Tia Judite Conversa na Herdade da Gama, Vila Nova de Milfontes

Judite da Conceição Parreira

Nasci no Castelão. Em casa que na altura não havia outros sítios para nascer. Tenho 90 anos, feitos no dia 7 de setembro (2019).
Éramos quatro irmãos. A mais velha era a minha irmã que se matou. Depois, era o meu irmão Manuel, que tinha diferença de três anos a mais do que eu e depois era o António, o “Toino do Castelão”, como lhe chamavam. Já morreu tudo e eu já não tenho ninguém, só as duas sobrinhas que ainda tenho e que estão em Lisboa. Já foi tudo.
Eu, graças a Deus, tive muita sorte que eu tinha bom feitio. Não era pessoa de me zangar. Era amiga de toda a gente e toda a gente minha amiga. E agora continuo na mesma. E foi a assim que eu consegui fazer o que tenho.
Nunca me fizeram mal porque eu fui sempre muito vivaça desde pequena.
A minha vida dá uma história muito grande.

CASTELÃO

Quando eu nasci, não me lembro de ser pequena, isso não medi eu. (risos)
A primeira coisa que me lembro quando era pequenina é de quando ia lá para a venda do meu pai. Eu era muito brincalhona. Vinha o carnaval e queria que me vestissem todas as noites para que me dessem um ‘tostanito’ para eu dar à minha mãe, não era para mim. Quando as pessoas vinham do trabalho, eu dizia logo “vão-me vestir que estão quase a chegar”.
Eu fui à escola lá numa casa onde estava a senhora professora, quando se vai para troviscais, que foi para o Reguengo, a dona Joaquina. Mas nesse tempo as pessoas trabalhavam muito. Estava a casa cheia e a gente estava assentada cá fora que já não havia campo. Aquilo era uma professora que a gente lhe tinha um respeito… e aprendíamos ali muito bem.
Aprendi a ler, a escrever e a contar. A professora era boa. Ela dava castigos e ainda dava com uma cana que lá tinha.
Eu sempre fui muito amiga de rir. Havia lá um rapaz, que era o António da loja. A gente era só olhar um para o outro que ficávamos logo rindo. E lá estava logo a cana a trabalhar. Ela punha a gente de castigo, mas o que é que ela faz? Tinha uma cozinha. Mandava-me lá para fora e o outro para a cozinha. O toino da loja era muito brincalhão. Uma vez, lá na cozinha, comeu-lhe o almoço. Ela ficou tão zangada, tão zangada… mas então? Ele já lhe tinha comido o almoço. Já estava no papo.
Fui crescendo. Saí da escola tinha uns nove anos. Nem sequer fiz a quarta classe porque a minha irmã mais velha estava lá em casa e engravidou do sapateiro. E eu tive de sair da escola.

VENDA

Fui para o balcão com uns nove anos. Era uma gaiata, mas uma gaiata logo assim traquina. Naquele tempo era um balcão de tábuas, que era mais pequeno do que o que lá está agora. Punha-me em cima de uma caixa para aviar os fregueses.
Foi o meu destino que me deu orientação. Eu, de gaiata pequena, tive logo esta coisa. Havia uma ponta de mediação dentro de mim, porque os meus irmãos tinham tudo e eu não tinha nada. À minha irmã, coitadita, aconteceu-lhe o mesmo. E eu pensava “eu trabalho, trabalho e o meu pai ainda me trata mal”. O meu pai batia-me muito, sem eu merecer. Era por qualquer coisa. Os moços iam mexer nas minhas brincadeiras. Eu começava a esgrimir e ainda levava mais do meu pai. Mas a minha mãe foi uma santa mãe. Era orientada! Houve alguma mulher que trabalhasse como a minha mãe?
No Castelão, aquela venda era uma casa que vendia de tudo. A minha mãe amassava aquele alguidar quase todos os dias e no sábado era duas vezes. O alguidar levava uns 75 kg de farinha, que dava aí uns 70 pães. O meu pai era lavrador matava dois porcos quase todas as semanas.
Quando a gente ainda não tinha uma moagem, vinha lá de Odemira um carro, todos os dias, com doze sacos de trigo para trocar. Sabe quem é que os ia trocar? Era eu, a gaiata. Depois é que o meu pai, mais tarde, fez a moagem que ainda lá está. Até moleira eu fui. Cheguei a ter um troco de farinha, que eu fazia ali na moagem, na Boavista dos Pinheiros e outro em Troviscais. Veja lá.
Eu estava ao balcão, mas o que eu gostava mesmo era de picar a carne e fazer aquilo tudo da matança dos porcos.
A tia Luísa Grande, como lhe chamavam, orientava aquilo e eu estava sempre a insistir “minha mãe deixe-me lá ir para a tia Luísa”. Eu gostava muito da tia Luísa, era como a minha segunda mãe, naquela altura. E ela lá me deixava ir, aos poucochinhos, mas não podia ir muito porque era eu e a minha mãe que estávamos na venda.

