Evangelista Joaquim Rodrigues Conversa nas Pereiras-Gare

Evangelista Joaquim Rodrigues

Nasci em Benafata da Serra, na casinha da minha avó, ao lado da taberneca.

A minha mãe deixou o meu pai quando ele veio da tropa. Ele deixou os patrões e começou a fazer carvão. A minha mãe trabalhava “como uma moura” a arrancar cepas.

Numa semana arranjaram 800 escudos. Eu tinha aí os meus dois anos. “Olha”, diz ele, “vamos a saboia, vamos fazer o avio para a gente comer”. Depois, foi lá para uma taberna e a minha mãe ficou assentada, comigo ao colo, num pial que havia à porta, até à noite. E ele embebedou-se. Levou o dinheiro todo e não lhe deu nenhum. Ela foi-se embora. Chegou chorando a uma vizinha. O marido dela era o senhor Gingalhada. A mulher fez uma açorda para a gente comer. E ficámos para lá a dormir.

O meu pai, eram por aí umas dez horas da manhã, apareceu. Diz ele – “oh sua velhaca, então, vieste embora?”. “E então o que é que eu fazia lá? Tu estavas bêbado e gastaste o dinheiro todo…”. Ele deu-lhe um empurrão e ela ia caindo. Pega-me numa perna e joga-me por cima de uma lenha e fui cair adiante. Ela lá foi a fugir para me apanhar… e depois disse-lhe – “Nunca mais te chegues para o pé de mim”. Pegou num xaile e em mim e abalou.

Benafate é longe. Mas ela brigou, brigou e conseguiu lá chegar, lá à da mãe. O meu pai no outro dia apareceu lá. “Desculpa lá”, e assim. “Não desculpa nada!” A minha avó saiu logo com um ‘cajadão’ para lhe arrear. “Vai-te embora já, aqui para esta casa já não vens! Faz-se assim à família? Onde é que aprendeste isso? E então acabou. E assim vou dizer um verso:

Em Banafata fui nascido
S. Marcos fui batizado
Fui para as Pereiras solteiro
E hoje ainda sou casado (Há 64 anos!)
Fui criado sem pai
E a minha mãe sem marido
Em S. Marcos fui batizado
E em Benafato fui nascido.

A minha mãe levava-me para a casa dos lavradores para onde ia trabalhar. Um dia aqui, uma semana ali, um mês além… Não era à jorna. Era uma espécie de trabalhar e comia. E a comida era para mim também. Davam-lhe para ali um engodo de dinheiro para comprar, às vezes, alguns trapos.

Nesse tempo era assim. Os ‘javardores’, não eram lavradores, não, eram ‘javardores’.

Era tudo pobrezinho. Mas como semeavam as coisas tinham comida. Faziam comida, ‘malamente’ mas faziam. Era uma espécie de partilha.

Depois ela mudou-se para a Ribeira dos Figos. Havia lá um patrão que tinha uma casa que até tinha uma cama. “E ficas aqui com o mocinho”.

A vizinhança era muito amiga. E ela ia apanhar medronho e ia mondar e ia ceifar. Onde é que ela apanhava serviço para ganhar alguma coisa, ela ia. Uma miúda, dos vizinhos, que tinha mais uns dois anos que eu, lá ia-me buscar. As pessoas davam-me comida e eu fui-me criando ali até aos quatro anos e meio.

Foi então quando a minha mãe me deu para um lavrador. A minha mãe foi-me lá levar e diz “ele fica aqui cuidando de um gadinho e se ele precisar de umas porradas, dê-lhe”. E eu disse-lhe “ó minha mãe, quem é que lhe ensinou isso?” Ela ficou, e não me disse nada. Diz que abalou dali chorando o caminho todo.

Eu fiquei ali. A lavradora foi saltar as vacas, duas bestas, um burro e um cavalo e tinha lá uns dez ou doze porcos num barranco. Soltou aquilo tudo e lá me levou. Eu fiquei ao pé do gado lá numa varja. Gado com uma porção de qualidades.

