viveu sempre com a gente. Não lhe calhou mulher nenhuma.

Os outros não. Casaram logo cedo. Um vive aqui e o outro está em Lisboa. Foi para lá desde pequeno e está lá sempre e o outro andou aí nas obras e coiso e depois casou e está aí.

Os seus pais eram muito católicos?

Isso não sei. Eles iam à igreja mas a ideia deles eu não sei. Eu ligo pouco a isso. Eu não abuso mas não ligo muito a isso. Não abuso disso, não faço mangação mas não ligo.

Eles vêm aí às vezes (referindo-se às testemunhas de Jeová). Vêm aí de porta em porta mas eu não ligo muito a isso. Há alguns que escutam mas eu não.

Elas iam lá, descascavam aí uns quantos e coziam aquilo e bebiam aquela água e aquilo dava choque e aquilo saia, mas era logo! Quando estavam grávidas, aí de um mês, se mais coiso já não dava

Quando as pessoas aqui não queriam ter filhos faziam o quê?

Havia aí mulheres que faziam aquele trabalho. Algumas, depois morriam e outras ficavam aí. Fartavam-se de sofrer. Mas elas é que faziam isso.

Chás, havia para aí umas plantas que eles dizem que faziam chás disso e havia aí uma árvore, uma espécie de Carvalheiro, e elas iam e cortavam ali a casca. Essas árvores ainda as há aí. Era mezinha melhor do que era do que elas faziam de outro jeito.

Havia mulheres que faziam. Sei lá como é que era. E eu via aí as árvores todas descascadas que aquilo parece um chaparro mas não é. E elas iam lá, descascavam aí uns quantos e coziam aquilo e bebiam aquela água e aquilo dava choque e aquilo saia, mas era logo! Quando estavam grávidas, aí de um mês, se mais coiso já não dava.

Então, essas árvores estavam muitos descascadas?

Descascavam aquilo tudo (risos).

Então, o serviço era muito… Elas eram muitas (risos).

Mesmo essas que tinham já homem, elas faziam isso para não terem os filhos.

Vocês não são velhos não conheceram esse tempo. Eu conheci porque tive nessa zona.

Um casal pobrezinho, que não tinham nada, carregavam oito, nove e dez filhos e depois não tinham nada. Era só miséria e depois, para não ter mais filhos, faziam aquilo. E às vezes aquilo dava resultado.

Mas isto agora já não há gaiatos.

Então porquê?

É porque não os fazem.

Pois, não sabe porque é? Tomam uns comprimidos. Tomam aquilo e ele já não joga. Senão era para aí gaiatagem que até era como noutro tempo. Era igual. Qualquer bichinho gosta daquela obra, não gostam as pessoas? E aqueles que não gostam…

Agora tomam comprimidos para aquilo. Mas a ralé, pois. Já morreu uma porrada deles por causa dessa moda. Aquilo acaba e eles gostam daquilo e vai com comprimidos mas depois tomam demais e já morreram uma data deles por causa dos comprimidos. Essa malta mais velha, já não falo como eu mas mais novos do que eu, já não dão rendimento, aquela merda murcha, já não endireita, vai um comprimido e aquilo endireita. Mas então? eles lerpam logo (risos).

E histórias de suicídio?

Mataram-se já uma porrada deles.

Porquê?

Isso não se sabe. Eles não contam. Aparecem mortos e não se sabe. Isso não sei nada disso. Eles matam-se e eu não sei. Eles não contam, não dizem que se matam.

Francisco: São de aonde vocês?

Eu sou de S. Teotónio e o Pedro de Vila Nova de Milfontes.

Mas nem um nem outro nasceu por cá. A minha família é de ao pé do Porto e a do Pedro de Lisboa. Estamos longe dos nossos berços.

Mas você viveu sempre aqui!

Eu não vivi aqui sempre. Eu vivia lá no monte. Vivi sempre aqui nesta freguesia mas lá no monte na serra. Nas Guerreiras (nome da propriedade).

Francisco: Então, vocês só fazem isto e mais nada?

Era bom!! (Risos)

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