IRMÃOS

Os meus irmãos nunca venderam nem um copo de vinho. Éramos só as moças. A minha irmã Maria e eu. Depois a Maria juntou-se lá com o sapateiro.
Os meus irmãos andaram lá na escola. O meu irmão Manuel foi o único que ainda teve a oportunidade de ir para Lisboa. Foi para lá com uma senhora do Leonardo (um café no Castelão da Dona Celeste, que morava ao pé da farmácia antiga), mas o apartamento era num quinto andar. A minha mãe foi para tratar dos papeis todos, mas o meu irmão não quis por lá ficar e disse: “mãe, quando você abalando, eu jogo-me lá para baixo”. Ela teve medo de o deixar.
Ele nunca passou porque andava por lá sem fazer nada. A única coisa que vi notícia de ele fazer era ir para a máquina debulhadora que o meu pai tinha.
O António esse andava por aí na boa-vai-ela.
Os meus irmãos não ajudavam nada a gente. Iam para o Leonardo (nessa altura o meu pai também tinha o Leonardo arrendado) mas não era para estarem vendendo coisas. Nunca foi cá moços a vir para ajudar, nem coisa nenhuma. Uma tia minha é que cuidava daquilo.

NAMORO

O meu namoro foi com um rapaz que era daqui da Herdade da Gama, o Augusto da Gama.
Dizia-se que era bom vir ao mar apanhar um banho de S. João, que era bom para o fígado. Para limpar. A primeira vez que fui tomar banho no dia de S. João, lá a Vila Nova de Milfontes, com a tal combinação, que ainda se usava, fui de barco com umas pessoas amigas que eu não saía de lá com qualquer pessoa, tinha de andar sempre com moiral, tinha de andar sempre bem guardada.
A gente fazia sempre balhos no castelão e julgávamos que havia em Vila Nova algum mastro ou alguma festa, mas não havia nada.
O Augusto estava lá mais uns outros. Ele também não fazia nada, só tocava a concertina.
Assim que viram lá aquela rapaziada nova, começaram a dizer: “vamos buscar a concertina”. O Augusto foi na bicicleta a pedal buscá-la. Sentou-se numa cadeira, lá no adro da igreja de Vila Nova, e vai de tocar e toca a gente de balhar.
Vi para lá o rapaz, mas, a mim, não pensei nunca cá nada. Aquilo passou, não muitos dias, quando ele aparece, na sua bicicleta a pedal, lá no castelão. E foi aparecendo, aparecendo e o namorico começou.
Começou a ser um namoro quase que arranjado porque aos meus pais, como ele tocava a concertina, e eles tinham lá a casa do Balho, convinha-lhes também que ele lá tocasse.
O namorico era eu cá dentro do balcão e ele lá do outro lado. Nada de misturas. Eu perguntava-lhe se ele não se ia embora com a mãe e com as irmãs e ele: “eu logo vou”. Mas era uma bebedeira quase todos os dias. Eu já tinha assim qualquer coisa a dizer e disse-lhe: “então agora a apanhar uma bebedeira todos os dias, isso é algum governo?”, e ele, “ah, então? Se estou aqui, não hei de estar de braços cruzados”. E pronto. Durou ainda muito tempo, uns três anos. Eu casei tinha vinte anos.