Eu lá andava de roda do gado. Com quatro anos e meio, mas tive de dar ao litro. A minha mãe não tinha animais. Eu nunca tinha feito nada disso. Pronto, era um boneco e lá fiquei.

Havia uns vizinhos que tinham uns porcos, umas rezes e umas coisas. Andavam por lá dois moços. Vieram para o pé de mim e ficámos ali na partilha e tal. Tínhamos lá um ‘barrasquito’, que era um barrasco, o que fazia os bacos, sentiu os outros, safou-se por baixo e um dos outros dá-lhe duas pontilhadas.

Quando a patroa veio, ao meio dia, para me trazer umas sopas de pão, eu disse-lhe que estava ali um “barrasquinho” que foi aos porcos do Augusto e que o barrasco grande fez-lhe sangue ali de lado. Ela foi ver. Tira um sapato e vai de me dar porrada e agarra aqui no braço. A um “gaiatalho”, daquela maneira. Eu já tinha uns seis anos e tal. Havia ali uma barreira e eu puxo. E ela agarrada a mim, descalça. Aquilo era só daquele bico narciso, terrível, e umas silvas, também. Solto-me e fujo até à ribeira. Ela foi-se enlear lá numas silvas. Eu pulei para o outro lado e nem é tarde nem cedo. “Cuide do gado que eu vou-me embora para a da minha mãe”. Ela, entretanto, calçou o sapato e foi para mais acima e disse-me para não ir embora, que me dava pão com mel para eu não abalar.

Outra que me pareceu: o marido da patroa disse-me para eu cuidar bem do gado e que quando a bacorinha tivesse bacorinhos, o melhor seria para ele e o segundo melhor seria para mim. Eu fiquei todo contente. Quando ela teve os bácoros eu pensei “este é o do patrão e este é o meu”. Ora, ia comer, quando a comida dava, que às vezes poucas vezes dava, mas dava uma bucha de pão e uma bucha de sopa. E ela: “quem pariu os bácoros, pariu um morto”.

O já o bácoro tinha uns dois meses. Ele vendia-os com uns três meses. E eu disse-lhe que o meu bacorinho não se vendia e ele respondeu que o meu foi aquele que a porca teve morto. Eu disse “patrão isso não se faz a uma criança que eu sou, um inocente”. Fiquei sem o baco. Ele vendeu-o junto aos outros e não me deu nada. É a criação dos tais ‘javardores’ que eu lhe digo. Foi mais por causa disso que eu me fui embora.

Coitado de mim. Eu já sabia o caminho, que a minha mãe um dia tinha-me levado à do meu padrasto. Lá fui. E contei tudo à minha mãe. A minha mãe disse para eu não ir para baixo se me tratavam mal e que já tinha dois bezerros e uns cinco ou seis porcos, e tinha lá uma sobrinha que cuidava dum lado “e tu cuidas também”. “Mas não ganho nada! E ali ganhava cinquenta escudos por ano”.

Depois arranjei um dinheirinho com uns canudos que fiz para proteger os dedos na ceifa. Uma mulher deu-me uns dez escudos. Apanhei uns peixes barbos e umas eirós e vendi a um homenzinho que andava a fazer carvão e a cortar sobreiras e azinheiras. Comprei dois bácoros. Custavam dez escudos cada um. Quando estavam duas porcas já boas o meu padrasto dizia que era melhor eu vendê-las. Os bácoros rendiam dinheiro. Eu já tinha comprado também um borrego. Vendi o borrego a um homem de Monchique. Arranjei oitocentos escudos.

Eu não gastava dinheiro nenhum. Tinha uns nove anos mais ou menos. Foi quando veio o tal vento do ciclone. Comprei um bezerro que me custou oitocentos escudos. Vendi o bezerro, já grande, por uns seis contos, ou o que foi.

Comecei a andar por aí nas casas dos lavradores e a olhar para as raparigas e tal, na brincadeira com elas, e elas brincavam comigo que eu era bem-parecido, sabe? E dava em comprar umas brincadeiras para elas… era assim. E o dinheiro começou a enfraquecer.

