Eduardo de Oliveira e Sousa: “Comer carne de vaca ajuda o ambiente” Afirma o responsável máximo pela Confederação dos Agricultores de Portugal

FOTOS: António Falcão

Presidente da CAP em entrevista ao mercúrio defende desenvolvimento agrícola aproveitando as condições naturais de excepção presentes na região de Odemira

Eduardo de Oliveira e Sousa, licenciado em engenharia e empresário agrícola e florestal no Ribatejo é um dos fundadores da FENAREG – Federação Nacional de Regantes de Portugal. Passou por cargos de direcção em diversas associações e entidades agrícolas, que ainda representa, e é hoje o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), instituição que visa “defender os interesses da agricultura portuguesa no país e no estrangeiro, salvaguardando sempre a componente económica da actividade”.

Participou no encontro de regantes que ocorreu em Novembro passado no conselho de Odemira, do qual foi um dos oradores. Na contenda entre natureza e expansão agrícola, discussão repetida ao longo dos últimos meses na região ocupada pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, Oliveira e Sousa referiu na sua palestra que “os valores naturais poderão até ser prejudicados se houver uma redução da presença dos agricultores e das suas actividades”, reiterando a ideia de que “o modelo de desenvolvimento” encontrado “tem de ter uma compatibilidade com a defesa do ambiente” e que o abandono das terras trás a “desertificação”. Expressando ainda que deixar a natureza entregue a si própria não será opção a considerar. “O difícil é fazer estas obras. Esta está feita. Destruí-la é a coisa mais fácil que há”, rematou no final, numa sessão que foi encerrada pela Ministra da Agricultura da nova legislatura comandada por António Costa.

Após o colóquio o mercúrio averiguou com mais pormenor alguns dos pontos focados no debate.

Quais são os principais desafios que a região de Odemira enfrenta em termos agrícolas?
Creio que foi bastante elucidativo aquilo que aqui se passou hoje. O Perímetro de Rega do Mira é o principal vector de desenvolvimento desta região, que hoje tem a coincidência de ter uma área protegida em sobreposição de grande parte da sua área, não sei se na sua totalidade, e não tem havido uma compatibilização de progresso no sentido de permitir que a agricultura continue a desenvolver-se independentemente de haver determinados valores naturais que têm de ser preservados, dando a sensação, por quem aborda os assuntos da questão ambiental, de que a agricultura é incompatível com esses valores. A nossa posição é contrária. É dizer que as coisas são compatíveis. Pode haver a necessidade de mapear algumas situações muito específicas, mas em termos conceptuais o desenvolvimento deve manter-se possível nesta região, que é uma região que tem características únicas a nível nacional e a níveis da Europa, com capacidade de introduzir no mercado europeu e mundial produtos de elevadíssima qualidade, atendendo às condições que existem nesta região, muito associadas à qualidade da luz e à qualidade do ar, que não se verificam noutras geografias, potenciando valor acrescentado para os produtos que aqui são produzidos, e esse valor acrescentado fica na região. Se não houver uma compatibilização do crescimento que ainda é aqui possível desenvolver, por virtude da salvaguarda dos elementos de conservação da natureza, das duas uma: ou se encontra uma forma de compensar esse travão ao desenvolvimento ou então está a dar-se a ideia às pessoas que o desenvolvimento não é necessário.

Na sua opinião o que deve ser feito para compatibilizar essas duas vertentes.
É as pessoas acreditarem que é possível fazer as duas coisas em simultâneo. Para além disso, a área de desenvolvimento agrícola é uma pequena parte da área ambiental que está definida. O Parque Natural da Costa Vicentina tem 75 mil hectares. Enquanto que a área de regadio tem 10 ou 12 mil e não será totalmente irrigada e desenvolvida com o mesmo tipo de culturas. Porque há outras culturas que podem ser feitas e não apenas as associadas ao plástico, como é costume dizer, por causa do impacto visual, mas que em termos de exploração do solo nada obsta a que as estufas estejam presentes, porque hoje em dia a tecnologia é passível de ultrapassar todas as situações relacionadas com a intensificação agrícola.

Aquela ideia de que dentro de uma estufa se utilizam doses maciças de pesticidas, é mentira. É preciso dizer isto com estas palavras: é mentira. O controle alimentar é absoluto nestas regiões. O conhecimento que está hoje disponível e que é utilizado pelos produtores em termos da qualidade dos produtos, é enorme. Os mercados são exigentíssimos na questão dos resíduos, à limitação aos produtos químicos que são utilizados, e por isso há que ganhar confiança.

“O controle alimentar é absoluto nestas regiões. O conhecimento que está hoje disponível e que é utilizado pelos produtores em termos da qualidade dos produtos, é enorme.”