RONCÃO

Quando casei vim para o Roncão que era do sogro do Dr. Galvão. Estive lá uns cinco meses sem arranjar e depois arranjei a minha Maria, a minha filha. Eu sempre pensei, na minha vida, em ter mais filhos porque acho que um casal só com um filho não tem grande coiso. Mas o destino, por jeito, não quis. A mulher que me foi lá assistir fez-me uma açordinha, como era para fazer, pôs lá a minha filha ao pé de mim e disse: “trate bem desta mocinha que você já não tem mais nenhuma”. A minha mãe teve a gente os quatro e a minha sogra teve nove filhos. E eu pensei “e agora isto vai já seguindo assim?”.
Estive seis anos no Roncão. A minha vida era fazer comer àquela gente toda: aos criados, aos moirais e a todos os outros. Eu quase que nem me deitava.
No tempo da cava de milho, ia cavar milho que o meu pai dava o milho para a cava. Eu disse ao Augusto: “tira lá uma horta boa que o milho está aí tão bom”. Volta-se ele para mim: “uma horta boa? Então, pensas que eu estou aí para cavar milho”. Ele não era de trabalhar.
Eu tinha um primo, o José Rechaca, que andava com um burrinho e ia levar ostras a Odemira. O homem arranjou uma data de dinheiro nisso e emprestava dinheiro a qualquer pessoa. Ele era meu vizinho e ia lá a casa almoçar, quase sempre. “Vizinho, se eu precisar de um dinheirinho você era capaz de me emprestar? Eu pagava-lhe os juros.”. “Ó prima, é o que quiser”. Pedi ao meu primo um conto e quinhentos. Escolhemos uma horta boa. Eu amanhecia lá e anoitecia lá. Foi no ano em que me casei, há setenta anos.
Uma tia minha estava lá no castelão e foi também cavar uma horta de milho ao pé da minha. O meu tio era outro malandro, tal e qual o Augusto. Punham-se fumando lá debaixo de um chaparro e eu cavando a horta de um lado e a minha tia do outro e eles rindo-se e falando em mulheres e contando piadas.
O milho foi sendo cavado. Aos domingos as pessoas eram livres dos patrões para fazerem o que quisessem. Eu, ao fim de semana, dava mais um dinheirinho às pessoas, para ajudar, e ainda matava um galo ou dois e levava vinho e um lanchezinho. Estava lá a família toda de vale Bejinha.
No primeiro ano fiz logo dez contos em milho. Quem o vendeu, foi o meu pai, e ficou com o dinheiro. Fiquei ainda com milho para os porcos e para as papas. Naquele tempo, comia-se muitas papas.
Eu fazia os alqueirados às pessoas. Era 50kg de farinha, dois litros de azeite e era quatro ou cinco de grão ou feijão. Mas a farinha que eu não gastava, vendia à minha mãe. E foi assim que comecei a minha vida.
Sempre estive ligada ao negócio. Queijos de ovelha até eu fiz. Cheguei a ir vende queijos a Setúbal numa bicicleta a motor que ainda lá tenho. Uma florett que ainda trabalha.

GAMA

Quando depois saí dali, porque o Dr. Galvão quis fazer a herdade, vim para a Herdade da Gama. A minha sogra estava aqui sozinha mais a filha (a irmã do Augusto) e a neta andava já em Odemira estudando. A minha cunhada estava desejando de eu vir, para ela ir embora para o pé da filha. Comprou lá uma casinha.
Trouxe para aqui um gado. Com a minha sogra isto estava tudo morto. O meu cunhado, ia para a venda todos os dias (beber).
Mas eu não vim para aqui de qualquer maneira. “Vou lá para a Gama mas eu tenho que ir estar com a dona da Gama porque a tua mãe é rendeira mas não é a dona”. Um dia, fiz-me a caminho da dona da Gama, de bicicleta a motor, com o Augusto. Era para ele dizer, mas ele dizia agora cá? Ele não atava nem desatava. E disse eu “olhe, dona Ida, sabe porque é que a gente cá vem? Eu vim aqui com o Augusto porque a minha sogra quer que a gente vá lá para a Gama, mas a Gama não é dela, é da senhora e, se a senhora for da opinião de eu ir, eu vou, se não for, tomo outro rumo (que o meu pai queria que a gente fosse para o Leonardo)”. Então ela disse “ah Judite, isso é um favor que você me faz!”.
Ela era muito amiga da minha sogra e o meu cunhado era muito ruim para a mãe, queria era que ela lhe desse dinheiro para ele ir para a venda e a mulher passava aqui as passas do coiso. Depois, a Chica ainda abalou para Odemira para a filha ir estudar. Estava a mulher aqui desgraçada. Fiquei aqui.
Aqui na Gama fui fazendo blocos para a primeira casa e as paredes em volta lá do no meu quintal (em Vila Nova de Milfontes). Fiz eu todos, sozinha.
Eram de cimento e areão. Depois fiz o resto dos blocos para a casa lá no meu quintal. Aquilo pesava uns vinte e tal quilos. Tinham uns vinte de largo. Não havia mulher nenhuma que fizesse aquilo. Eu fiz tanta coisa de homem, mais coisas de homem do que de mulher.
Eu parece que nasci sempre para aumentar. Porque, aos meus irmãos, o meu pai dava-lhes uns bezerros e a mim não me chegou a dar coisa nenhuma. Eu andei sempre com aquilo na minha ideia: “deixa estar que, quando eu sair daqui debaixo desta pedra, eles hão de ver o que aqui está”. E, graças a Deus, viram. Eu ao fim de pouco tempo tinha mais valor do que o meu pai tinha.
Foi lá, na minha casa em Vila Nova de Milfontes, que comecei a fazer os balhos.
Mais tarde comprámos a Gama. A dona Ida tinha um filho que era também uma desgraça. Ele queria era daqueles carros de alta cilindrada. Não havia dinheiro que lhe chegasse. Quando a senhora morreu, ele foi vendendo as coisas e vendeu-nos a Gama e ali os Salgados.