Comecei a trabalhar por fora. Cuidava de porcos. Mas depois vinha o tempo da ceifa e ia ceifar. Lá me fui criando. Depois veio a barragem de Silves e eu abalei daqui sozinho e arranjei para lá trabalho.
A mulher foi também. Arranjou lá um patrão, um engenheiro, para ajudar uma filhinha que eles tinham. Eramos já conhecidos e arranjámos logo um pequeno namoro, aos dezoito anos. Lá fomos vivendo e junto-me com ela. Eu trabalhava a fazer carvão com a malta e ceifava e fazia na agricultura. Trabalhava como podia.

Havia uns moços que tinham uma debulhadora para debulhar trigo e uns tractores para lavrar e chamaram-me. Trabalhei com eles aí uns dezasseis anos. E ele enganou-me. Ele era um moço da minha idade. Agora está aí e tem um Alzheimer na cabeça. Está mal. Ele descontava do meu ordenado seis e meio porcento. Ainda ia a Beja e metia de lá uma carta a fingir que a carta vinha de lá. Mandava às vezes uns nove dez contos do dinheiro que eu descontava.

Passou-se uns anos. Em 1970 fui para um tractor que ele tinha ali na barragem para fazer os muros de terra. Levava para ali dias e noites. Era até acabar. Aprendi com o rigor do tempo.

Um dia fui a Odemira saber o que tinha de Segurança Social. Nada! E eu já tinha nesse tempo uns 16 anos de trabalhar com ele. Com essa coisa eu disse “vou-me embora, e já”! “Não te vás embora! Então que jeito tem de te ires embora?” “Isso não se faz e não é assim que eu faço”. Abalei e fui trabalhar para o caminho de ferro no outro dia. Andei lá onze meses.

Depois fui trabalhar para um patrão que tinha comprado uma debulhadora. Ofereceu-me um ordenado bom, umas três vezes mais do que eu ganhava nos caminhos de ferro, e eu fui. Eu com as debulhadoras fazia o que queria daquilo. E o pessoal que trabalhava comigo, eu fazia-os trabalhar, pois tinha de ser assim.
Depois fui ter com um moço amigo meu, que tinha um dinheirinho. “Vieste da França, eu tenho 20 contos, compra-se um tractor e vai-se pagando, que eu tenho por aí trabalho à farta”. E ele disse que estava bem. Fui a Silves comprar um tractor. Custava cento e vinte contos. Demos quarenta e ficámos de pagar o resto. De três em três meses íamos lá pagar uns vinte contos. O tractor foi barato.

Voltei lá depois de um mês e mandei fazer um atrelado. Ainda o tenho aí. Custou dezoito contos. Ainda me ofereceram o dobro do dinheiro por ele. Era um “Ferguson”. Mas estava gostando dele e não o vendi.
Depois compro uma debulhadora boa, nova. Fui a Cuba, mas não à Cuba do Fidel, mas para lá de Beja.

Depois foi uma enfardadeira. Começo a debulhar. Só com um tractor aquilo não me chegava. Vou a um homem que tinha um tractor de rastos. O homem alugou-me o tractor. Fiz a temporada com ele. No outro ano fui a Odemira e comprei um tractor por cem contos. Meto o tractor no reboque e vim até Pereiras. Já tinha o estojo todo. Depois comprei um outro tractor, um “International”. Fiz uma vida grande em pouco tempo.

Fui nascido do nada e fui construindo. De resto já fui um homem remediado, um bocadito. Devia ter uns quarenta anos. Casei com vinte e cinco anos.

RELIGIÃO

Das religiões não sei dizer nada. Há uns de uma religião, outros doutra. Eu sou um católico. A minha avó, mãe da minha mãe, dizia-me “eu sou católica e gosto de tu seres católico”. Eu ainda continuo a ser assim um bocadinho católico, mas para outras coisas não tenho ido. Aos funerais e casamentos tenho ido a quase todos. Este ano fui a mais de duzentos. Em S. Marcos, em Santana, em S. Teotónio, eu sou muito conhecido por causa do meu nome ser Evangelista.

