O despertar da juventude Adivinham-se tempos duros na defesa do planeta

Distantes vão os anos em que os ambientalistas eram vistos como idealistas utópicos sem uma justa medida do bom senso. Lembro-me bem, porque os vivi como sujeito ativo, e foram ao mesmo tempo duros e de algum modo gloriosos, como acontece com as ações pioneiras e visionárias. Naqueles tempos do início do último quartel do século XX era preciso alguma audácia para afirmar que a sustentabilidade ambiental era mais importante que a riqueza imediata, e que se impunha pensar na conservação dos recursos naturais de forma responsável. Quem o defendesse não era levado a sério.

Por esse tempo começou a notar-se que alguns animais do sul da América estavam a ficar inexplicavelmente cegos, e que apresentavam outras maleitas graves, como tumores e enfraquecimento do sistema imunitário. Aos poucos foi-se percebendo que a camada de ozono que nos protege do excesso de radiação ultravioleta estava a ficar enfraquecida, e que residia aí a origem do mal. Percebeu-se também que o problema era global e já afetava o hemisfério norte, e a partir desse momento o assunto começou a ser resolvido…

Por esse tempo também alguns cientistas relacionaram o aquecimento global com as alterações climáticas e com os gazes de efeito de estufa que irresponsavelmente libertávamos (e continuamos a libertar) para a atmosfera. Alguns chamaram a atenção da sociedade para a necessidade de alterar práticas antes que fosse tarde demais. E os poderosos preocupados com a economia, e a gente comum preocupada com a telenovela, escarneceram dos que assisadamente pediam ações concretas e imediatas.

A poluição das águas começou a bater records, com nascentes contaminadas por todo o lado. Muitos dos rios que tinham sido transformados em esgotos de químicos perigosos foram recuperados e a vida voltou. Outros infelizmente ainda esperam que os interesses de todos valham mais que as vantagens de alguns, e continuam a ser contaminados de forma escandalosa.

Percebeu-se também que muitas espécies animais e vegetais estavam em vias de extinção (outras já mesmo extintas). Diz-se mesmo (e ainda ninguém o contestou) que nos últimos quarenta anos perdemos mais de metade dos animais selvagens do planeta, na maior extinção em massa desde o desaparecimento dos dinossauros.

E poderíamos continuar a descrever o rol de desgraças que temos vindo a criar no único planeta habitável que conhecemos, sempre com as mesmas justificações imediatistas que mais não são que desculpas esfarrapadas para o nosso egoísmo e cegueira. O facto incontornável e indiscutível é que o nosso bem-estar resulta em boa medida do esgotamento de recursos e degradação de sistemas vivos, e que a riqueza que criamos e usamos hoje é a pobreza dos nossos filhos e netos.

Mas algo está a mudar no mundo. Os jovens que até há pouco tempo, tal como as gerações mais velhas, ansiavam pelo consumo irresponsável sem pensar no futuro, começaram a perceber que cada grama de alimento que desperdiçamos hoje, é a fome de amanhã; que cada grama de carbono que se introduz na atmosfera agora, é o caos climático que terão que suportar; que cada peixe que se retira do mar sem necessidade, é um peixe que fará falta um dia; que cada descarga poluente que hoje contamina as nascentes, é a água que não se poderá beber amanhã…

E começaram a ver que os adultos de hoje, muito embora se façam passar por responsáveis e bons amigos dos seus filhos e netos, estão afinal preocupados apenas consigo mesmos e pouco se interessam pelo futuro das gerações mais novas. E pela primeira vez aconteceu uma greve mundial de estudantes. Não se envolveram nela todos os estudantes do mundo, mas como sempre acontece só os mais visionários e os de espírito pioneiro. Mas foi o acender do rastilho das consciências dos mais novos: perceberam que os governos, os poderosos, os adultos no geral, não querem saber deles nem do seu futuro. Preocupam-se apenas em viver bem hoje sem preocupação com o que deixarão para amanhã.

Adivinham-se por isso tempos duros na defesa do planeta, mas serão por certo também tempos gloriosos para a geração que tem como dever imperioso começar a recuperar aquilo que temos vindo a destruir. Este conflito que se adivinha será diferente dos anteriores que fizeram mudar o mundo, porque será um combate pela sobrevivência mas também um conflito de gerações.

Sobre o Autor

Geógrafo de formação; professor por profissão; investigador por vocação; irreverente por natureza; preocupado com o planeta e com o futuro de todos nós por obrigação.

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