BALHOS

Os músicos vinham de todo lado. Eu, quando dava notícia de um que fosse bom, ia logo angariá-lo. Contratava-os por ano, logo antes dos outros os contratarem. O Leonel Mateus fazia umas quatro ou cinco vezes por ano. E todos os outros que tocavam melhor. E as minhas moças (as netas Ana e a Teresa Caetano) foram umas moças tocadoras que correram aí tudo. Ó criatura, até para o estrangeiro elas foram. Não foram mais porque tinham de estudar.
Foram lá uma vez tocar ao Castelão, os “Príncipes do Ritmo”. Dois irmãos a tocarem tão bem que eu fiquei logo viajada com aquilo. “Ai, se eu tivesse umas pessoas aí, gostava tanto que tocassem assim”. Depois vieram aquelas duas mocinhas, fui logo inscreve-las lá em Sines para elas aprenderem a tocar. Puxei por elas para serem tocadoras.
Agora todos na casa tocam. Tocam as minhas moças. Toca a minha Teresa, e toca o homem dela e tocam os dois gaiatos, os meus bisnetos, uns que foram lá para a cozinha do Master Chef. E ainda fizeram um disco com o Goucha.
E tenho uma bisneta que aquilo é uma coisa… Está na Ribeira da Azenha que a família é de lá. Aquilo é umas pessoas para trabalhar e umas pessoas do melhor. Têm tanta freguesia que é um disparate. Pois se trabalham bem e não levam muito caro…
Nem me perguntem quantos balhos fiz, que isso eu não sei dizer. A minha vida foi de balhos. O património que eu arranjei, tudo aquilo que lá está, não foi derivado aos balhos?
Eu tinha uma maneira: ganhava o dinheirinho e ia empregando. Ia mandando vir uma carrada de tijolo. Quando tinha lá as coisas, arranjava dinheiro para pagar aos mestres. E fui fazendo as casas que tenho de pouco em pouco. Quando vinha o verão, aquilo dava bom para arrendar. Mesmo ainda sem telhado, só com a placa, eu mobilava e arrendava. Fazia mais dinheiro. E o que ia apurando ia empregando ali. Tudo aquilo que lá está foi sendo adquirido assim. Não ia passear como agora que toda a gente vai de férias para aqui e para ali, para o estrangeiro, a maior parte das vezes com dinheiro emprestado. Estão empenhados até à cabeça para viajarem. Eu não. Os passeios foram poucos.

RELEGIÃO

Eu sou neutra. Eu não tenho religiões nenhumas, nem nada. Não acredito. Quer dizer, acredito em tudo, mas não sou dessas coisas. Batizaram-me, mas nunca tive vagar para ir à missa católica. Só quando havia uma missa por uma pessoa. Mesmo assim, só quando podia ir porque quase nunca podia. Não sou contra coisa nenhuma, mas não sou também disso, não sou. As pessoas iam ao Castelão, quando eu lá estava, passavam lá, pessoas minhas amigas, cumprimentavam-me é, às vezes, diziam-me “tome lá este livro” e eu “criatura não tenho vagar nem sequer para outras coisas quanto mais de ler livros”. Nunca fui disso.

