Vinho Encosta da Fornalha
Fornalhas Novas é a primeira localidade que se encontra ao pé da estrada quando se entra no concelho de Odemira pela N262 (ou a última quando se sai). Tem apenas 5 ruas. Assim que se chega, logo depois da escola, vira-se na primeira à esquerda e desemboca-se na Adega dos Nascedios, a adega onde são transformadas as uvas do monte com o mesmo nome, em vinho, o Fornalha, o Encosta da Fornalha e o Anima de Fornalhas.O simpático Spot, o cão “de serviço” dá o sinal de aviso ao seu dono, Luís Ribeiro, o perfeito anfitrião
“Não foi por acaso que começamos a vinha”, revela. Em Torres Vedras Luís já tinha algumas vinhas e trabalhado nelas também com o seu pai e com o seu sogro. Ficou o sonho de produzir o seu próprio vinho, e a sua experiência fê-lo ver que o clima e o solo de Fornalhas tinham potencial para a produção de vinho de qualidade.
“Esta zona faz o casamento entre a influência da humidade do litoral com o interior seco do Alentejo. Tem a vantagem de não ser demasiado seco nem ter tanta humidade. Também nesta zona, em relação ao Oeste, é muito mais fácil de tratar a vinha.
Conseguem-se melhores maturações. O tempo quente, a temperatura relativamente alta, e a ausência de chuva na altura da colheita têm sido um fator importante.”
A EXPLORAÇÃO
O Monte dos Nascedios tem cerca de trinta hectares. Luís arrenda mais duas parcelas com cerca de dezoito hectares cada uma para a sua exploração de gado bovino. “Tenho quarenta cabeças de ‘limousine’. Não quero ter muitas para que elas tenham pasto suficiente e assim mantemos o campo limpo e equilibrado”.
A Adega dos Nascedios é uma exploração familiar. Para além da família, trabalha uma pessoa o ano inteiro e cerca de dez pessoas, em trabalho sazonal, para podar, fazer a empa, atar e plantar a vinha. A plantação de vinho começou com quatro hectares e foi crescendo até aos 15 hectares de hoje.
“Fomos aumentando porque fomos vendo que o vinho tinha saída”, diz Luís.
Parte da vinha foi enxertada na existente mas a restante foi plantada.
“Aqui fazemos o ciclo todo da vinha, desde a plantação até à transformação e à colocação no mercado. Somos vitivinicultores”.
“Na altura não pensei fazer logo a adega mas acabei mesmo por fazê-la. Foi um investimento considerável porque a parte da transformação exige muito. Transformei alguns dos pavilhões da pecuária antiga que existia aqui e recuperámos um outro. Felizmente conseguimos dominar bem essa tarefa”, conta.
Luís não tem pressa de fazer crescer a produção. “Uma área assim controla-se mais facilmente e mantemos a sensibilidade para o vinho e faço isto pelo prazer de produzir bem e com gosto”, confidencia.
Luís pretende aumentar a adega para poder receber melhor os cliente que a visitam. “Cada vez mais há a cultura do vinho, mesmo nas camadas mais jovens, portugueses e estrangeiros. As pessoas gostam dos pequenos produtores pela proximidade. Querem saber tudo acerca da nossa produção, e querem estar um bocadinho a provar o vinho. As adegas estão a transformar-se em lugares de visita e de comunicação da cultura local”. Por esse motivo a ideia é fazer uma sala de provas maior e um terraço por cima para se poder provar o vinho com vista para a vinha.
Há ainda a intenção de, no futuro, criar ali uma pequena unidade hoteleira. “Mas por enquanto ainda não. Preciso de ajuda e os meus filhos ainda estão a estudar”.
O SOLO
“Estes terrenos não são muito férteis o que é bom porque obrigam a vinha a ter de ir para baixo à procura dos minerais e a desenvolver bem o sistema radicular. São terrenos franco argilo arenosos mas com calhau rolado (nuns lados menores, noutros maiores) o que é diferente de terrenos muito férteis”. Explica Luís.
Toda a vinha é de regadio. A rega é feita com sistema gota a gota. “O investimento é maior mas é necessário, nos primeiros quatro anos, para as plantas poderem vingar e depois para dar suporte até à maturação das uvas”.
A água vem da Ribeira da Gema, um afluente do Rio Sado e de uma barragem feita por Luís junto à vinha. “A área é pequena mas tem cerca de oito metros de profundidade”.
OS TALHÕES
Os talhões são divididos em onze castas diferentes: quatro de uva branca – Antão Vaz, Arinto, Alvarinho e Viognier – e sete de uva tinta – Trincadeira, Touriga Nacional, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Castelão, Alicante Bouschet e Syrah.
“O Alvarinho nesta zona não é muito vulgar mas foi uma experiência que quisemos fazer com a ajuda do nosso enólogo. Foi uma experiência muito boa! Não tem nada a ver com o Alvarinho do norte que é vinho verde. Tem baixas produções mas tem muita qualidade, é um vinho aromático”. O Arinto é já uma casta muito utilizada no Alentejo. “O Viognier também foi uma experiência que resultou com muita qualidade”.
