A Responsabilidade e o Compromisso

Tal como aqui no Alentejo há a tradição da manta de retalhos, que aproveita os restos de tecidos e lãs, faço também eu uma manta, pegando numa das pontas do último texto publicado.

Deixar morrer as partes de nós que já não servem, tal como as árvores nesta estação se despem, se rendem e se entregam ao vazio, é trazer saúde e bem-estar à nossa Vida, porque traz renovação, ainda que assim nos custe e nos faça doer, porque saímos da nossa zona de conforto. Mas até que ponto cada um de nós está comprometido verdadeiramente com a sua saúde, o seu bem-estar e a sua realização pessoal?

Para as filosofias e tradições mais ancestrais, de todas as partes do mundo, o mistério da vida era o bem mais sagrado da existência. A vida trazia nela intrínseca a qualidade do sagrado, muito antes de qualquer religião e muito antes de qualquer deus. Todas as forças cósmicas existentes protegiam a Vida, participando na sua manifestação e movimento natural. A vida estava no centro do Universo, como fonte de Criação.

Assim, quando falamos em criatividade estamos a falar de como usar a energia da criação para gerar mais vida. Criar vida, que se traduz em amor, saúde, alegria, prazer, sucesso exige responsabilidade e um compromisso diário.

Observo muitas pessoas dizerem que é muito importante ter saúde, mas o que realmente fazem para ter saúde? Que tipo de práticas usam no seu dia-a-dia para ter saúde? Infelizmente observo ainda que a atenção com a saúde é muito negligenciada. E há, sobretudo, uma grande negligência com a saúde emocional, sabendo-se hoje em dia que muitas das causas das doenças têm origem emocional.

A vida está constantemente a pedir atenção e cuidado de nós próprios. Então, ser responsável é ter habilidade de resposta aos pedidos que a vida nos faz. E o que nos pede é que cuidemos da nossa saúde de forma holística, como um todo integrado.

A saúde começa com pequenos cuidados diários como comer bem, fazer exercício, estar com pessoas que nos fazem bem, estarmos sozinhos, trabalharmos no que nos dá prazer, ou seja, dar resposta à vida e comprometermo-nos com ela – honrá-la – é assumir o nosso poder pessoal. E se pudermos fazê-lo com doçura, gentileza, amor, e com assertividade, melhor. No entanto, subsistem o boicote e a sabotagem em assumir esta capacidade, porque há um padrão mental de que responsabilidade é uma obrigação ou um peso. E saber dar resposta à vida é saber dizer sim ou não ao que nós desejamos. É dizer sim à nossa prioridade, à nossa forma de criar vida e criar saúde. É estarmos conscientes do que é bom para nós, do que queremos, sendo coerentes com aquilo que sentimos, pensamos e fazemos.

Na terapia Gestalt, descreve-se a neurose como a incapacidade de sermos coerentes. Nós somos coerentes quando conseguimos concretizar o que sentimos e o que pensamos. E o pensar vem sempre depois do sentir, para encontrar a forma de colocar em prática o que sentimos que é importante para nós: a necessidade.

Necessidade de relação, de nutrimento afetivo, de brincar, de estudar, de trabalhar num determinado projeto de realização pessoal, tudo o que nos trouxer alegria e bem-estar. Necessidades essas que vão desde as mais básicas até às mais transcendentes.

Na maioria das vezes, nem conseguimos chegar à capacidade de sentir as nossas verdadeiras necessidades e tomarmos ações que nos levem a satisfazê-las, porque estamos a viver a partir da mente e não conseguimos chegar ao corpo. No entanto, é necessário recordar que ele é o verdadeiro motor da nossa vida. É muito importante desenvolver a capacidade de percecionar o que necessitamos, porque a percepção vem de um estado de presença no corpo. Sem corpo não vamos a lado nenhum.

Por outro lado, impulsionados pela mente, existem medos inconscientes da responsabilidade e do compromisso, pois estão presentes no inconsciente coletivo e passam de geração em geração pela educação.

Os nossos pais e avós foram educados na disciplina e na rigidez. Consultando o dicionário, a disciplina está relacionada com a obediência e a submissão a uma autoridade exterior a nós. Sujeitar alguém à disciplina envolve também o castigo de várias formas, inclusive a física, revela também o dicionário.