ATUALIDADE

Estou esmorecida porque só vejo é coisas que eu não gosto de ver.
Acho que isto não vai ter grande fim. Isto é só dividas os hospitais está tudo paralisado que já nem têm se calhar injeções para dar às pessoas. É greves para aqui e para além que eu já não sei. Oxalá que apareça para aí uma alma qualquer que ponha isto de uma outra maneira. Aquele, está lá aquele tempo todo, votámos por ele, mas o que é que a gente vê? É só desgraça!
E agora? Aquela que era a mulher mais rica do não sei o quê. Não veem o que é que é? Eu, se abro a televisão, só vejo e só oiço ali é desgraças. Se vejo o noticiário, é o que é.
Se se quer uma pessoa para trabalhar, não há. Mas elas há. Mas como é isto, sem se trabalhar nem se fazer certas coisas?
A gente quer uma pessoa para trabalhar, mesmo pagando o que elas quiserem, não temos. Quer outra coisa, não há. Aos que vêm e aos que estão, a água, ás vezes, é mal-empregada.
Eu estou no cimo da vida, tenho a minha família, mas não tenho solução para isto.

CARAÍBAS

Na altura que a minha neta mais velha casou, eu fui às caraíbas uma vez. Fomos para um hotel. Parecíamos umas donzelas. Eram duas casitas. Ela ficou na dela e eu fiquei mais a minha Teresa. Fizemos tantas palhaçadas e fizemos para lá um filme com a máquina que o pai lhe emprestou. E a gente ria lá tanto, tanto, tanto.
Havia umas bandas a tocar e nós íamos para lá balhar. Eles balhavam de uma outra maneira, vinham buscar as pessoas dançar, mas a gente apanhou logo aquele compasso.
Todos os dias íamos dar um passeio. Corremos aquilo tudo no Haiti. Mas aquilo era só desgraça. Saiam pessoas daquelas matas que era só desgraça. E eu “então, mas então, eu vim cá para ver tanta desgraça?” Aquilo é muito falado, mas só o que eu mais gostei de lá ver foi aquela areia branquinha e aquela água que se via o fundo do mar, mais nada. Coitaditos. Era só desgraça e eu pensei e cheguei à conclusão: “então, se é para ver desgraça o que é que eu vim cá fazer? Isto é pior que Portugal”.

FRANÇA

Fui também à França. Sabe o que eu lá vi? Vi lá os portugueses numas barracas para juntar um qualquer dinheirinho para trazer para Portugal. Coitaditos, era um sítio miserável. Era para ficar lá um mês. As minhas netas ficaram mais de um mês, até. Fiquei na casa do empresário, que era português. “Então, mas eu fico aqui fazendo o quê?” A mulher era estrangeira, era francesa, eu não entendo o que ela diz. Aquilo era numa aldeiazinha se calhar mais fraca que ali S. Luís, Aquilo não tinha nada que ver. Mas a minha Teresa pegou na carrinha e correu lá aquilo tudo. Mas isso é que eu não sabia que ela fazia. Se eu soubesse, tinha lá ficado.
Na viagem para lá, o meu genro foi com a camioneta com aparelhagem e com a minha Ana, que foi dormindo o tempo todo. Fomos a Toulouse. Eu tinha comprado o meu carrinho encarnado, havia pouco tempo. A minha Teresa tinha tirado a carta, também pouco tempo antes e foi ela a conduzir, mas nunca se perdeu. Pôs uma cassete. A mesma cassete tocou voltada para um lado e voltada para o outro. No fim da viagem, diz ela “minha avó, a minha sorte foi esta cassete”, e digo eu “olha, e foi a minha desgraça, que eu já não sei o que devo fazer com a dor de cabeça que tenho” (risos).
Elas andaram lá tocando. Fizeram para lá uns balhões…
Quando eu lá cheguei, até que apanhei quase que medo. Aquilo era uns barracões ligados uns aos outros. Uma coisa grande, grande, num descampado. Elas iam tocar à noite. Estavam lá os portugueses e eu perguntei: “então o balho foi bom, ontem à noite?” e eles responderam “esteve aqui um conjunto, mas não foi grande coisa”. Mais outros nervos para mim. “Então se esteve um conjunto e não foi grande coisa, agora vão só duas moças para ali… duas gaiatas para cima do palco, o que é que isto é?” Lá estava eu pensando: “tal não é esta barracada?”. Quando veio, ali às tantas, juntou-se aquilo e foi um balhão, um balhão que já não se dava lá quase estado naquilo tudo. Então alguma vez eu pensei juntar-se tanta família?
Aquilo foi muito positivo.

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