Nunca viajei. Só fui quatro vezes em excursões lá para o Norte que gostava de conhecer. Uma vez foi por dez dias, outra por seis e outras duas, só três dias. Dormi no Porto, dormi em Braga. Fiquei a conhecer aquilo quase tudo. Fui ao Bom Jesus de Braga, fui ver o caminho da cruz, a vida de Cristo [a Via Sacra e os diferentes momentos da paixão de Cristo]. Fui ver lá em baixo onde eles apanharam o homem, tinham depois outra ermida mais acima, onde o mataram.

Eu sei que aquilo é tudo pantominices tudo coisas de padres. Tem uma coisa, a gente confia no que se quiser e aquilo não é de confiar. Não aconteceu nada daquilo. Fui ver como pertencia, como se fosse crente, com respeito, mas eu não confio.

Eu não acredito em nada, o homem tem o seu lugar na igreja, no casamento ou morre uma pessoa… e é assim. Agora certas coisas não confio. Ainda há dois anos fui a Fátima para ver lá o ambiente daquilo. E as pessoas coitadas, pobrezinhas, mas oferecem lá uma coisa, o cordão que têm ao pescoço, lá vão dar aquilo ao padre. E ficam na mesma. E a boneca, fizeram-na e puseram-na lá. E é assim.

ESCOLA

Tinha já 45 anos quando uma vizinha disse a um grupo de nós, uns nove ou dez homens, que fizesse a quarta classe. Eu não sabia coisa nenhuma nunca tinha ido à escola. Fui. Aprendi a copiar e às vezes a minha mulher ajudava.

Chegou a altura e marcamos para exame. Lá fomos. “Eu preciso é do diploma para tirar a carta de tractor”. E uma agarrou-se a mim e disse para eu estar à vontade, “isto leva já um diploma”. Eu para ali escrevi e ela também me ajudou e toma! Já está bom. Diploma da quarta classe, aí vem ele. Tirei carta de tractor. De motorizada já tinha, que o Sabino, em Odemira, deu-ma. Quando fui tirar a carta, eu falei de uma carta de ligeiros, inocentemente, mas o homem disse que não que com a vida que eu tinha precisava de andar com reboque e tudo, e dá-me a carta de pesados. Fiz o código de ligeiros na altura.

Sou amigo das letras, mas sei pouco. Não tive tempo para aprender. Andámos ali quarenta horas, a hora e meia por dia. Logo quando fui para ali andava a lavrar os dias inteiros e as noites também, no Inverno para se fazer as sementeiras. Vinha de lá e ia para escola. Eu estava desejando era de fechar os olhos. Então de letras sou um anjinho. Lia pouco, não tinha prática disso, e também não tinha vagar.

Agora já tinha vagar, mas já se vê mais mal. Já não vou para lado nenhum. Com o diploma fui a Odemira, ao Dr. Juiz, para me passar o juramento. E andei cinco anos como guarda da caça.

BALHOS

Assobiar ainda assobiava uma musiquinha. O raspa. Era para os balhos. Era um tocador a tocar e agente agarrados às moças e vamos embora de volta. E depois acontecia o que havia de acontecer.

Uma vez havia uma que era mais velha do que eu. Era do tempo dos dezoito anos. Ela namorava um rapaz que eu conhecia e convidou-me para ir a um balho à do Inácio Guerreiro. “Há lá uma rifa de laranjas, um jantar, uma fiada… vamos lá que eu estou convidada para lá ir”. “Eu não estou convidado, mas sou amigo lá da malta”. “Vais comigo”. “Então, e o teu namorado?”. “O meu namorado vai a uma morte de porco à do Augusto da Fonte Corcho”.