Observo assim que este tipo de educação tem passado de forma mais ou menos consciente, e mais ou menos assumida e visível, até aos dias de hoje. Assim, a palavra responsabilidade e a noção de compromisso andam de mãos dadas com a velha noção de disciplina, onde aprendemos a respeitar sempre o outro, em primeiro lugar, antes de olharmos para nós próprios e para as nossas necessidades, com medo das consequências, onde o abuso emocional e físico são uma constante. Este tipo de padrões chamam-se introjectos, os quais precisamos de rever na nossa vida, se na realidade desejamos honrá-la.

Se permitirmos a possibilidade de renomear a noção de disciplina e virá-la a nosso favor, com amor, podemos fazê-lo começando por nós, de forma a atingir o compromisso com o nosso bem-estar, com a nossa saúde emocional, mental e física. No entanto, é um caminho de consciência, o de iluminar a sensação de que a disciplina nos volta contra nós próprios, em vez de se tornar um caminho nutritivo. Na medida em que ao conseguir resgatar o nosso poder pessoal, através da responsabilidade por todas as nossas escolhas, deixamos de exercer poder sobre os outros, não deixando que exerçam poder sobre nós.

O insano que se revela na inconsciência atual, ou o introjecto, a crença cega, está no fazer as coisas para agradar ou para obedecer a outros, tal como foi descrito. No entanto, não nos damos conta que permanecemos num ciclo sem fim de mentira pessoal, porque as nossas ações não vêm de um lugar de verdade, mas sim de um lugar de carência, para receber amor ou reconhecimento dos outros em troca. Desta forma ficamos condenados a relações de dependência e de manipulação, porque não conseguimos colocar em ação e em movimento o verdadeiro motor da vida, que se chama amor-próprio.

Se colocássemos o amor por nós em primeiro lugar e nos perguntássemos, antes de tomarmos qualquer ação, se determinada situação ou relação nos será positiva e nutridora, a nossa vida estaria sempre honrada e o ciclo de amor, de dar e receber, nunca parava. Assim, como o é na natureza. Na natureza não há escassez, não há falta, tudo é orgânico, tudo se move na relação das partes com o todo.

Mas não, no nosso caso, vivemos contra o movimento natural da Vida, e quando é necessário fazer algo que nos nutre, esse comportamento surge com culpa, porque não estamos acostumados a fazê-lo, já que ninguém nos ensinou a escuta interna em primeiro lugar. Estamos domesticados, infelizmente.

Existe ainda outro introjecto cultural que surge que é o do egoísmo. O egoísta é aquele que não partilha o que tem. Mas quem pode dar aos outros quem não tem para ele? Referindo um exemplo bem claro acerca deste introjecto, do livro “despertar, libertar e crescer”, é quando viajamos de avião e nos dão as indicações de salvamento. Em caso de despressurização, o que nos aconselham é a colocarmos a máscara primeiro em nós e só depois no nosso filho. É claro, que se não nos oxigenamos a nós, não vamos estar vivos para ajudar, nem o nosso filho, nem ninguém.

Atualmente, precisamos de uma nova educação afetiva, que nos oriente para o amor-próprio, respeitando os nossos sentimentos e necessidades, e para a capacidade de estarmos presentes para nós, aprendendo o dom da escuta interna. Precisamos de nos responsabilizar pelos nossos comportamentos, e assumir um compromisso diário por nos cuidarmos. Só nós somos responsáveis pela nossa saúde, de outra forma estamos a entregar o nosso poder pessoal aos outros e ao exterior.

Não há nada mais sagrado do que a vida e o maior serviço que temos é vivê-la na sua máxima potencialidade honrando os nossos dons e manifestando a nossa criatividade. Possamos nós criar vida, criar amor, criar alegria a todo o instante.

* CURANDEIRA CONTEMPORÂNEA

Sobre o Autor

Com uma vida dedicada ao estudo da consciência pela experiência da cura e da transformação do corpo e da alma, aliada aos estudos em Psicologia, Filipa culmina na ideia de curandeira, que na sua visão e sensibilidade criativas é a porteira para a cura de outros.

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