Predestinação

Ao sair de casa pisou cocó de cão. Nesse instante soube que esse dia não iria correr bem.

Era um homem normal e banal de 45 anos, encarregado duma loja de telemóveis.

A sua vida não tinha muita vida, no sentido de que ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

Tinha mulher e dois filhos (um menino e uma menina), às quintas à noite jogava cartas com os amigos, sábados ia ao cinema, domingo à igreja e passeava com a família num qualquer centro comercial da cidade, e três vezes por semana fazia amor com a sua mulher (segundas, quartas e sextas), rápido, rotineiro: três ou quatro minutos, no máximo, sempre na mesma posição, a tradicional missionário, pois a sua não aceitava outra porque dizia que eram “porcarias”.

No caminho para a paragem do autocarro, para ir trabalhar, tratou de tirar, num canto, a sujidade do presente do cão que tinha no sapato. Uma e outra vez raspou a sola num degrau. Alguma coisa conseguiu tirar mas não toda. Perguntava-se se alguém iria perceber o cheiro que levava ao entrar no autocarro ou se os seus colegas de trabalho notariam alguma coisa.

Nesse momento passou um indivíduo a correr como se alguém o perseguisse. Ao passar pelo contentor do lixo, atirou alguma coisa lá para dentro e continuou a sua corrida. Não havia mais ninguém na rua. Ainda era cedo. Apenas os passarinhos da manhã, à procura de alimento, foram testemunhas do sucedido. O homem, curioso, ainda com a metade do sapato sujo, foi até ao contentor e ao abri-lo reparou que havia um grande envelope. Abriu-o e tal foi seu espanto quando viu que estava cheio de notas verdes.

Olhou à sua volta, para verificar se estava a ser visto. Não havia ninguém, por enquanto. Enfiou o envelope dentro da sua mala de trabalho e apressou-se para a paragem do autocarro. Não queria acreditar naquilo que tinha encontrado. Pensava em quanto dinheiro poderia lá ter, pois era um envelope bastante volumoso. Ao descer do autocarro olhava para todos os lados para ver se alguém o seguia. Caminhava com lentidão. Por vezes parava nas montras das lojas para dissimular.

Ao longo do dia, não conseguiu esconder o seu nervosismo. Falava com os clientes a gaguejar, como se fosse suspeito de alguma coisa. Olhava para os seus colegas com insegurança. Transpirava mais do que o normal. Olhava para o relógio, uma e outra vez, para ver quando é que acabava a jornada de trabalho. Ansiava chegar a casa para abrir o envelope e contar o dinheiro que lá tinha; muito, com certeza. O volume do envelope e as numerosas notas que viu, faziam pressagiar a sua iminente riqueza.

Finalmente chegaram as cinco da tarde. Saiu do trabalho e ao descer uns degraus para apanhar o metro tropeçou e aleijou o pé. O mesmo do sapato com o cocó de cão. Foi auxiliado pelo segurança e, decisivamente, teria de ir para o hospital tratar do pé. Chamaram uma ambulância e, na espera, apareceu a polícia. Foi identificado e tal foi a sua surpresa quando foi detido.

Após ser tratado e custodiado pela polícia, foi para a prisão onde soube que tinha havido um assalto a um banco. Ninguém suspeitaria dele pois era um homem honesto, responsável. Muitas investigações foram feitas e nenhuma apontava para ele mas, quando os polícias do metro abriram a sua mala de trabalho para o identificar e encontraram o envelope cheio de dinheiro, ficou em evidência a sua culpabilidade.

De nada valeu explicar como o obteve. Teve uma pena de 15 anos de prisão.

Nunca este homem disse a palavra “predestinação” mas, sem saber, soube que aquele dia não iria ser o seu dia, desde que pisou o cocó do cão do vizinho.

Sobre o Autor

Clown Enano, natural da Peninsula Ibérica, acredita que cada momento é único e especial, assim como cada artigo que escreve para o mercúrio. Pai, Palhaço de Vida, activista, sonhador, amante do Alentejo há duas décadas. Viajante universal.

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