Coisas que sempre foram assim…

FOTO: Git Stephen Gitau

São e foram, ao longo dos tempos, dadas como imutáveis muitas noções de organização política, social e económica que pertencem ao foro das “vacas sagradas”, nas quais não devemos tocar nem pôr em causa, sob pena de sermos vistos aos olhos politicamente correctos e de status quo, como lunáticos ou irresponsáveis desestabilizadores da ordem instituída. E, assim por receio do novo ou por defesa de interesses corporativos, de classe social, ideológica, cultural ou financeira, deixamos manter erros que atravessam gerações, desaguando em sofrimento, desigualdade, injustiça e até em falta de inteligência na resolução dos problemas individuais dos mais desfavorecidos ou até de maneira geral do bem-estar colectivo.

Em 2010, cheguei à cidade de Chokwé, província de Gaza com um protocolo de voluntariado numa mão e um punhado de ilusão na outra após ser nomeado novo coordenador geral de uma ONG. Tinha na altura responsabilidade pela gestão de 18 projectos e a jusante um impacto esperado em cerca de 10 mil pessoas. Educação, capacitação agrícola comunitária, furos de água e construções várias constavam no plano de trabalhos.

Numa das intervenções comunitárias a que tive acesso como mero espectador, aconteceu o episódio que aqui passo a relatar. Uma mãe de cinco filhos viu-se viúva porque o marido contraiu HIV e faleceu. Segundo a cultura e regras comunitárias vigentes naquela geografia, um dos irmãos do falecido teria que, de forma automática e integral, assumir a família, o que significava que toda a responsabilidade familiar passaria agora para os seus ombros.

Observado de forma ligeira e sob o ponto de vista da resolução do problema da senhora e dos seus filhos, cujo mais velho teria na altura 12 anos e o mais novo 3, podemos pensar que seria uma coisa boa. Refiro que assumir a responsabilidade pela família significava assumir também a cama da malograda viúva, coisa que aprendi na reunião convocada pela comunidade a que assisti como convidado.

Para quem possa não estar familiarizado com estes processos, refiro que o formato de casamento ainda muito em voga naquele canto do mundo envolve uma transacção de bens do pretendente noivo para a família da pretendida noiva, bens esses, que, caso aconteça algum problema, como a dissolução do casamento ou viuvez, terão que, ou ser devolvidos, ou nomeado um substituto para que o negócio se possa manter efectivado. Neste caso foi um dos irmãos do falecido (como é instituído) o nomeado pela família para manter o contrato válido.

Com a recusa da senhora em partilhar a sua cama com o escolhido, o assunto foi levado a conselho da comunidade e foi determinado pelos seus membros que a mulher e seus filhos teriam que abandonar a actual residência, porque, à luz da sua recusa em manter o contrato estabelecido, os bens pertenciam à família do falecido. Sair da casa significou perder também o sustento porque a sua maschamba, horta comum em todas quase todas as habitações rurais, deixou de ser sua. Assim se viu a viúva a viver na rua com os seus 5 filhos e sem fonte elementar de subsistência.

Após dois meses a viver debaixo de um cajueiro e em pleno desespero, porque a sua família devido à desonra do incumprimento contratual também lhe virou as costas, não teve outra solução que convocar de novo o conselho comunitário e aceitar as determinações que lhe tinham sido impostas anteriormente.

Após uns meses engravidou. O cunhado morreu de infecção recorrente de HIV ainda durante a sua gravidez. A criança nasceu seropositiva e a mãe acabou também por sucumbir, mais tarde, vítima de tuberculose fruto da imunodeficiência fulminante que adquiriu ao ter relações sexuais com o novo e também infectado marido.

Devido à petrificada e institucional decisão deste conselho, Xavito, filho mais velho, passou a ser o chefe da família. Tinha 14 anos na altura e ficou responsável pela subsistência de um irmão/primo de meses e mais quatro irmãos todos eles em idade escolar.

“O homem moderno está atrasado para a aula de história”.

Anónimo

Por certo quem possa estar a ler estas singelas linhas não deixará de considerar este caso como uma aberração e até como uma evidente prova de falta de civilidade ou de modernidade nas decisões obtidas pelo conselho comunitário que acima descrevo.

Permito-me ao uso deste exemplo como metáfora para indicar como considero também aberrantes tantas das nossas resoluções “comunitárias modernas” como aquelas que em nome dos poderes instituídos desviaram recursos para salvar obscuros bancos com milhões de prejuízo, enquanto milhares de idosos não possuíam um punhado de euros para se aquecerem no inverno, ou como de forma geral considero paleolíticas as decisões politicas de privatização de serviços estratégicos e essenciais para o bem-estar colectivo, nas áreas da saúde, educação, energia ou até nos transportes e água.

Assim como não posso deixar de considerar temporalmente protozoárias algumas das inclinações ideológicas e politicas que colocam os artificiais interesses económicos acima dos tangíveis colectivos humanos e ambientais.
Para quem julgue que será uma imbecilidade pensar diferente ou à frente do tempo, por certo Galileu teria uma resposta, coisa que a minha evidente pequenez não permite.

Sobre o Autor

Alentejano com meio século de vida, com travessuras feitas por várias áreas profissionais e coisas estudadas em terras inglesas e sul-africanas. Instrutor de Desenvolvimento por vontade do destino.

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