Nos tintos a base dos vinhos da Adega dos Nascedios é Aragonês, com cerca de 40%. “Depois vem o Cabernet, a Touriga Nacional e o Alicante Bouschet que é uma casta com a qual se consegue obter uma boa qualidade no vinho, para além de ser uma casta muito generosa na produção”, explica Luís, “numa zona alta, onde haja competição do solo e agressividade do clima, o Alicante Bouschet concentra na cor e nos aromas”. Luís confidenciou que pretende, um dia, fazer um vinho monocasta de Alicante Bouschet.
OS TRATAMENTOS
Luís considera o seu vinho “quase biológico” pois a produção é feita em modo de “produção integrada”.
O míldio e o oídio são mais comuns em zonas mais húmidas. “Aqui nota-se às vezes, ao fim do dia, chegar alguma humidade mas é diferente de estar no litoral, que tem as suas vantagens mas também tem a questão dos fungos que atacam a vinha e a consequente aplicação de fitossanitários”.
Os solos do Monte dos Nascedios são bem drenados e não retêm muita água à superfície (encostas). O ambiente é um pouco seco e as carreiras são largas para um bom arejamento.
Para desinfetar a vinha e afastar os ácaros é utilizado enxofre, produto autorizado na agricultura biológica.
“Normalmente fazemos uma desinfeção apenas com enxofre e só em anos muito controversos, atípicos em que haja uma persistência muito grande de chuva, de calor e de humidade é que fazemos mais tratamentos contra o míldio, mas é raro e aplicamos sempre o mínimo necessário”, informa Luís.
O enxofre não é um produto sistémico, não entra na planta, não deixa marcas.
A fertilização das plantas é feita com o estrume do gado da exploração do Monte das Fornalhas. Por vezes, para ajudar a controlar as infestantes, o gado e os dois cavalos de Luís são colocados dentro da vinha, na altura do repouso vegetativo, desde as primeiras ervas até à rebentação. “Os animais andam linha acima, linha abaixo e vão controlando as infestantes e largando matéria orgânica. É um bom equilíbrio. Temos também uma escavadeira mecânica para limpar por debaixo da vinha e assim evitamos os glifosatos.
A UVA
A Adega dos Nascedios encontra-se mesmo junto à vinha, o que faz com que a uva chegue lá cinco minutos após a sua colheita.
Parte da colheita é feita mecanicamente, durante a noite ou de madrugada , até às nove ou dez horas, quando ainda não há calor. Quando a uva de alguma casta, em determinadas zonas, está melhor que outras, a colheita é feita manualmente para se fazer o vinho de colheita selecionada e reserva. “As maturações da uva aqui são muito boas e não há grandes diferenças entre os cachos, o que contribui muito para se conseguir fazer um vinho com muita qualidade, e não deixar que haja o mínimo de oxidação. Isto é mesmo o ponto número um”, explica Luís.
A orientação das plantas também ajuda à boa maturação da uva. Para isso, é importante proteger a uva do sol. No Monte dos Nascedios as plantas estão orientadas no sentido norte-sul. “De manhã o sol incide sobre um dos lados, ao meio dia está por cima e a uva é protegida pela vegetação, eliminando alguma tendência de escaldão e ao fim da tarde o sol, já com os raios mais oblíquos, incide mais sobre o outro lado. O vento aqui não tem muita influência. O mais importante é proteger a uva da incidência do sol”.
O VINHO
A vinha do Monte dos Nascedios produz anualmente uva para uma média de oitenta mil litros de vinho. “Se for tudo engarrafado já é um volume considerável”, informa Luís.
Uma adega tem de ter os dois vinhos, o tinto e o branco. “É quase obrigatório”, diz, “oitenta por cento dos clientes procuram tinto mas cada vez mais se procura o branco, sobretudo na época do calor”.
Para Luís, fazer um bom vinho branco é muito mais difícil que fazer um bom vinho tinto, tem de se ter cuidado redobrado com a oxidação para que o vinho fique cristalino, limpo e fresco. “Há que ter muito cuidado a produzi-lo. Por acaso, ultimamente, temos tido uns brancos muito bons”.
Os vinhos da Adega dos Nascedios, são:
Fornalha – Branco e tinto. Uma parte do vinho é embalada em “bag in box” (vinho numa bolsa plástica dentro de uma caixa de cartão) “para aquele cliente que quer um vinho mais acessível”. É um vinho da última colheita.
Há a ideia generalizada de que o vinho em “bag in box” é de qualidade inferior mas Luís garante que, no seu caso e noutros também, não é verdade.
Encosta da Fornalha – Tinto Regional e Branco Regional. “Consideramo-lo como um vinho alentejano mais básico, ou seja, um vinho bem feito, frutado, agradável e sem defeitos”. Tem o custo ao público de €4,50. Pela sua qualidade, é um vinho que poderia ser mais caro. “Mas temos que ter vinhos acessíveis e concorrentes no mercado para chegarmos a toda a gente”, explica Luís.
