Baquelite “baquelite” era o plástico mais antigo

fotografia: Ben Decoster

Aquilo era uma peça de estatuária feita em série, coisa em latão cromado, daquelas que no século XX enfeitava as estantes e aparadores das casas da classe média. Era um cavalo em pleno salto, talvez para um futuro diferente que muitos nesse tempo ambicionavam. Mas o cavalinho luzidio tinha que estar ancorado a uma base que lhe desse estabilidade, e essa base partiu. Era de “baquelite”, como dizia o meu pai, e a “baquelite” era quebradiça.

Eram de “baquelite” outros objetos que conhecia e usava nesse tempo. O velho telefone de disco era um dos clássicos que ainda hoje se vai vendo em cenários de filmes antigos, mas havia outros, como os interruptores dos candeeiros e de parede, e outros equipamentos elétricos que necessitavam de materiais isolantes.

Só já adulto percebi que aquilo a que o meu pai chamava “baquelite” era na verdade o plástico mais antigo, coisa que nasceu há perto de um século, e que se mostrou de grande utilidade na produção de alguns objetos industriais da vida moderna.

Mas a “baquelite” desse tempo sempre me pareceu um material diferente daquilo que hoje chamamos de “plástico”. Desde logo pelo caráter de exceção dos objetos que eram feitos dessa “baquelite”: nada de descartável, nada de baratucho, nada de corriqueiro e banal. Era material, como quase tudo feito nesse tempo, produzido para durar. A baquelite servia para coisas caras, raras, e às vezes quase nobres, como a base da pequena estátua do cavalinho da estante da minha infância. E tudo isso é a antítese da nossa imagem do plástico atual, marcado à nascença pela banalidade e baixo custo, abundância e mesmo pela sua descartabilidade. Talvez por isso, eu e por certo muitos outros como eu, nem julgasse que “baquelite” era afinal apenas um primeiro tipo de plástico.

A tecnologia e a química também contribuíram para que a imagem do plástico moderno se diferenciasse da imagem da velha “baquelite”. Foram criados muitos aditivos para outros tantos tipos de plásticos destinados a usos diferentes. Adicionaram-se componentes para tornar os plásticos maleáveis, para que não ardam com facilidade, procuraram-se outras matérias-primas para a sua constituição, e hoje temos mais de 350 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente de todos os tipos e para uma imensa diversidade de usos. E quase todos descartáveis, ou com uma obsolescência prevista de pouco tempo.

Ora isto quer dizer que todos os anos temos também centenas de milhões de toneladas de plásticos rejeitados como lixo, e temos assim um problema do tamanho de centenas de milhões de toneladas para resolver…

Sabemos que uma parte desse plástico pode ser reciclado, mas outra parte não, e sabemos também que, seja ou não reciclável, a maioria do plástico produzido vai parar a aterros, aos solos, aos oceanos… Algumas fontes dizem que depois de 1950 já se produziu no mundo qualquer coisa como 8,9 mil milhões de toneladas de plásticos, e que desses apenas 600 milhões de toneladas foram reciclados. Ora isso significa que 8,3 mil milhões de toneladas ou estão em uso ou foram deitadas fora. Por isso temos aterros e lixeiras onde dominam os plásticos, tal como os oceanos, que tanto à superfície como no fundo têm já quantidades gigantescas de plástico.

Mas o mais grave é que, mesmo com consciência do problema, a produção de plásticos no mundo não para de crescer, e a reciclagem do material produzido continua a ter valores muito envergonhados. Tal como com as alterações climáticas, em que depois de tudo o que se sabe, depois das previsões de um futuro cada vez mais assustador, se continua afinal a emitir todos os anos mais dióxido de carbono para a atmosfera que no ano anterior, também nos plásticos se fala muito e se faz afinal muito menos que o necessário.

A consciência crescente da degradação do ambiente e da necessidade urgente de o proteger, tem levado à mudança de comportamentos das pessoas, e a algumas atitudes positivas dos governos do mundo. No entanto é tudo ainda muito lento, tudo feito com muito medo de afetar as empresas e a economia, como se a economia fosse mais importante que a nossa vida e perspetiva de futuro dos nossos filhos e netos. Tal como com as alterações climáticas (em que aquilo que os políticos do mundo pensam ser um objetivo muito ambicioso – atingir a neutralidade carbónica na Europa até 2050 – é afinal um objetivo de muito pequena ambição), também na redução da produção dos plásticos e na definição de metas para a sua reciclagem os “grandes passos” aclamados pelos políticos não passam de pequenas medidas, positivas, é certo, mas muito insuficientes.

Mais uma vez, cabe-nos a nós, cidadãos, mudar as nossas próprias práticas e pressionar os dirigentes para que tomem decisões corajosas na proteção da casa onde vivemos.

Sobre o Autor

Geógrafo de formação; professor por profissão; investigador por vocação; irreverente por natureza; preocupado com o planeta e com o futuro de todos nós por obrigação.

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