Ele embebedou-se e chegou lá era uma meia-noite e tal. Lá estivemos. Ofereci-lhe um café e fomos beber uma aguardente e comer uma filhó e uma chávena de café. Cinco tostões, tudo. O Joaquim Abel, o namorado dela, bebeu um copo de aguardente. Eu comi uma filhó e um copo de café e ela também. Eu paguei aquilo tudo. Depois desafiei a Rosa para irmos embora: “Vieste comigo, queres ir comigo?”. Ela foi perguntar ao namorado e ele respondeu-lhe: “Então, com quem é que tu vieste?”. Eu fui ao pé dela e disse-lhe:

Ó Rosa, queres ir comigo
Ou queres ficar na roseira (que era no balho)
Esta noite cai orvalho
E Rosa molhada não cheira

Eu abalei de lá mais ela. Fomos andando por aí fora de braço dado, de madrugada. Ela tinha mais quatro anos do que eu, é claro que ela é que era a professora da música. Chegados à foz de um barranco ela diz que estava cansada, que tinha trabalhado todo o dia e depois ali no baile… “estou cansada”. “Vamos descansar debaixo ali de umas árvores que está ali um lugar bom”. E lá fomos. Descansámos lá. Estivemos lá dormindo, às vezes, até quase de dia. E fomos embora para casa.

Havia uns ‘tocadorezitos’ de duas escalas. Nos montes fazia-se balhos. Andavam aí nas mortes de porcos. Acabava-se de arrumar as coisas das mortes de porcos, as carnes e tudo, começava o balho. Uns iam comer torresmos. Elas às vezes faziam as farinheiras de milho. Vá de paródia, vá de balho até de ‘madrugadota’.

CAÇA

Pesco pouco. Há pouco peixe. À barragem ainda fui umas vezes aqui há anos, mas depois deixei-me disso. Caço. Ainda caço, mas agora já é mais caça grossa. É de espera. Os cães vão desemalham e vindos cá ao pé da gente vê-se se se pode matar.

Ainda ontem fui à caça, mas não matei nada. Choveu. Outro dia matámos quatro veados.

Tive uns tempos de caça aí que às vezes até perdia de ir lavrar por causa disso. Dei em matar bem. Comprei uma boa espingarda. Todos os dias trazia uma saia de perdizes. Às vezes, logo da parte da manhã, saia uma lebre e eu não as matava. “Deixa-te estar aí que eu mais logo volto para ti”. Depois abalava para fazer um bocado de lavoura ou semear a um individuo e à tarde ia dar uma voltinha para apanhar a tal lebre.

Éramos companheiros. Íamos tomar uma serra. Íamos quase sempre cinco. Eu tirava um cartucho dos meus para dentro do boné e cada um punha um cartucho seu. E mexia-se e vai de mão para dentro sem ver e o primeiro cartucho era da ponta direita e os outros era tudo a seguir. Caçávamos em linha. Cada um caçava para si. Chegava-se a um pontal. Faltava às vezes o de baixo que tinha a volta mais comprida. Se a gente se vai adiantar o outro vem aqui e depois sai uma peça de caça, ele atira e alveja um da gente. Isto é assim. Se algum quisesse adiantar: “Alto aí, volta para trás”.

Agora não. Uns já la vão, os outros ainda vêm. Isto não vale nada. Se um gajo atira à peça o gajo que está pela frente não pode apanhar com uma rajada de chumbo? Pode! É a tal ganância… A pessoa antigamente era mais inocente um bocadito. Mas de parvidade há mais agora. Pode ser estudado, mas há certas coisas que…

COMUNIDADE

O sabe-tudo ainda não apareceu, mas saber um pouco de estudos e um pouco da vida, de tudo um pouco, é melhor. A pessoa hoje tem mais ganância do que nesse tempo. Havia além um lavrador ou um filho adoecia. “Ah, o fulano está muito mal”. Abalava-se e levava-se o melhor queijo ou uma laranja e iam lá oferecer ao doente. Hoje ninguém vai ver um doente a lado nenhum. Ele adoece e vai para o hospital, mas se estiver em casa ninguém o vai visitar. Nesse tempo ia a vizinhança toda e conversavam ali e discutiam esta ou aquela mezinha.

