Arte em contexto de aldeia A arte é o meio mais livre e despudorado de criar possibilidades

MONTRAS de São Luís Um ponto de vista

Introduzo. Para quem não visitou ainda o evento MONTRAS Mostra de Artistas e Artesãos de São Luís, imagine dois dias em que, numa aldeia, se encerram estradas aos carros para dar lugar à população, ao público, aos artistas, a pessoas de várias idades e origens que se instalam num ambiente de festa. Ao cair da noite lâmpadas coloridas iluminam quem passa e as vitrines das lojas – a maior parte delas encerradas ao longo do ano – resplandecem com o mais variado tipo de artes. Percorrendo a Rua do Comércio encontramos exposições de artesanato lado a lado com arte contemporânea e nos dois dias de abertura o programa oferece desde o cante alentejano à música experimental, desde a poesia de intervenção à dança, à bossa nova, ao teatro, ao cinema.

Desde Agosto 2015 as MONTRAS integram o panorama cultural de Odemira, contando em 2018 quatro anos de organização comunitária, encimada pelo grupo de Transição de São Luís, em parceria com entidades locais, associações e habitantes, acontecendo afirmativamente sem subsídios e exclusivamente a partir da vontade e dádiva dos artistas participantes.

Eu vejo que a arte nas ruas abre possibilidades de mudança. Onde anteriormente se viam várias lojas encerradas, durante os meses estivos São Luís mostra-se uma aldeia reavivada, colorida, criativa, surpreendente a cada Agosto que chega e animada pelas várias mãos que se envolvem para fazer acontecer as MONTRAS. Se, por um lado, celebramos e reconhecemos os artistas e artesãos que habitam ou estão, de alguma forma, ligados a São Luís, as obras artísticas abrem perante nós uma miríade de novos mundos imaginários. Ao nos reinventarmos em conjunto, cada Verão, passamos a olhar para a nossa comunidade com uma visão mais alargada do possível e, ao tomarmos os espaços públicos como nossos, renovamos o sentimento de pertença e responsabilidade pelo colectivo. Para mim é esta a grande dádiva das MONTRAS.

E vejo mais.

Vejo a arte como o terreno fértil que se nutre de contrastes, que transforma divergências em alternativas criativas, que acolhe no mesmo espaço sensações opostas, que coexistem. Assim, a arte é uma estratégia quase mágica de tecer comunidade quando esta se compõe de grupos diferentes entre si, como é o caso de São Luís onde coabitam grupos sociais e culturais distintos, desde a população rural tradicional aos novos residentes provenientes do meio citadino e de países estrangeiros. As exposições e apresentações nas MONTRAS convergem no mesmo espaço linguagens completamente distintas e todas elas têm lugar, são expressas e são vistas.

Para mim, as MONTRAS são sinónimo de diversidade, de fortalecimento das ligações sociais e de alargamento das dimensões do possível. Se me fosse dado formular um desejo de futuro, diria a coragem para continuar a surpreender, cuidando da qualidade e da diversidade das propostas artísticas, ousando abalar através da arte a sensação instalada de normalidade.

* Sara Serrão – Concepção e membro da organização das MONTRAS nas primeiras 3 edições

Sobre o Autor

Em 2015, mercúrio nascia em Odemira como jornal mensal em papel; libertando-se para uma existência apenas digital, com uma presença online renovada e dinâmica, quatro anos depois, corria o mês de Outubro.

Deixe uma resposta