Encosta da Fornalha Colheita Selecionada – Tinto com estágio em madeira de carvalho francês. “A grande diferença aqui é que o vinho estagia em carvalho francês, conferindo-lhe mais estrutura, aroma, taninos aveludados, melhor amadurecimento, preservando sempre a fruta, neste vinho que enche o palato, e é redondo’”. É um vinho um pouco mais caro, €6,50, “devido ao tempo de estágio e ao custo das barricas”. Cada barrica de duzentos e vinte cinco litros, é fabricada em França, e tem um custo elevado, dá para três ou quatro utilizações. “Uma barrica ao fim de duas ou três utilizações deixa de fazer o mesmo efeito ao vinho. Quanto mais nova é a barrica, mais recente é a tosta, mais aromas são transmitidos ao vinho, assim como mais taninos. As barricas mais novas também permitem mais oxigenação do vinho do que as velhas uma vez que a madeira não está impregnada pelos vinhos antigos. Os taninos da madeira dão mais longevidade ao vinho.
Anima de Fornalhas – Tinto Reserva. Este é um vinho que custa cerca de €20,00 ao público. É um vinho com mais estrutura, mais aroma. “Consegui reunir nele, aquelas características que evidenciam um vinho de maior qualidade: muita fruta, muita estrutura, ‘redondo’, aromático”. O Anima tem um estágio em barricas de carvalho francês cerca de um ano e meio.
O Anima de Fornalhas já ganhou uma medalha de ouro, no concurso de vinhos nacionais do Crédito Agrícola, e duas medalhas de prata consecutivas (“portanto não foi um ano ‘por acaso’”, reforça Luís) na Mundus Vini, na Alemanha, considerado um dos maiores e mais importantes concursos de vinhos do mundo, onde concorrem cerca de dez mil vinhos (números de 2016) de cento e cinquenta regiões diferentes, do mundo inteiro, analisados por duzentos e setenta especialistas de vinho de quarenta e quatro países. “Tivemos 88 pontos, o que foi muito bom!”, repara Luís com algum orgulho e brilho nos olhos. “Estes concursos servem, essencialmente, para nos situarmos no mercado, para confirmarmos a qualidade dos nossos vinhos”.
Em breve a adega irá produzir um vinho com o seu nome: Nascedios. O nome Fornalha tem a ver com a existência de várias fornalhas de produção de carvão na região.
O CONTROLO
“Somos bastante controlados”, diz Luís. Os vinhos da Herdade dos Nascedios são certificados pela Comissão Vitivinícola da Região do Alentejo (CVRA). De cada vinho são retiradas 6 amostras do depósito. Uma fica na Adega, cinco garrafas são levadas, uma vai para o laboratório, (análise química), 3 para prova organoléptica, e sensorial a restante serve de contraprova. “O vinho regional tem de ser engarrafado com determinados padrões. Se, depois de estar no mercado, acontecer algum problema existe a contraprova para verificar se o vinho é igual ao analisado. Não podemos certificar um vinho e engarrafar outro”.
O controlo também é feito nas plantações. Verificam-se as áreas de plantação, se estas obedecem aos direitos concedidos ao produtor e verificam-se se os espaçamentos entre linhas estão corretos, porque há normas de plantação.
“Aqui optei por adensar mais na linha mas ter mais espaço entre linhas, três metros, e assim passa melhor qualquer trator, é mais fácil de trabalhar e há mais arejamento”.
A COMERCIALIZAÇÃO
Nas primeiras colheitas Luís colocou uma placa junto à estrada com a indicação da Adega dos Nascedios . “As pessoas que passavam começaram a saber que aqui havia uma vinha e vinham comprar vinho e foram espalhando a palavra”, recorda Luís.
Mais tarde o vinho começou a ser distribuído nalguns supermercados e restaurantes da região.
“Foi tudo devagarinho”, lembra, “no primeiro ano ainda pensamos em vender a uva mas não existem cooperativas por perto”.
A comercialização foi-se desenvolvendo sem pressas. Apesar de não gostar muito, é Luís quem a faz. “Nunca tive jeito para vendedor mas para vender o meu vinho tive de o arranjar”.
O vinho é vendido, maioritariamente, na região. Entre Setúbal e o Algarve “mas temos algumas encomendas para outros lugares, como um restaurante na zona histórica de Sintra. Também exportamos algum vinho”.
O concelho de Odemira não é grande consumidor do Fornalha. “Santos de casa não fazem milagres”, brinca Luís, “mas também é verdade que não há muita tradição de vinha neste concelho”.
Felizmente, segundo Luís, o vinho é todo escoado no mercado, o negócio está a funcionar bem. “Nas duas últimas colheitas houve falta de vinho alentejano, a procura foi muita e a produção foi inferior a esta. Houve geadas tardias”, explica Luís, “nós não fomos afetados porque estamos aqui num ponto médio que nem é litoral nem interior e não se verificaram essas geadas”.
No futuro Luís quer aumentar o engarrafamento e diminuir o vinho de “bag in box”.
NOTA FINAL
“Os meus filhos estão motivados para vir para aqui e é outro conforto sentir que alguém irá dar continuidade a isto tudo. O mais difícil já está feito”, sorri, “temos a confiança e a confirmação de que o nosso vinho é muito bom”.