Pós-verdade As escandalosas vantagens usufruídas pelos trabalhadores do sector público

1 À tribo não interessa a verdade, o que importa é, per fas et nefas, ter munições para o combate. É o que se passa com um “pacote” sobre as escandalosas vantagens usufruídas pelos trabalhadores do sector público, em relação aos do privado, com a inevitável conclusão de que “nós”, “eu”, estamos, estou a pagar essas sinecuras – pacote partilhado fartamente nas redes sociais. Há um apelo, não ao civismo, mas ao espírito mais mesquinho, à invejazinha, sempre de resultado fácil, numa sociedade em que se está a cultivar a falta de solidariedade social. Tudo facilitado por um ambiente fortemente contaminado ideologicamente e carecido de racionalidade e de pensamento crítico.

Desta dicotomia, assaz artificial e obnubilante, ressalta que a média dos ordenados no sector público é superior à do privado, mais uma vez entrando no bolso dos portugueses, não verificando se é legítima a comparação (por, designadamente, ser diferente a estrutura laboral). Neste tempo de “pós-verdade”, apetece citar António Aleixo: “Para a mentira ser segura / e atingir profundidade / tem de trazer à mistura / qualquer coisa de verdade”.

Acrescente-se que os funcionários públicos representam em Portugal apenas 15% da população activa, um dos mais baixos rácios da Europa (Eurostat, 2018). Portugal é, aliás, de longe, o país da UE onde a massa salarial do Estado mais desceu, em percentagem do PIB, e vai continuar a descer (Pais Mamede, Diário de Notícias, 09.10.2018). Os grupos profissionais mais qualificados, os mais afectados, viram os seus salários caírem cerca de 30%, nos últimos anos. “Poucos e mal pagos!” (Eco.sapo, 23.02.2018).

Como já escreveu Pacheco Pereira, a “coisa” deve-se, politicamente, à “direita, cujo amor pelo trabalho e pelos trabalhadores privados se exerce em todos os sítios menos nas empresas e nas fábricas e muito menos na folha de salários e no respeito pelos direitos dos trabalhadores” (Público, 20.11.2017).


2 A ADSE, subsistema de saúde dos funcionários públicos, há muito tempo que é alvo dos mesmos “analistas”, que deixam no ar, ou afirmam peremptoriamente que esse regime assistencial é “um privilégio de alguns pago por todos”, incluindo-o frequentemente no “pacote” anterior. Na realidade, já aconteceu o contrário: o dinheiro da ADSE chegou a ser adicionado ao orçamento do Estado. Quase somos obrigados a reconhecer que, nesta questão, há dois tipos de gente: 1) os sócios da ADSE, que pagam integralmente o seu sistema de saúde, que pagam ainda, com os seus impostos, o SNS, para cuja melhoria duplamente contribuem pois, tendo direito a ele, não o sobrecarregam com a sua presença – e não andam por aí a reclamar que os outros lhes paguem. 2) e uma multidão de marmelos, a quem ninguém, e muito menos os sócios da ADSE, deve nada – e passam a vida a arrogar-se e a armar em patrões. Mas a superioridade moral dos sócios da ADSE não se fica por aqui: sendo a sua contribuição percentual ao salário, nunca vi nenhum a queixar-se que está a pagar aos outros.

Nos últimos dias, voltou a falar-se na ADSE. Pelos vistos os grupos de saúde privados com quem mantém acordos, têm o hábito de “sobrefacturar”, eufemismo para uma palavra muito feia. E mais, a constituir-se em cartel, o que é ilegal. Estamos numa fase (do capitalismo) de “fartar vilanagem”?

Sobre o Autor

Nasceu em Vila Nova de Milfontes, em 1945. Licenciou-se em História e exerceu a profissão de professor. Posteriormente doutorou-se, com uma tese sobre história portuária. Tem realizado pesquisa histórica, em particular sobre o Litoral Alentejano, cujos resultados têm sido publicados em livros, artigos e actas de simpósios.

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