A melhor mezinha é aquela que nos faz bem. Conheço algumas. Conheço muita planta. Há uma, fiz uma vez por causa da dor no joelho, com limão e alho, esfrega-se dentro de uma coisa com o alho ‘esborrachadinho’, depois põe-se num pano em cima do joelho à noite ao deitar e aperta-se. É a melhor coisa que há. E foi. O alho é uma das melhores coisas que há.

Antigamente havia pessoas que sabiam disso. E de benzeduras. Estava ali uma moça que andava para ali a dizer que tinha um olhado. A mulher fez-lhe uma benzedura e ela ficou boa, ao fim de meia hora. Era um olhado. Havia coisas que lhe chamavam de bruxedo. Havia aí pessoas que se inclinavam para o bruxedo. Eu nunca tive essa coisa de bruxas. Se estiver mal e dizerem-me que estou bruxado, calhando, terei de confiar. Uma pessoa quando está mal confia em tudo. Mas nunca vi. Aqueles que amanham, há uns que fazem de borla há uns que não fazem sem dinheiro, pois há gananciosos para tudo É assim. Há de tudo.

ACONTECIMENTOS

O maior acontecimento daqui foi quando fizemos uma Junta de Freguesia. Eu com o meu tractor ajudei muito. Fizemos uma igreja grande que ali está, e um cemitério. Tudo pelo povo. O Aníbal Simão mais o Dr. Justino ajudaram nisso tudo. Eu com o tractor levava as manilhas, o cimento, a brita. A inauguração dessa Junta de Freguesia foi talvez em 1982.

O presidente, lá de Odemira, tirou-nos daqui a Freguesia. Até me zanguei com ele. “Eles mandaram-me tirar as freguesias”, “mas tiraste todas da CDU, as Pereiras, Zambujeira e Bicos. Foi ou não foi? Tiravas uma de cada partido, que o teu dever era esse”. Eu nunca andei metido em política.

O 25 de Abril de 1974 foi uma festa grande. Fomos todos para a ribeira. Uns com mesa outros com carne e bebida para toda a gente. Foi uma paródia. Um balho à sombra dos freixos, que aquilo nesse tempo já fazia calor.

Andavam aí uns indivíduos que pertenciam à PIDE. Mas o pessoal não ligava a isso. Eles também eram amigos da malta. Um tinha um comércio e o outro era o regedor. Era o Canelas. Caçava com a gente. A gente sabia o que eles eram e então não abríamos o pio ao pé deles porque, os que eles não gramassem, já se sabia que eles iam logo cortar-lhe as unhas. Ninguém foi preso. Não teve dúvida. Era tudo gente humilde.

Temos uma estação dos caminhos de ferro, mas o comboio não pára aí. O meu filho foi com os presidentes de Odemira, das Amoreiras, de S. Martinho e de Luzianes a Lisboa com um abaixo-assinado para ver se o comboio parava pelo menos em Sabóia.

Mas tem outra partida que eu me dei graça. Há ali um aterro da linha que começou a baixar. Eles juntam-se além todos. Um dia, eu tinha ido apanhar medronho, e vinha para cá. Estavam lá uns três engenheiros. “Então o que é que se passa aí?”. “O aterro está a descair e não damos conta daquilo, não sei se é água ou o que é”. “Antigamente chovia muito aí. A CP andava bem munida, no tempo do outro patrão, e agora não anda”. “Então porquê?”. “Antigamente punham duas máquinas num comboio, uma à frente e outra ao meio. Agora não. Vejo-as passar aí, um museu que é um disparate, e vão tocando com as ventas uma na outra. Qual é o aterro e a ponte que se seguram com um peso daqueles por cima?”. Agora fizeram uma parede e a água corre lá por cima.

A CP, ou pouco ou muito, nestas estações todas, apurava algum dinheiro, que a gente ia sair no comboio muita vez. Eu preciso de ir a Faro, outros precisam de ir a Portimão ou a Lisboa. “Os comboios passam aí, mas não param, não têm falta de dinheiro?”. Havia muito movimento antigamente. Os comboios andavam sempre cheios. Agora andam mais vazios.

