O ambiente e a estética Porque se fala tanto das estufas?

Quando se construíram em Lisboa os prédios das Amoreiras, criou-se uma campanha na opinião pública contra a “atrocidade urbanística” que se estava a desenhar na cidade. Foram construídos ainda assim, e passados anos as críticas deram lugar a elogios

À nossa escala, não faltaram insultos pela instalação de uma escultura numa rotunda: é o sobreiro de ferro que foi colocado na parte baixa da vila de Odemira. Ao tempo da sua instalação no local a maioria das pessoas mostrava-se fortemente descontente com a opção do município, e não faltaram os qualificativos negativos para a obra, para o seu autor e para a autarquia.

Hoje, silenciadas as vozes críticas, o grosso da comunidade aprecia a obra, e vendo os estrangeiros que se dão ao trabalho de a ir fotografar, entendem mesmo que afinal é uma mais-valia para a terra. Foi assim também no passado, com os moinhos de vento ou com os palacetes dos brasileiros, primeiro detestados e depois protegidos… É assim quase sempre quando há mudanças.

os críticos das “estufas”, geralmente ficam-se pela questão estética e não aprofundam mais que isso

Do ponto de vista estético somos profundamente conservadores, mas isso nem me parece que seja uma característica exclusiva dos portugueses, mas antes algo comum ao ser humano de todas as latitudes e longitudes: gostamos de ver as coisas conforme as conhecemos, sobretudo se em jovens, e detestamos que nos mudem o mundo no qual nos sentimos confortáveis. É assim, e ponto final.

No entanto, tal como em consequência da redução da precipitação foi necessário acrescentar moinhos de vento às velhas azenhas (que já não conseguiam moer farinha bastante para as necessidades), também outras mudanças acabarão sempre por se impor, apesar do choque que isso nos possa provocar…

Esta breve introdução serve para lembrar que em boa medida a nossa oposição coletiva à agricultura realizada em “estufas” e “túneis” tem em primeira análise uma motivação estética: não gostamos de ver aquelas camadas de plástico a cobrir os campos antes verdes ou secos, mas limpos de materiais sintéticos.

E pronto, para a maioria das pessoas a questão resume-se a isto: a agricultura ou é ao ar livre, e nesse caso é boa, ou é em abrigo, e nesse caso é detestável.

Como quase sempre acontece as explicações assim simplistas pecam por ser muito insuficientes, parciais ou mesmo erradas, e também é certamente o caso no que respeita às tão odiadas “estufas”.

De facto, raramente vejo associadas às críticas à agricultura feita em abrigo algo de substantivo, como seja alguma referência ao tipo de culturas que nelas se desenvolvem, aos métodos usados, aos produtos químicos que possam contaminar a água, o solo ou o ar. Portanto, os críticos das “estufas”, geralmente ficam-se pela questão estética e não aprofundam mais que isso.

Enquanto isso, os críticos são absolutamente complacentes com algumas culturas que se desenvolvem ao ar livre, muito embora por vezes sejam bem mais perigosas para a nossa saúde, para a qualidade das águas superficiais e subterrâneas (e quem sabe para as próprias águas da costa) para a vida selvagem, para flora natural, para a vida dos solos…

Parece que se é feito fora da estufa, tudo bem, se é feito em espaço coberto por plástico (ou vidro) então temos problemas sérios e preocupantes. Contudo, parece que se esquecem que até podemos ter agricultura biológica feita dentro de uma estufa, e que também há culturas agrícolas realizadas ao ar livre que contaminam completamente o ambiente em que vivemos.

Parece por isso que para uma análise racional dos impactos negativos que a agricultura pode ter no ambiente em que vivemos, e portanto nas nossas vidas, não basta pensar no “plástico”.

podemos ter agricultura biológica feita dentro de uma estufa, e culturas agrícolas realizadas ao ar livre que contaminam completamente o ambiente em que vivemos

Por isso, talvez seja melhor começar a ver qual o tipo de adubação que se pratica em cada cultura, tal como será bom verificar se são usados herbicidas (e quais são eles), se se aplicam outros agroquímicos, como inseticidas ou fungicidas, qual a quantidade de água que se gasta com a cultura…

É certo que não gostamos de ver os plásticos no campo; é claro que isso pode prejudicar o potencial turístico da região; é claro que algumas das culturas feitas em estufa usam muita mão-de-obra, e que ela é maioritariamente estrangeira, e que há quem não se sinta confortável com a situação.

É claro tudo isso, mas também é claro que os maiores impactos negativos para o ambiente não resultam de a cultura agrícola ser realizada dentro de uma estufa ou fora dela. Por isso penso que temos que ser muito mais exigentes com a agricultura, garantindo que ela não atenta contra a saúde de quem cá trabalha, de quem cá vive, e de quem dela se alimenta, mas isso nada tem que ver com estufas.

Pensem no assunto.

Sobre o Autor

Geógrafo de formação; professor por profissão; investigador por vocação; irreverente por natureza; preocupado com o planeta e com o futuro de todos nós por obrigação.

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