Sopram ventos de mudança Por que lado é que ainda não se sabe

fotografia: Jordan Ladikos

Por vezes, sem quase se perceber porquê, sentimos as mudanças que se avizinham. Não haverá certamente uma explicação racional, algo que se possa descrever como fator ou conjunto de fatores a explicar a mudança que anda no ar, mas ela parece bastante real e sentida quase universalmente. Ouvimos dizer e repetir, que depois disto nada voltará a ser como antes. Valerá a pena pensar um pouco no assunto.

Em abono da lógica e com base na simples razão, nada pode antecipar essa mudança que ao que parece todos adivinham e julgam que acontecerá fatalmente. Pelo contrário, na tradição conservadora nacional pareceria lógico que após confinamentos, estados de emergência e susto generalizado, se voltasse à rotina anterior, com os mesmos papéis inúteis a circular pelas mesmas repartições, a mesma burocracia, a mesma vidinha regular e previsível que a população maioritariamente envelhecida que somos, gosta. Mas não. Antecipam-se repetidamente mudanças, como se fosse inevitável uma nova atitude face à vida e ao mundo.

É curioso que, podendo parecer observador menos atento que esta sensação de que algo vai ter que mudar é fruto da pandemia e da convulsão social e económica que ela gera (ainda estamos só no início), o facto é que essa ideia de mudança andava já no ar no ano passado. Se nos lembrarmos bem, antes da pandemia que obliterou completamente as demais notícias do mundo (notem que ao que parece continua a haver mundo, com guerra, fome, acidentes, catástrofes naturais, etc.), já se vivia uma certa ansiedade como consequência da tomada de consciência progressiva que o modelo de sociedade que temos não é sustentável. Falava-se de crise climática, de extinção em massa de seres vivos, de um mar de plásticos nos oceanos, das águas contaminadas, mostravam-se imagens daquela menina sueca com mais juízo que muitos senhores respeitáveis de gravata e gabardina…

No final de janeiro último, em Davos, os poderosos do mundo reunidos no Fórum Económico Mundial, desenvolviam conversas em torno da ideia de um mundo mais coeso e sustentável (!). Ou seja, mesmo os que efetivamente definem o futuro do mundo de forma quase independente das eleições e de quem as possa vencer, assumiam que o mundo, conforme está, não pode continuar sob pena de colapso de consequências imprevisíveis.

E efetivamente, a pandemia do Covid 19 terá consequências muito menos gravosas para a sociedade e mesmo para a economia, que a crise ambiental de que já não se fala, mas continua em desenvolvimento. E é também evidente que os mais poderosos do mundo que se juntam em Davos, sabem disso, mas também sabem que o remédio para os males do planeta é muito mais difícil de conseguir que a vacina que talvez consiga travar a pandemia.

Por isso, nos planos para a retoma “pós- Covid” que se vão fazendo um tanto por todo o lado, mas em particular na Europa, a tónica está a ser colocada em conseguir aproveitar toda a turbulência que se vive para efetuar mudanças estruturais na forma de produzir, de trabalhar, e mesmo de viver. Aos mais distraídos parecerá uma resposta à crise sanitária, mas efetivamente será sobretudo uma nova forma de viver motivada pela crise ambiental, social e mesmo de valores.

Mas independentemente das motivações mais claras ou mais obscuras dos que mandam no mundo, todos sentimos que temos mesmo que mudar muita coisa, até porque a vida que a maioria da população dos países ricos leva, embora cheia de consumo e conforto, é insatisfatória. Também talvez tenha sido para dar resposta a essa insatisfação de vidas vividas a trabalhar para consumir, e a consumir para que haja trabalho, que tantos aproveitaram esta oportunidade da crise sanitária para ajudar os outros, para se sentir úteis, como algo que se faz, mas vale realmente a pena fazer.

E o pensar no bem da comunidade e o voltar ao ideal de “bem comum”, como objetivo nobre de vida, pode ser que venha a destronar a primazia do interesse individual como motivação para o funcionamento da sociedade. Não sei se a mudança passará por aí, mas parece-me que é bem possível que sim.

Sobre o Autor

Geógrafo de formação; professor por profissão; investigador por vocação; irreverente por natureza; preocupado com o planeta e com o futuro de todos nós por obrigação.

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