Quando foi o acidente de 1954, eu morava ali ao pé. Estava arranjando o monte e ouvi o comboio a apitar. Era o rápido. Oiço um barulho e ouvi partir, olho para a janela e vejo o carril a jogar pedras para o ar. “Eh pá, o comboio descarrilou ali”. Fui a fugir até ao debrum da trincheira. Estava um “poeiredo” que tapava tudo. Partiu-se uma parte do carril que tinha umas juntas. O comboio ia na brasa e foi com a máquina arrojando e parte o engate, uma carruagem pula para cima da outra que estava já atravessada e foi aí que matou o pessoal. Jogou a malta toda fora pelo aterro abaixo.

Houve um que foi por aí abaixo fugindo do meio de uns bicos, olhou para cima e disse “já me safei”, abalou pela estrada acima fumando um cigarro.

Eu fui também para baixo. O “poeiredo” acabou e o fumo também. Cheguei ao pé da carruagem e peguei uma criancinha de colo e coloquei-a ali na valeta que a mãe já se tinha… Estive lá a ajudar. E depois fiquei lá de noite cuidando dos mortos. Ninguém me agradeceu de nada.

FAMÍLIA

Tenho dois filhos. O Leonel, que quando o Aníbal Simão saiu, fez dois mandatos na Junta de Freguesia. O outro meu filho é o José Artur. É agora o presidente do campo da bola.

Tenho um irmão que mora ali ao pé de Alverca, na aldeia das Areias. Chama-se Dimas Manuel. Tenho uma irmã que mora em Silves, tenho outra irmã que mora ao pé do Cristo Rei, a Maria Dolores e tenho outra que está para ali em Tavira, a Amélia. As duas são filhas do meu pai depois de a minha mãe o deixar. E a que está em Silves e o meu irmão são filhos do meu padrasto. Eu sabia que elas haviam. E foi quando tinha uns quarenta anos que as conheci.

Tenho 87 anos feitos a 25 de Novembro. Festejo às vezes, conforme calha. Quando os filhos têm vagar faz-se aí uma jantarada. Outras vezes, com alguns amigos. Antigamente festejava-se os anos com uns almoços e umas paródias, às vezes com um tocador, um “balhozito”. Andavam ali uns agarrados aos outros. Outras vezes na pobreza, que havia muita pobreza nesse tempo que não havia ninguém reformado. Os pobrezinhos andavam com um alforge às costas para lhe darem uma batata para irem coser numa lata em baixo de um sobreiro. Outras vezes iam dormir ao monte e era normal as pessoas darem-lhes o jantar e de manhã muitas vezes davam alguma coisa ao velhote antes dele abalar. Nesse tempo era a sorte dessa gente. Outros morriam aí debaixo de uma sombra. Às vezes cansavam, ficavam doentes, morriam e ali ficavam até os encontrarem.

No meu dia-a-dia, trabalho para mim e trabalho para os outros. Às vezes ainda faço uns serviços com o tractor. Ainda tenho o mesmo reboque que tem perto de uns cinquenta anos e trabalho por aí. Tenho uma hortinha. Nunca me agarrei ao estado para me dar uns subsídios. Faço um “azeitinho” para casa.

Toda a gente me conhece e tenho amigos por todo o lado que é um sarilho. É verdade. Se vou, às vezes, a algum lugar, a uma feira, com a mulher, ela diz “eh que raio que toda a gente o conhece”. É tudo amigo e a rapaziada vem aqui.

Em Odemira não me conhecem todos, nem em Ourique ou em Santana, mas a maior parte conhece-me. E vou aí a paródias e levo o tal “garrafoilho”, uma garrafinha em pó de pedra como se usava para o petróleo antigamente, e metia lá aguardente. Vou a muitas paródias.

Este ano não tenho aguardente. Vendi o medronho. Este ano está mau por causa da seca.

Tenho um carrinho, um ‘mata-velhos’, mas os outros matam-se mais do que os velhos. A estrada é um canhão que está virado para as pessoas. O que é que se há de fazer?

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