Transformou-se a luta contra a agricultura intensiva num mito urbano, que está associado a uma forma de estar em termos de postura de defesa do ambiente que não defende ambiente nenhum. As pessoas que mais defendem o ambiente são aquelas que cá estão. Não querem destruir. Não querem destruir o solo, não querem poluir a água, não querem prejudicar o ambiente.

Não é o negócio pelo negócio?
Não. O negócio pelo negócio foi no passado, quando estas coisas não eram levadas ao conhecimento com a profundidade que são hoje. Existem organismos governamentais que fazem o controle sobre estas questões. Não há razão nenhuma, que por decreto, se possa dizer que regadio e agricultura intensiva são incompatíveis com a conservação da natureza, isso não é verdade, a agricultura é compatível, mesmo a agricultura intensiva que aqui é praticada nalgumas áreas é perfeitamente compatível com os elementos naturais que estão em presença. Esta é a nossa posição.

Mostrou um certo cepticismo em relação à agricultura biológica, que se trata de apenas um nicho.
Eu não mostro cepticismo. Às vezes, as pessoas pensam que sou contra a agricultura biológica. Eu sou totalmente a favor da agricultura biológica. O que eu acho, e tenho a certeza, é que não é a agricultura biológica que vai viabilizar grandes territórios, nem resolver os problemas da alimentação mundial, se essa fosse uma imposição no mundo inteiro precisávamos de três planetas para alimentar a população que o mundo já tem, quanto mais com o dobro da população que vai existir daqui a 30 anos quando chegarmos aos 10 mil milhões de habitantes. Portanto, a agricultura biológica é uma agricultura que é feita com um determinado modelo, dirigida a um determinado cliente, a um nicho de mercado, que tem o seu lugar. E à medida que esse nicho for crescendo a agricultura biológica irá invadir outras áreas. Porquê? Porque passa a dar dinheiro. Agora, não é dizer que a agricultura biológica é compatível com a conservação da natureza e a outra não é. Isso é que não é verdade.

“Nas pastagens biodiversas a fixação de CO2 no solo é superior ao CO2 equivalente que é emitido pelas vacas.”

Sobre o assunto pertinente da relação entre a produção pecuária e a sustentabilidade ecológica.
Está a falar dos gases com efeitos de estufa? É outro mito. Principalmente é um mito totalmente inválido quando falamos em gado que está em pastagem. Nas pastagens biodiversas a fixação de CO2 no solo é superior ao CO2 equivalente que é emitido pelas vacas. Porque o principal gás com efeito de estufa que elas emitem é o gás emitido pelo bafo, pelo arroto, e não associado ao intestino. E o gás que é produzido pela respiração é o metano e este é muito mais poderoso em termos de gás de efeito de estufa do que o CO2, e essa transformação, mesmo assim, associada à capacidade de retenção de CO2 no solo pelas pastagens onde as vacas se alimentam o balanço é positivo, atendendo ao número de vacas por hectare que é tradicional na nossa região. As que produzem metano e que não contribuem para a fixação são as que estão estabuladas. Ou seja, as vacas leiteiras e alguns animais de produção de carne, mas aí a tecnologia hoje introduzida na própria alimentação, com aditivos à base de enzimas, faz com que a produção de metano seja reduzida quase ao mínimo, e por isso o contributo da pecuária, que às vezes se diz – como eu já vi nos jornais – que 43 por cento das emissões nacionais são originados pela pecuária e desses a maioria é das vacas, é perfeitamente mentira. Os 43 por cento são verdade, só que não é do total das emissões nacionais, é da parte das emissões associadas à agricultura, e a agricultura no seu todo, incluindo os trabalhos florestais, contribui com gases de efeito de estufa de nove por cento – nove por cento! – em relação à totalidade dos gases de efeito de estufa que são libertados para a atmosfera pelo resto das actividades humanas que nós produzimos.

Não faz mal então continuar a comer carne?
Pelo contrário. Comer carne de vaca, manter as pessoas no território, manter a ocupação dos territórios, não deixar que sejam invadidos por mato que vai arder mais tarde, e promover a economia com base nessa sustentabilidade nessas pastagens biodiversas é promover o equilíbrio ambiental. Portanto, comer carne de vaca ajuda o ambiente, ao contrário daquilo que tem sido dito.

Sobre o Autor

Nasceu e cresceu em Lisboa e viveu quase duas décadas no Oriente. Gosta de se referir como "escritor visual". Publicou um livro e é um ambientalista simplório. Reside em Odemira há uma mão cheia de anos, mas continua a deambular pelo mundo e por outros planetas.

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