Verde é bom, dizem

O forte ataque, por parte de uma fação da comunidade, às estufas da hortofruticultura no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, leva a que muita gente, com receio, deixe de estufar produtos hortícolas em casa. E quanto à carne, quem o faz, fá-lo pouco à vontade.

Também preocupadas com as estufas, está um grupo de tias que já se manifestou publicamente, porque um dirigente político local anda a incentivar os seus sobrinhos a estufarem as primas. Além disso, consideram que se trata de mais uma “injúria relativamente à equidade de género e de um incentivo à violência contra as mulheres”.

Também os estofadores começam a rarear e, os que ainda trabalham, fazem-no a medo porque são, constantemente, confundidos com pessoas que vendem e montam estufas.

Quem é contra as estufas é porque não é planta.

As “flores de estufa”, por exemplo, estão muito ansiosas com a investida contra as estufas. “Se acabarem com as estufas, quem (ou o quê) é que nos protege?” Reclamam.

Em Lisboa existe uma estufa-fria e paga-se para lá entrar.

No Perímetro de Rega do Mira (PRM), as estufas são quentinhas e as pessoas são convidadas a entrar para as conhecer melhor. Não se paga nada e é oferecido um café. Mesmo assim fazem menos sucesso que a de Lisboa.

Em português, uma estufa é uma estufa, mas em inglês, uma estufa é uma “casa verde”. “Green is good”, dizem, ao ponto de haver quem queira, por todo o mundo, transformar o planeta azul num planeta mais verde(!).

Segundo o Good Country Index, no passado mês de abril, Portugal foi considerado o terceiro país mais verde do mundo. No governo já se fala em eliminar o vermelho da bandeira nacional.

O argumento de que as estufas são causadoras de emissões de CO2, e a preocupação com os “gases de efeito de estufa”, levam à crença de que as estufas do Perímetro de Rega do Mira são gases fingidos. Chega a haver quem as confunda com vacas, tal a quantidade de gases emanados.

Existe alguma ambiguidade no rigor da definição de estufa. No Perímetro de Rega do Mira parece nem as haver muitas. Na zona de S. Teotónio, há mesmo quem faça visitas guiadas a locais onde estas se avistam.

O que existe em maior quantidade, no PRM, são túneis. O que vai dar ao mesmo. Os túneis são estufas de segunda.

Os túneis do PRM sentem-se ultrajados com essa definição, pois consideram-se túneis de primeira.

As tias, com os túneis, sentem-se muito menos preocupadas porque (até ver) ninguém aconselhou os seus sobrinhos a tunar as suas primas. Os sobrinhos tunam carros e as primas tunem-se a si próprias.

Não obstante, os túneis são uma coisa boa.

Os túneis estreitam distâncias poupando tempo e energia, contribuindo, dessa forma, para a diminuição das emissões de CO2. E têm uma coisa extraordinária: uma luz ao fundo – considerada um sinal de esperança.

Parece que afinal, não é um mar de plástico que existe no Sudoeste Alentejano mas um mar de esperança. E, mais uma vez, vai-se dar ao mesmo: a cor da esperança é verde. E verde é bom, dizem.


ETHOS | do grego éthos –ous, costume, hábito
1. Conjunto dos costumes e práticas característicos de um povo em determinada época ou região.
2. Conjunto de características ou valores de determinado grupo ou movimento.
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Sobre o Autor

Produtor cultural de vocação e profissão. O jornalismo vem a reboque do seu sentido de justiça apurado e pela procura da verdade. O Amor e o Humor fazem parte da sua vida. Escreve de acordo com o AO 1990.

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